Recuerdos de pascuas

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Hoje é sexta-feira da paixão. Ainda é sexta-feira. Faz pouco mais de três horas que, de acordo com o canon, Jesus expirou e entregou sua alma a Deus. A fé se renova. A esperança reacende o espírito na ânsia pela Ressurreição que virá, depois de amanhã, e sempre! Amanhã, sábado de Aleluia, é dia de malhar o Judas. O que me lembra a infância, quando, entre assustado e curioso, olhava para aquele boneco de pano pendurado numa vara, ou numa árvore a levar pauladas e, às vezes, ser queimado, Fascínio que misturava medo e prazer. Freud deve ser capaz de explicar. Tudo isso me leva, uma vez mais àquela semana mágica que passei em Sevilha. Depois de passar quase vinte horas acordado em pé, sem beber água, sem comer nada, fascinado e boquiaberto, mesmerizado pela expressão de fé e de beleza a cada confraria que passava por la carretera, em Sevilha. Estava na Plaza del Duque a esperar a Macarena e fui surpreendido por El silencio e El gran poder e também por El cachorro. Como explicar o que vi, o que senti, o que ficou n memória? Ainda hoje, três anos depois, não consigo encontrar palavras suficientemente competentes para fazê-lo. Aquele povo todo em silêncio, absoluto silêncio enquanto passava El silêncio. Apenas o som do arrastar dos pés dos costaleros. O tric-tric dos enfeites no paso de palio, onde vinha uma imagem de Nossa Senhora. Uma festa que eu já tinha visto pela televisão quando vivi em Zagreb. Ali nasceu o desejo de ver de perto, ao vivo, no calor da hora. Em 2015 realizei este desejo. Que alegria! Penso que jamais esquecerei o que vi e senti naqueles dias e, especialmente na noite de quinta para sexta, la madrugá! Boa Páscoa, pra quem é de Páscoa.

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O dicionário e suas veredas

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Sobre o que vou escrever hoje? Não sei. Definitivamente, não sei. Se sei, a preguiça apagou qualquer ligação com a memória de um devir que, simultaneamente interessa muito e não faz qualquer falta. Qual não seria a solução desse enigma senão continuar sendo um enigma, ou apenas mais um sofisma? Palavra interessante esta: sofisma. No dicionário Houaiss, ela apresenta em seu verbete quatro acepções:

  1. argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa;
  2. na rubrica “lógica”: argumentação que aparenta verossimilhança ou veridicidade, mas que comete involuntariamente incorreções lógicas; paralogismo;
  3. derivação por extensão de sentido da primeira acepção: qualquer argumentação capciosa, concebida com a intenção de induzir em erro, o que supõe má-fé por parte daquele que a apresenta; cavilação;
  4. derivação por extensão de sentido em uso informal: mentira ou ato praticado de má-fé para enganar (outrem); enganação, logro, embuste.

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Nas quatro acepções do verbete, uma ideia é recorrente e subjaz como leito de rio perene: enganação, se quisermos um substantivo, ou enganar, se um verbo. O leitor escolhe. Esta é a ideia chave. Em qualquer das acepções, sobretudo na primeira, mais abrangente, esta ideia central, básica, axial (ai como esta palavra me agrada!) – a “estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa” – rescende a pecado, como gosta de dizer meu queridíssimo amigo Vitor Escudero. E esse pecado banalizou-se, ou melhor, foi banalizado por excessiva repetição, por desgaste de uso, por vulgarização discursiva. Todos pecados igualmente veniais. Os pecados veniais, no meu tempo de catecismo, eram os menos graves. Os que pediam contrição mais simples e penitência leve. Ao contrário dos mortais… Nos dias que correm, quase não há mais este limite, a fronteira que deixava os adolescentes de cabelo em pé. Assim, de pecado em pecado, chegamos ao quadro de horror metonimizado em sofisma. Já não há fonte segura. Intenção (segunda, terceira ou mais funda…) se pulveriza em referências quase marginais que desviam o olhar, ciam cortina de fumaça, desestabiliza convicções. É IMPOSSÍVEL levar em conta, sem deixar os dois pés atrás (salve adagiário!) acreditar de primeira, sem uma segunda (terceira, quarta…) versão para o mesmo fato. Ainda, mesmo munido de todas as provas de que se sente amparado, o leitor não pode afirmar, com certeza, de que o que lê é “fato”, para além de qualquer dúvida racional. Junte-se a isso, a esse tsunami chamado sofisma – porque é disso, ao fim e ao cabo, de que se trata – a má intenção, a maldade, a perversidade, o crime. Uma pena. Uma chatice. Uma canseira. Esse tal de sofisma é mesmo um demônio e, do jeito que vai a procissão, há de infernizar a vida de todo mundo por um tempo. Olhe lá se não for pra sempre…

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Delírio: um romance

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“Então fica assim.

