Daqui e de lá…

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Li, hoje, um artigo bem longo, bem escrito, irônico e sarcasticamente arrasador. Depois dele, havia ligações para outros artigos do mesmo autor cujo nome, obviamente, ne escapa enquanto escrevo estas linhas. O tal de artigo falava sobre uma nova biografia de Sigmund Freud, ainda inédita na língua de Camões. Escrita em Inglês, por um eminente professor de Literatura numa eminente universidade europeia, nas palavras do articulista, ai acender u incêndio devastador sobre a herança do austríaco que, nas palavras dele, identificado (ainda) está como mito. O artigo fala das descobertas sobre traições, fraudes metodológicas, apropriações indébitas de ideias, articulações maculosas para se livrar de potenciais inimigos, uma miríade de malfeitos e “deslizes” do famoso médico. Pois… Fiquei curioso, curiosíssim0. Vou esperar sair em Português. Não me atrevo a isso na língua (de que não gosto nem um pouco) de Shakespeare. Tais comentários fizeram-me pensar numa coisa que sempre me incomodou: o processo que leva a eleger fulano o cicrano como o mito, a referência, o modelo, o mestre. A partir desse ponto, reduzir tudo e todos a magotes de seguidores fervorosos, em certos casos, fanáticos incorrigíveis. Algo parecido ocorreu, faz algum tempo, com os estudos literários no Brasil. A “referência” atende pelo nome de Antonio Candido. Faz um tempo que tenho repetido um bordão que faz sentido, pelo menos, para mim: o de que a Literatura Brasileira é “ramo secundário” da Literatura Portuguesa. Não vou entrar no mérito discursivo do adjetivo “secundário”. No entanto, na simples e cristalina superfície da frase, a assertiva é irrefutável. Afinal, foram os “tugas” que aqui aportaram e para aqui trouxeram a língua que se misturou e acabou por forjar o que se conhece como Literatura Portuguesa. A ideia, um tanto provocativa, tem que ser modalizada, pois há um número incontável de variáveis que podem flexibilizar a aparente inflexibilidade da afirmação. É neste sentido que trago aqui alguns parágrafos de um sujeito brilhante que “rele” esse tópico de maneira provocativa e instigante, da qual comungo e que aqui compartilho. O nome dele é Martim Vasques da Cunha. O título do seu livro é  A poeira da glória: uma inesperada história da literatura brasileira (Rio de Janeiro, Record, 2015). Dele trago aqui alguns trechos e deixo para quem ler estas páginas a missão de entender e interpretar e… e… e… Lá vai:

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Este impasse entre abraçar uma ideologia política e aceitar o abismo que invade a realidade percorre todos os escritos de Candido. É certo que ele faz questão de dissimular isso com frequência — como está formulado numa espécie de confissão indireta num trecho da introdução de Formação da literatura brasileira. Ali, ele explica que o seu desejo de integrar métodos sociológicos e artísticos é uma maneira de encontrar o externo do texto literário (as circunstâncias históricas e sociais) no seu interior — ou seja, na sua forma especificamente literária, dentro dos mais rigorosos padrões estéticos. A função do crítico seria perceber e analisar simultaneamente essas duas coisas que estão sempre em oposição, pois, quando atinge o equilíbrio pretendido, consegue vislumbrar a contradição e aceita-a como “o próprio nervo da vida”.(p. 375)

