Poema desconsolado

Encontrei alhures. Não me lembro de como, não sei de quem. Guardei. Apenas encontrei e guardei e, por isso, e mais, por ter gostado, aqui trago. Pode ser que mais alguém venha a gostar. Chamo de desconsolado por não encontrar expressão melhor. Expressão do que me veio à mente, ao espírito, quando li…

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“Em redor, tudo está vazio.

A alma não se eleva, mergulhado estou nas profundezas do incerto.

Aquele que me castra e provoca medo com nuances fóbicas.

O tempo voou.

Agora é hora de desmoronar.

Como sobreviver na sociedade que valoriza a beleza, os corpos esbeltos e a moda?

Como respirar num mundo que não é meu?

Como gostar de mim se os outros não me apreciam?

Não, de nada adianta dizer que em 1.º lugar temos de gostar de nós.

Incentivos precisam-se.

Sim, até pode ser na hora “do engate”, mas depois corresponde a um eterno adeus, sem resposta ou retorno.

‘Não é meu gênero!’

‘Quero alguém com outro corpo’…

Amor não é mais do que uma palavra.

A diversão começa nas fodas ocasionais, que se perpetuam como se os humanos fossem coelhos.

Uma procura do prazer instantânea, efêmera, ocasional e desprotegida.

Os coelhos têm um só objetivo: a reprodução.

Os valores soam a bens materiais.

E eu, tenho o tempo que não vivi.

Tenho saudades quando em mim habitava aquela súbita tendência suicida.

Agora, não sou nada.

Frustrado com a vida e a profissão, não amado, perdido, sem horizontes, com os sonhos dissolvidos em ácido e sem eira nem beira.

Para que servem as palavras?

E os atos?

É um fim imenso que tarda, um planalto, uma ave voa na tarde, desliza no ar, enternece o labirinto, mais do mesmo, intriga do espaço, uma menina imersa em solidão sonhando ventos, versos e embaraços, o cabelo apanhado, uma triste menina, foge consigo mesma.

A melodia do acaso esvoaça, o ar embaciado de Verão, como janelas soltas, perdidas em qualquer edifício.

Não invento pardais nem queixumes, há um jogo dos corpos, e só.

A maneira de sorrir, tênue e esparsa como uma vela acesa no acaso nu: escuro de sentir.

Arraiais de fogo, árvores concretas, matéria de luz, refresco da menina, decote, lamento de questionar.

A altura do verso, a aguda margem das ondas.

Talvez continue na procura de um nada acorrentado pela persistência dos ramos da árvore que um dia me suportaram.

Olho, mas em mim o sentimento de amar ou o redutor sentido carnal assimilam instâncias cujo prazer é ultrapassado pela dor de um dia distante e presente na memória.

Folheio, docemente, as páginas do livro amarrotado pelo passar do tempo.

Ao lado, um sopro vazio de tudo e de nadas: o vento a sentir.

Observo.

O impossível transforma-se no todo.

O fruto, banhado pela doce brisa, afasta-se.

E assim, outro dia, outra memória, outro fruto.

Talvez!…

Um dia, disseram que escrever é destino.

Compreender a outra perspectiva, mas manter a posição contrária de então.

O livro da vida de alguns está cheio de momentos de puro vazio, ocasionados por perdas e o tempo que passa.

Caminhos repletos de obstáculos.

A fé torna-se pedra.

A covardia impede o ditar o fim.

Um dia, não mais os detentores do pouco poder, da vaidade, do egocentrismo.

Dinheiro, beleza, sabedoria, estatuto social não servem mais.

As linhas do destino já traçadas desde o nascimento.

Então, do rascunho que se possa ler, ninguém está imune à dependência de toda e qualquer caridade.

Graves consequências das catástrofes naturais e das “mutações” da sempre frágil existência: maquinaria celular.

Neste mundo, sós e despidos.

As assimetrias são evidentes, nada é eterno…

Qual será a missão se a doença alastram-se!

 

Soubesse onde estou, como estou, para onde quero ir, para onde vou…

Ouço os gritos da noite inaudita que, um dia, fortemente me abraçou (há tanto tempo!).

Os dias sempre me decapitaram em pedaços.

A noite rouba-lhes a luz e a sede.

Destino que nunca soube descrever, fruto de erros ou de uma praga.

Já faz tanto tempo.

O hoje e o amanhã não são meus.

Na natureza existem mecanismos de adaptação que se traduzem por formas de sobrevivência.

Não os tenho.

Perdi-os.

Sou espécie nascida para logo entrar em vias de extinção.

Condição humana, sina, pecado, vidas passadas, influência demoníaca ou apenas eu.

Sempre eu e mais ninguém.”

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3 comentários sobre “Poema desconsolado

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