Fica assim como não havia ficado antes ou sempre tinha ficado.

Mas como assim, fica assim? Ih… uma rima, paupérrima, mas rima.

Isso poderia até ser o começo de um poema. Não há rima? Então… Se tem rima é poesia. Não é assim que “o povo” pensa? E não venha me dizer que isso é preconceito meu. Não é. Dá uma olhada em volta. Gaste um tempo sem olhar para o celular (andando, de preferência”) e dê uma olha em qualquer página de qualquer publicação que ousa publicar “poesia”. Há de se ver uma rima. Nem que seja um. Umazinha só… Não é regra, mas acontece. Claro que há poemas sem rima. Há publicações que mostram poemas sem rima. Como eu disse, não há regra. E mesmo que houvesse, não dizem por aí que toda regra tem exceção? Quanta originalidade… Que falta de assunto… Ai que preguiça! Se ao menos alguém prestasse atenção… Mas não… na primeira semana, você diz que não pode voltar da casa de seus pais a tempo. Chegou no dia seguinte ao começo de tudo. Pois bem. Como não há maneira de comprovar a veracidade do argumento passa. Na segunda semana, a sua desculpa – sim, trata-se de uma desculpa e não mais que isso – foi a conjuntivite. Para criar um “fato”, você manda dizer que não vai faltar da próxima vez. Há quem tenha acreditado… Como previ… nada… Nem desculpa nem nada… absoluta indiferença. Como se isso não havia acontecido antes. Já aconteceu, mas não assim. Então você levanta a voz e se diz prejudicada porque teve seus direitos vilipendiados. Que tem sido tratada com preconceito e assédio, blá… blá… blá… Quem deveria prestar atenção e dar assistência, está mais preocupado com a sobrecarga da colega recém-chegada… Clama por ajuda e argumenta que ela não é capaz d recolher item por item para a tal tabelinha. E você ali, de nariz empinado, olhando para os outros com desdém, falando alto, cortando a palavra alheia e cheia de razão. Isso também não é novidade. O dia passa. O calor da arde traz mais insetos. O cheiro de mofo se acentua. O silencia dos corredores é quase assustador. A noite cai – se machucou? A noite cai. O silêncio continua. Por sobre as pedras tricentenárias, poucos passos. Apena alguns murmúrios. Passos e murmúrios a cada dia mais escassos, apesar do tempo que correu e deixou suas marcas. Musgo entre as pedras. Cabeça de cruz cortada. Porta amarrada com fibra plástica. Lona estendida no chão. Telhas velhas quebradas. E você lá… Impávida… Esperando que o mundo pare pra prestar atenção em você, tão sem sal, tão sem graça, tão assim… O tempo passa. Muita gente continua escrevendo poesia com rima. Muita outra gente também continua escrevendo poesia sem rima. E a poesia continua, como você, impávida…”

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Revisitações

Tomado que estou da mais absoluta ausência de ânimo para o que quer que seja, resolvi postar algumas linhas escritas numa primeira tentativa de escrever um artigo sobre um poeta português de quem gosto imenso: Al Berto, pseudônimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares, nascido em Coimbra a 11/1/48 e falecido em Lisboa a 13/6/97, do século passado. Espero que gostem. Tenho a impressão de que já coloquei este texto aqui…. Se repito fica assim mesmo!

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Escrever cartas. Uma prática que pode beirar o inusitado para algumas gerações. Escrever cartas é prática que não encontra mais espaço no horizonte de expectativas de muita gente, sobretudo se se considerar as quatro últimas décadas – isso para ser bastante generoso. Certa feita, em casa de uma amiga, pedi papel de carta e envelope para enviar a alguém a quem estava a dever uma resposta. Meu espanto: não havia, nem papel de carta, nem envelope. Em minha casa, há uma quantidade enorme de envelopes – daqueles emoldurados por uma tarja verde e amarela… coisa de museu quase… ainda que eu insista em manter correspondência postal com a Elaine. Vamos ver quanto tempo ela ainda vai durar…

Por falar em carta, lembro-me de Camões e as suas, as “ridículas”, do Pessoa; as incineradas do Alberto e as três que Al Berto escreveu: uma para a mulher, outra para o pai e a terceira para o amigo. Se mulher, pai e amigo os são do sujeito cartorial que responde por Alberto Raposo Pidwell Tavares, ou Al Berto, já não sei. Há controvérsias. Costumo dizer que a biografia de um sujeito, desde que pistas sejam encontradas em seu texto (de gênero imponderável, por princípio), pode ser um instrumento, no mínimo, instigante para abordagem hermenêutica, de qualquer cariz, deste mesmo texto. Assim o faço com as Três cartas da memória das Índias. São três que, por intertextualidade, remetem A Camões e Pessoa, dialogando com Al Berto. Memória remete a tempo passado e articulada a “Índias”, faz logo pensar em Camões e sua homenagem épica às navegações portuguesas que para tão longínqua terra os levou. Também faz pensar em algo que não aconteceu e sua falta instiga a rememoração; da mesma forma que remete a um sonho abortado. Tudo isso, num clima de despedida, portanto, melancólico, o que faz olhar para Pessoa.