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Em 1928, quando Antonio Candido era um garoto de 10 anos de idade, foi lançado na França um livro polêmico chamado A traição dos intelectuais [La trahison des clercs], escrito por Julien Benda. Seu argumento era muito simples e, ao mesmo tempo, extremamente profético: os intelectuais seriam, na verdade, os clérigos (os clercs do título original), uma classe de homens, sacerdotes do espírito “cuja atividade, por essência, não persegue fins práticos, e que, obtendo sua alegria do exercício da arte ou da ciência ou da especulação metafísica, em suma, da posse de um bem não temporal, dizem de certa maneira: ‘Meu reino não é deste mundo’”.65 Ocorre que, na transição do século XIX para o XX, esses mesmos sacerdotes resolveram se preocupar não com a observação desapaixonada dos valores e princípios universais que movem a humanidade de maneira imperceptível e, muitas vezes, invisível — e sim com a adesão às paixões políticas que, na falta de um nome melhor na época de Benda, hoje poderíamos chamar, sem hesitação, de ideologia. O intelectual deixa de ser um clerc, um sujeito preocupado com os problemas da alma humana, e passa a ser um leigo, um integrante da massa que só vê sentido nas modas do momento — deixando-se fascinar por um irracionalismo que se traveste de uma razão impossível de destruir porque se alimenta do abismo da própria condição humana. (p. 379)

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Há, sem dúvida, um espírito militante em todas essas ações — um espírito que criaria a sua própria tradição de crítica literária, um novo círculo de sábios que cooptaria a literatura brasileira e o jornalismo cultural de tal forma que não se poderia escrever uma única linha sem passar pelo crivo dos discípulos que seguiam o seu cânone. Alguns nomes desses escolhidos pescados a esmo mostram como Antonio Candido se tornou o verdadeiro “interesse dominante” da nossa sensibilidade moral e como sua influência permeia naturalmente a nossa leitura dos grandes autores brasileiros, sem nenhum questionamento.

Ela vai de Roberto Schwartz (que transformou Machado de Assis em um protomarxista) e Davi Arrigucci Jr. (um ensaísta talentoso, sem dúvida, mas capaz de escrever várias páginas falando sobre a poesia de Manuel Bandeira apenas no aspecto formal, sem tocar no conteúdo de sua obra), passando por Walnice Nogueira de Galvão (estudiosa séria de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa) e Telê de Ancona Lopez (protetora feroz dos arquivos e da obra de Mário de Andrade), terminando com João Luiz Lafetá (falecido precocemente, mas que causou um estrago permanente no estudo do Modernismo Brasileiro ao desprezar escritores de calibre, como Octavio de Faria e Agripino Grieco, simplesmente porque teriam posições opostas à esquerda moderada, defendida por Mário de Andrade após a Revolução de 1930) e Augusto Massi (impetuoso professor que, em nenhum momento, consegue discorrer sobre o problema do Mal na obra de Otto Lara Resende — um sujeito que, conforme veremos no próximo capítulo, só pensava nisso dia e noite).71

Cada um destes iluminados tem (ou tiveram) atualmente um cargo acadêmico garantido, mantido pelo Estado, com bônus e benesses salariais que fariam a alegria de qualquer brasileiro — e os jornais e as editoras sempre estiveram de portas abertas para eles, especialmente para tecer loas ao antigo e amado mestre. Candido conseguiu transformar o reino da literatura numa espécie de Cuba literária onde a liberdade de discordar é paga com o desprezo solene de quem não se opõe às ideias superficiais de seu líder, porque eles mesmos não querem admitir para si mesmos que tudo o que fizeram até tem algum talento, mas ficou perdido na fragilidade de seus pensamentos. Ainda assim, isto não é nada perto do prejuízo que provocaram nas cabeças dos leitores. Foi uma catástrofe sem precedentes. Este círculo dos sábios simplesmente impediu qualquer possibilidade de aprendermos a fitar o abismo, tirando o prazer de estudar a literatura e inculcando na cabeça de cada um de nós que ela só seria útil se tivesse uma meta adequada à tão esperada revolução.

Graças a esta traição dos intelectuais, ninguém mais se importa com o ser humano que foi triturado em carne e osso. O mito da “revolução permanente” contribuiu para que as contradições de Antonio Candido se transformassem em insanidades ratificadas pelas nossas instituições nacionais. Pois foi isso que aconteceu: atordoados por sonhos que não conseguiram transformar em realidade, elas destruíram definitivamente a sensibilidade moral do país, contribuindo para aumentar o abismo que há entre o Brasil real e o Brasil oficial. (383-384)

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