À primeira delas, deu o poeta o nome de “Carta da árvore triste (à minha mulher)”. O possessivo põe lenha na fogueira das possibilidades de leituras a que acima me referi. “Árvore” é substantivo comum que circunscreve campo semântico que aglutina ideia de mulher, de fertilidade; ao mesmo tempo que, por metonímia, leva à associação com madeira, caravela, viagem. Bem vindos de volta, Pessoa e Camões!

“o telefone parou de tocar
atiras o jornal para o caixote do lixo
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono
surge subitamente nítido e coberto de luz
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida
no fundo dalguma gaveta forrada a papel manteiga
o dia instalar se á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos
ouves rádio enquanto o café aquece
deixas queimar um pouco as torradas
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado

depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui
onde encontrarás esta carta”

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“é me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue
a noite cola se me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta
onde gostaria de deixar explicadas tantas coisas
não consigo
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
eu sei
comemos a lucidez do asfalto
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade
mas nada disto chegou para nos entendermos
o tempo transformou se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever te
sob o peso da luz do dia
a excessiva claridade amputar me ia todo o desejo
cegar me ia
tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite
sou frágil planta nocturna e triste
o sol ter me ia sido fatal
conduzir me ia ao entorpecimento da memória”

A segunda carta recebe o título de “Carta da região mais fértil (a meu pai)”. A fertilidade, triste na primeira carta, associa-se à virilidade, infusa no substantivo “pai”, do gênero masculino, construindo clara antítese com a tristeza que particulariza a pedra de toque da primeira carta: o abandono da mulher. Aqui, a identificação da/com a masculinidade é cristalina e, por oposição à primeira carta, remete à ideia de fertilidade, subtítulo do poema. A mudança, o anonimato dos afetos e desejos partilhados contrapõem-se ao marasmo da vida confortável com a mulher e à memória afetiva da educação recebida do pai.

vai certamente estranhar esta quase interminável carta
pai
há muito que o silêncio se fez entre nós
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar
e eu pobre de mim
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo
a cidade é veloz”

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“(…) é certo que arranjei outras compensações
a amizade segura de um amigo
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo
que quer
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas
e de beber
muitas vezes nem sei quem são as pessoas com quem falo
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível
desde que me conheço que me fujo
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando se
com pedaços sombrios da minha
não leve a mal estes desvarios”

Por fim, a terceira carta que se intitula “Carta da flor do sol (a um amigo)”. Na indefinição pronominal proposta no título, a definição do direcionamento de minha leitura: o real motivo da partida, do abandono, inclusive, do “melhor amigo”. Implicitamente, o homoerotismo que marca as palavras do poeta se faz explícito na aproximação de sentidos que “flor” e “sol” imprimem sobre a expressão de desejo tão peculiar. A beleza, o hedonismo, o desabrochar e a luminosa energia que, entre sol e flor, viceja, faz vislumbrar o definido desejo que indefine outras relações na busca insaciável de satisfação.

“vou partir
como se fosses tu que me abandonasses”

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“conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo”

O poema mistura experiências e constatações. Pulveriza ideias e protótipos – para não dizer estereótipos. Aponta diversas possibilidades de leitura. Aqui esboçada, está apenas mais uma, umazinha, simples e humilde, mas feita de coração, com a mente aberta às outras possibilidades, reconhecendo sua pequenez e limitação. Assim não fosse, não existiria a tal de crítica literária. A cada dia que passa, e muito mais agora, quando começo a descer a ladeira, confirmo a constatação de que o soco no estômago que a poema (no caso) e qualquer outro texto literário (no geral) dão no leitor é primordial, essencial, irrecorrível, inescapável, para fazer  a análise interpretativa a que se arvora certa crítica que se quer como imposição de parâmetros teóricos como conditio sine qua non desta mesma leitura. Teoria vem depois, é consequência que não pode prescindir da leitura mesma do texto. Entenda quem tiver olhos de ver e ouvidos de ouvir. Alea jacta est. E mais não digo: punto i basta!

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Da beleza em Clarice (também!)

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“Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico. Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com seu marido diante do café derramado. – O que foi?! gritou vibrando toda. Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: – Não foi nada, disse, sou um desajeitado. – Ele parecia cansado, com olheiras. Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago. – Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela. – Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo. Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.”

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Os parágrafos acima constituem a sequência final do conto intitulado “Amor”, parte da coletânea de autoria de Clarice Lispector, e leva o nome de Laços de família. É bom lembrar que as coletâneas de conto publicadas pela autora – inferindo-se então que a organização dos textos se deu sob sua tutela, em vida, na maior parte dos casos – levam chancela comum, associada a temas específicos. Os contos, então, podem ser lidos como variações de um leitmotiv, como na música. A harmonia da orquestra ficcional de Clarice é orquestrada em tons e semitons e sobretons que os textos dos contos vão materializando, pela via da narrativa que se espraia, as histórias que os textos contam e suas personagens e situações, por vezes, inusitadas, por foça de sua contundente banalidade.

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Pode ser que não faça sentido, o que aqui vai dito, para quem não conhece o conto na íntegra. Não vou me preocupar com isso. Escrevo por estímulo de uma aula bem dada, por mim p deixando toda a falsa modéstia de lado, por princípio – sobre o trovadorismo português, hoje pela manhã. Gostei tanto de algumas coisas que disse que resolvi escrever, usando como exemplo o trecho final do conto de Clarice Lispector. Uma mulher, no fim doa, vai dormir, não sem antes se pentear, pensando em tudo o que lhe aconteceu, de surpreendente, sobretudo, em mais uma tarde comum, banal. Aquela tarde foi uma espécie de turning point para a personagem Somente ela se deu conta disso, ninguém mais. O marido não alcança o caráter abissal da constatação vivenciada pela personagem. Nada de novo, até aqui. O que me levou a escolher esse conto é sua profunda beleza, uma delicada beleza que se explicita no trecho que aqui trouxe. Será que qualquer leitor se dá conta desta beleza? Em caso positivo, como é que se explica esta experiência? Caso contrário, seria possível fazê-lo se dar conta da tal beleza. Numa ou noutra circunstância, o fato que resta é que este final é tão tocante, tão delicado e, simultaneamente, tão contunde, perturbador e profundo, que as palavras empobrecem um pouco mais no intuito de dar expressão vivaz a estas ilações. O final é bonito, para ficar com um apalavra.

O que é que isto tem a ver com a minha aula? Talvez meus leitores entendam menos ainda. Gostei do que disse aos meus alunos pela manhã. Não reproduzo tudo, porque, de um lado, já não me lembro dos detalhes; por outro, quero evitar que meus leitores me deixem só neste ponto! Na aula, satisfez-me com uma explicação sobre o papel do trovador na poesia provençal da península e de como sua preocupação com a melodia, o ritmo e a sonoridade eram imprescindíveis para usas composições. Neste sentido, a beleza da poesia trovadoresca pode ser usada como ilustração de um dos objetivos da poesia: a expressão da beleza. Muitos “pares” podem até espernear, muitos narizes podem se torcer, muitas carantonhas podem se mostrar. Não mudo uma vírgula do que acabei de dizer. Com isso, ratifico a intuição que me leva a associar a minha aula e o final do conto de Clarice Lispector: a beleza de/em um texto literário – poesia ou prosa ou drama ou o que quer que seja – está, antes de mais nada, na sua índole expressiva. Por via de consequência, ao leitor resta o trabalho (e a delícia) de experimentar a beleza, tentando explica-la ou, esta é outra consequência, mais pragmática, menos fundamental. A beleza… ah, a beleza. Obrigado Clarice!

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Dos males inevitáveis da chatice

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A moça atravessa a avenida, sem muito trânsito. Olha com displicência e desdém enquanto atravessa. Anda olhando para o telefone esperto, sem sequer se preocupar se vem alguém na direção contrária. O que “pega” é a displicência desdenhosa do olhar… fora da faixa de pedestres…

O rapaz, magrelo e aparentemente subnutrido está usando capacete. O gosto deste é duvidoso. Mas está usando. Trepado numa motocicleta, dessas bem baratinhas, bem fuleiras. Ele vai “costurando” entre os carros, olhando como quem sabe de tudo e pode tudo… entre os carros. Nota: a motocicleta é daquelas das rodas bem finas, bem barulhenta e o condutor está mal trajado, usando chinelo de dedo e capacete!

O jovem com os fones de ouvido devidamente enfiados orelha a dentro, dorme no banco do coletivo, enquanto três senhoras se penduram, incomodadas, no corredor lotado.

A coitadinha está vestida como se fosse uma página de catálogo de enfeites de natal. Mal a funcionária se aproxima do balcão e começa a falar – sempre aquelas informações absolutamente irrelevantes, mas necessárias, dado que não vivemos num país EDUCADO – e a coitadinha corre para a beirada do portão. Ela tem medo de que alguém lhe tome o “direito” de viajar de avião. A personagem em questão pode ser um coitadinho também…

A mocinha do cabelo pintado de amarelo passa uma lixa nas unhas. O rapagão, com cara de galã de subúrbio, dorme. A mocinha, magrinha, feinha, meio sujinha, com a cabelama amarrada em tiras de chita bem coloridas, olha com desinteresse mais que evidente, mais que absoluto. Outro rapaz dorme. Outra mocinha está trocando mensagens – urgentíssimas” – ao celular. Lá fora, as faxineiras trocam comentários sobre a vizinha que se amancebou com o marido da beata e os homens se xingam – quase se matam na verdade – teorizando sobre o nada enquanto defendem as cores de seu escrete preferido. Faz calor. Enquanto isso, o coitado, à mesa, fala sobre a beleza das rimas de Camões.

Toda vez é a mesma coisa: o cenário de uma choperia ou lanchonete com a comida menos saudável possível. Ou então, um carro exótico. Ou então a foto mostra o objeto absoluta e redondamente inútil, comprado por uma nota preta e que demorou a chegar da china. Pra amoldurar, os comentários sempre na dicção de Jocasta sobre “as crianças”.

Se você fala de uma comida ruim, ela já experimentou. Se são as agruras de sequelas de males físicos, ela os conhece. Se a música não agrada, ela sabe porquê. Se o dinheiro está pouco, ela se diz miserável. Se você é contra isso ou aquilo, ela tem a explicação cabal. Se você não sabe, ela dá uma aula. Se você escreve, ela lê e dá palpite, mesmo que não tenha isso sido pedido a ela. Que pessoa chata…

Ele coça a barbicha enquanto ãhn faz pausas ãhn para ãhn formular uma ãhn pergunta ãhn que não faz o menor sentido.

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Para terminar, três opiniões diferentes:

A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente. (Florbela Espanca)

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Tomei a decisão de fingir que todas as coisas que até então haviam entrado na minha mente não eram mais verdadeiras do que as ilusões dos meus sonhos. (Descartes)

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Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas. (Voltaire)

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Ecos do passado

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Com a proverbial preguiça que me acomete, ainda me ressinto do que senti ontem e não sei definir em palavras. Depois da macacada dos togados, autoridades em Pindorama. Ainda não sei. Apreensão. Dúvida. Não sei de mais nada… Assim, nesta maré de nada, resolvi colocar aqui um texto que escrevi ainda em Santa Maria. Foi apresentado em Toulouse, certa feita, nos idos dos 90 do século passado… Alguém discordou do plot: punição. Já pensei em reescrever… mas já viu né… Aí vai ele:

AS MULHERES E AS LÍNGUAS: PUNIÇÃO E IDENTIDADE PELA LEITURA

José Luiz Foureaux de Souza Júnior UFSM – BRASIL

Para Hélène e Amanda.

(…) a ardilosa realidade da condição feminina confrontou muitos homens da classe média – e muitas mulheres também – com a necessidade de clarificar atitudes, de pôr preconceitos à prova, de tomar decisões. A auto percepção do homem estava em jogo. Os sentimentos exasperados que essa situação provocou, e as numerosas controvérsias que ela gerou, só podem deixar atônitos aqueles que não conseguem perceber a preponderante parcela de sentimentos ocultos existente na criação de atitudes sociais e ideologias políticas.

(Peter Gay)

Não há muito exagero em dizer que esse século é marcado por dois momentos ideológicos contraditórios, aliás, aparentemente contraditórios: a paródia e o ceticismo. Duas observações iniciais são necessárias. A questão da ideologia é por demais complicada, mas tomo aqui a palavra em seu sentido mais primário, aquele que se refere a um conjunto de ideias, em tomo de um tema comum, por exemplo. A segunda observação se refere à contradição, ainda que aparente, passível de ser detectada entre esses dois movimentos. Essa contradição exigiria um ensaio completo para sua sustentação. Insisto nela apenas por uma questão de colocar em xeque as questões aparentemente certas e livres de problemas, dúvidas, etc.

Toda essa introdução se justifica por força da qualidade de um escritor latino-americano que, na minha opinião, e conforme o quadro de referências apresentado, pode ser tomado como paradigma dessa situação, principalmente no que se refere à literatura. Trata-se de Jorge Luiz Borges. Esse nome é aqui referido explicitamente, por conta de uma de suas personagens mais intrigantes: Pierre Menard. Essa personagem é responsável pela tentativa de reescrever o Quixote, tentativa que acaba por deixar metaforizada a grande ansiedade da literatura, a busca de uma origem e/ou de uma originalidade absoluta de uma utopia.

A referência a Pierre Menard vai me levar ao ponto inicial de minhas considerações nessa comunicação. Trata-se de um artigo de Silviano Santiago, chamado “Eça, autor de Madame Bovary”. Em linhas gerais, o ensaio do crítico brasileiro coloca em discussão uma das instâncias textuais mais complexas, o autor. Santiago coloca em questão a composição narrativo-estrutural de dois romances escritos em Língua Portuguesa – O primo Basílio, de Eça de Queirós e Dom Casmurro, de Machado de Assis – ambos tomados como uma reapropriação de Madame Bovary, de Flaubert. Por que a insistência no nome dos autores? Porque, na verdade, essa referência vai explicitar um dos objetivos, mais genérico, dessa comunicação, que é pensar a questão da identidade que se constitui, também, na língua e em seus usos. Essa identidade deve ser, aqui, considerada uma experiência permanentemente recomposta, inapropriável. Pois bem, Santiago discute a possibilidade de pensar a escrita de seu romance como um plágio[1] – ainda que essa seja uma palavra muito forte – do romance do escritor francês. O sentido de plágio, aqui, não se recobre de censura ou condenação porque, enquanto o leitor de um texto é sempre um outro, é possível considerar que o texto é a lembrança de uma tela, algo que faz lembrar de um “texto” anterior. Assim, a leitura remete ao desejo de um grau zero da escritura[2] que nunca existiu

Outra ideia a ser considerada aqui é a de que a leitura é sempre uma escritura de segundo grau, não apenas em relação à realidade cultural representada no texto, mas também da escritura ela mesma. Assim, o plágio é apenas um caso particular de escritura e, eu diria, um exercício de leitura sempre derivada de uma outra leitura. A proposta de discussão se assenta numa crítica contemporânea a Machado de Assis que o teria acusado de plagiar o romance de Eça. A argúcia do crítico brasileiro relê as linhas dessa proposta de polêmica, gênero muito comum no final do século XIX e início do nosso, para desenvolver um raciocínio brilhante acerca da questão da questão da “autoria” de um texto literário, o que acaba por refletir-se na consideração do que costuma denominar de identidade cultural.

Meu interesse particular é propor, a partir dessas premissas, um caminho de reflexão sobre a relação intercultural que pode ser identificada e analisada a partir da leitura comparativa dos três romances anteriormente citados. Vale lembrar que a leitura é, ao mesmo tempo, uma atividade individual e social.[3] Ideologia e coletividade se intercambiam dando forma ao que podemos chamar de discurso cultural. Quando se faz esse tipo de consideração no âmbito do que se conhece por língua, é necessário afirmar que a leitura é, em si mesma, um acontecimento em que a própria língua se transforma. E claro que não vou concluir essa discussão aqui, nem, tão pouco, ouso desenvolver toda uma hipótese teórica. Minha arrogância se junta à minha honestidade intelectual para apenas determinar algumas linhas que considero plausíveis e básicas para repensar uma série de coisas – entre outras a relação inter­lingual que pode ser pensada nas atividades de leitura no ensino superior. Não interessa aqui a discussão pura e simples de diferenciações identitárias entre língua materna, língua estrangeira e língua segunda, por exemplo. No entanto, acredito que tais especulações podem abrir mais um caminho para a discussão de questões pertinentes a essas três categorias.

Uma outra motivação para a apresentação de minha proposta de especulação é o fato de que nos três romances em referência, a cena final é idêntica. Cada um a seu modo, acaba por apresentar uma situação de punição da mulher que se identifica com um traço atávico da cultura ocidental, daí a possibilidade de pensar a identidade cultural, na interlocução entre língua portuguesa – do Brasil e de Portugal – e língua francesa. O pano de fundo é o trabalho com a leitura de textos literários, no ensino superior.

É necessário esclarecer que por “cena final” estou entendendo, aqui, a sequência narrativa que culmina com a morte das três protagonistas – Ema, Luísa e Capitu. Em rápidas pinceladas o que acontece é o seguinte: no caso de Ema Bovary, o narrador nos apresenta o suicídio de Ema, por um motivo que é recorrente ao longo do romance – a insatisfação da protagonista e sua sede de prazer e felicidade, abortados pelos repetidos malogros amorosos, inclusive, o matrimônio; nesse caso a punição se dirige à devassidão. No caso do romance português, a protagonista é punida com uma febre inexplicável, e mortal. Sem quê nem porquê, da noite para o dia, Luísa amanhece febril, seus cabelos são cortados – aí está o significante da punição – e ela morre; seu pecado foi a traição aos princípios burgueses de fidelidade conjugal. Em Machado de Assis, a situação é análoga, mas a motivação é um tanto particular, porque burguesia e devassidão não se juntam, mas induzem Capitu a cair na rede do ciúme atormentado de Bentinho: não se pode “afirmar” que houve o adultério. À parte as diferenças no tratamento ficcional dado ao tema do adultério nos três romances, considero importante colocar algumas reflexões pormenorizadas – guardadas as proporções do espaço de minha comunicação – acerca de cada uma das narrativas. Adianto que não vou me deter na questão vocabular por si mesma, ainda que, ao final, venha a propor um direcionamento das considerações para o campo da tradução.

No caso do romance de Flaubert, temos um casal de província que é – e esse fato é fundamental para entendermos um pouco das perspectivas de leitura de romances franceses do século XIX, devedores convictos de uma tradição descritivo-realista fundamental para a literatura da época, o casal de protagonistas sacramenta, com seu casamento, um contrato burguês no campo: nada da burguesia urbana que vai caracterizar outras narrativas ficcionais da época, mas a insistência na articulação entre provincianismo e vida no campo. Ema é uma mulher “romântica”, por vício de formação. Leitora dos românticos mais em voga, vive influenciada pelo imaginário romântico e desenvolve uma procura desesperada de ascensão social aliada ao prazer sensual. Nesse desejo desenfreado por mudança de status existencial, Ema recusa sua condição provinciana, em nome do desejo burguês de bem viver. Nesse sentido, seu casamento se reveste de uma aura de interesse, marcada pela busca de um status social diferenciado. Em contrapartida, Charles, o marido, reconhece, ao longo do romance, sua falência como marido mesmo, enquanto instrumento de realização marital dos desejos de ascensão social de Ema. Ela ama sua mulher mas não perde de vista seu perfil estreito de médico de província, o que lhe impões e à mulher, uma série de limitações absolutamente frustrantes para ambos. Dadas essas condições, a punição de Ema – veiculada por um suicídio que nada tem de covarde, mas funciona como admissão do fracasso, no sentido nietzcheano – funciona como sentença social provinciana para o pecado da devassidão. Na esteira da luxúria, Ema perde o controle da situação e se deixa arrastar numa enxurrada de “crimes” que não podiam ficar impunes: o moralismo provinciano da burguesia do campo não o permite.

Num segundo momento, temos o casal formado por Luísa e Jorge, igualmente provincianos, mas de um provincianismo citadino, urbano – como requer o código da modernidade. Luísa também é leitora dos românticos franceses, mas ao contrário de Ema, não se sente atraída por mais nada além do que já possui: boa casa em Lisboa, empregados, um marido dedicado e todos os confortos que o modelo burguês poderia oferecer. Seu paraíso começa a ser ameaçado com a volta de um primo, amor antigo, atropelado pelo casamento apaixonado. O contrato burguês aqui se localiza na cidade, como já se disse. Há de se insistir que um certo provincianismo pode ser detectado nesse quadro narrativo, mas um provincianismo dirigido à situação de Lisboa no contexto europeu “fin-de-siècle”. Jorge é o protótipo do macho bem sucedido, para a época. O detalhe que chama a atenção no aparente equilíbrio da cena de fundo é o fato de que a célula dramática do romance é espelhada no texto do próprio romance. Na mise-en-abyme realizada pelo narrador, Ernestinho, uma das personagens do romance, escreve uma peça cujo fim é vivenciado pelo casal de protagonistas. O marido é traído e deve decidir sobre o destino da mulher adúltera. Coincidentemente, ela morre, mas não por meio da febre que vitima Luísa. Esse espelhamento em profundidade pode remeter à narrativa de Flaubert, recuperada pela dicção narrativa de Eça de Queirós que, por meio de insistentes comparações da vida lisboeta com a mundanidade parisiense, acaba por reduplicar a situação de insatisfação vivida por Ema e sua punição que, no caso de Luísa, é revestida de uma erudição atávica no perfil culto-intelectual dos portugueses. Em outras palavras, a morte de Luísa remonta à punição medieval das mulheres tomada pelo demônio. Os jesuítas, mestres na arte de “arrancar” confissões de obsessão de homens e mulheres têm uma participação mais que profunda na formação do caráter religioso dos portugueses. Essa marca se deixa transparecer quando Luíza tem a cabeça raspada. Esse elemento dramático pode ser associado ao ritual inquisitorial, já referido, o que, por sua vez, na economia do romance de Eça acaba por explicitar urna faceta da religiosidade – marca indiscutível da identidade cultural portuguesa.

Fiquemos, agora, com algumas considerações acerca do romance de Machado de Assis. De maneira diferente, em relação às duas protagonistas já citadas, Capitu tem uma personalidade forte. Moça decidida, resolve todas as situações com um senso de objetividade e equilíbrio, que superam o próprio Bentinho, personagem fraca e indecisa, apesar de nomear a narrativa, fato que o faz coincidir com Basílio, o vértice do triângulo de adultério estabelecido no romance português. Bentinho, como já se disse, é fraco e seu espírito frequentemente assaltado por dúvidas e inseguranças. Talvez seja resultado da força impositiva da mãe, substituída depois pela objetividade de Capitu. No fim de sua trajetória narrativa, Bentinho é um homem atormentado por um ciúme doentio, um pouco fruto de sua imaginação, associada à insegurança que lhe marca a personalidade. Suas fantasias são comuns quando se pensa no perfil do homem burguês – na perspectiva de Peter Gay que coloca no homem um temor desmedido pelo “sexo misterioso” da mulher, o que acaba por refletir uma insegurança em relação à possibilidade de perda de seu lugar na hierarquia social da burguesia fin-de-siècle. Ainda sobre Dom casmurro, é necessário que se diga que os nomes das personagens são significantes mais que sintomáticos das situações aqui referidas. A mãe de Bentinho se chama Glória; Capitu, na verdade, se chama Capitolina, o que remete o significado de seu nome para o campo semântico da superioridade que marca sua personalidade. Bentinho, ele mesmo, tem no nome um diminutivo ambíguo, ao mesmo tempo carinhoso e depreciativo.

Todas essas considerações, a meu ver, remetem para uma reflexão acerca do exercício da leitura. Não há como negar o valor das teorias que se debruçam sobre essa perspectiva de trabalho com o texto, seja ele literário ou não. No caso específico da literatura, pode-se pensar nas considerações de Wolfgang Iser[4] e todo um ideário acerca do ato de leitura, ato fundador de sentido. No que se refere ao ensino de língua, tal perspectiva me parece igualmente válida, uma vez que o texto literário, para além de suas questões particulares, apresenta, no mínimo, duas outras facetas instigantes para esse trabalho. De um lado, a possibilidade de se pensar e discutir e refletir e teorizar acerca das representações que a própria linguagem, utilizando determinado código linguístico, acaba por construir de urna cultura. O texto literário é porta voz desses discursos difusos, subliminares, aparentemente inocentes. De outro lado, a questão das formas linguísticas elas mesmas que, confrontadas pela ótica da tradução – por exemplo – apresentam outro fecundo conjunto de variáveis igualmente fecundas. Além do mais, o texto literário encena um sujeito que escapa do controle gramatical de uma língua. Em outras palavras, o eu que fala no texto, na linguagem, nunca é, nem poderá sê-lo, uma entidade compacta, única. A história de sua nacionalidade, os traços de sua cultura, as entorses de seus códigos sempre serão mais fortes. A leitura, ela mesma, é reveladora desses subterfúgios nos quais o eu do leitor se identifica com aquele outro, o que o faz repetir a mesma série de considerações Assim, estabelece-se uma mise-en-abyme constante, crescente e circular, girando sempre em tomo da utopia de uma língua adâmica, original, como queria Haroldo de Campos.[5]

Tudo isso pode ser correlacionado quando, se o quisermos, tomamos a representação agenciada pelo discurso desenvolvido na linguagem ficcional, através, por exemplo, da descrição realizada no romance, qualquer que seja ele. Muitas teorias devem haver sobre as inúmeras possibilidades que o texto ficcional oferece. Nesse sentido, o que disse sobre os três romances, no curto espaço dessa comunicação, acaba por propor uma linha de discussão que pode, por exemplo, eleger a paródia como inversões narrativas, enquanto formas de leitura intercultural Silviano Santiago estaria certo, então, ao considerar Eça de Queiroz autor de Madame Bovary, apenas pelo fato de ter tomado a categoria de “autor” como aquele – dentre outras – que privilegia a consideração de um discurso intercultural agenciado e permitido pela linguagem literária que é “lida”. Assim, na conclusão desse conjunto de provocações, creio ter deixado clara a minha proposta de encaminhamento não apenas de uma discussão teórica sobre o assunto – no sentido da determinação de possíveis “modelos” para as análises possíveis, mas um encaminhamento até certo ponto prático, um exercício demonstrativo das ideias que gostaria de ver discutidas e teorizadas aqui e em outras oportunidades. É nesse sentido que considero pertinente declarar que a Literatura Comparada, enquanto pretensa disciplina, é interessante para a “leitura”, enquanto metodologia de trabalho teórico na Universidade.

[1] SCHNEIDER, Michel. Voleurs de mots. 1985, p.47-70.

[2] BARTHES, Roland Le degré zéro de l’écriture. 1972, p. 165-167.

[3] NUNES, José Horta. Formação do leitor brasileiro. 1994, p.9-12.

[4] ISER. Wolfgang. The act of reading: a t theory of asthetic response. 1980.

[5] CAMPOS. Haroldo de. Deus e o diabo no Fausto de Goethe. 1981. p. 179-209.

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