Das chatices que vêm com o tempo

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“Protágoras de Almeida e Castro é um leitor com alto índice de acuidade exegética. O que diz sobre o romance acerca do qual comenta é notável. Com justeza e sinceridade, faz afirmações coerentes e adequadas ao material que compõe a narrativa que lê. Conhecedor que é da obra do autor sobre o qual se debruça, confirma sua autoridade, sem resvalar em falácias ou afirmações categóricas sem o devido respaldo. Ocorre, no entanto, que suas intuições deveriam vir ancoradas em referências mais sólidas. Explico-me. O crítico infere relações de sentido e apresenta elementos de ilação hermenêutica que se fazem consistentes. No entanto, ao não citar nomes de referência da crítica/teoria literária incorre em categorizações que deixam de apresentar a necessária espessura, para não incorrer em opinião pessoal de menor espectro. Ao ler suas considerações, não se pode dizer que não saiba do que está falando, mas parece uma voz no deserto quando não cita autores que também já se manifestaram sobre os mesmos tópicos (no caso genérico da crítica/teoria) e/ou suas realizações estéticas/formais (no caso do autor em questão). Eu diria que o trabalho peca por falta de citações e referências explícitas. Ao fim e ao cabo, não pode ser relegado ao plano da “opinião”, pela consistência dos elementos discursivos de que se utiliza e que demonstram sua atenta acuidade de leitor voraz e preparado. Se refeito o trabalho, em respeito às normas, não vejo porque não aprová-lo trabalho.”

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O parágrafo acima é extrato de um parecer dado a trabalho acadêmico supostamente apresentado como instrumento parcial para obtenção de título acadêmico. Não importa o seu grau. O que me chama a atenção é a argumentação exarada no texto do parecerista. Ressalte-se sua intensa e vigorosa “cobrança” de referências e citações, o que revela, antes de mais nada e acima de tudo, um exacerbado uso de categorias um tanto fossilizadas pela burocracia acadêmica, no que diz respeito a suas normatizações e protocolos. Claro está que ninguém há de conseguir alçar os píncaros desta egrégia instituição, a universidade, sem se submeter aos protocolos que ela mesma institui e celebra para adequar seus critérios avaliativos. No entanto, o fato de demonstrar “conhecimento de causa” não precisa, necessariamente, transformar-se em critério eliminatório de um escrito, demonstrada que tenha sido a eficiência e a eficácia dos argumentos arrolados em qualquer texto que se apresente como candidatura a um título. Explico-me: não basta demonstrar que sabe… Em outras palavras: não que ser apenas honesto, há que parecer honesto (quem foi mesmo que disse isso???). O que ressalta aos olhos, no fundo, é certa dose de incoerência e/ou contradição do parecerista, para não dizer temor em dizer o que pensa – em função do objeto de análise e não em relação ao que podem dizer acerca do parecer, ele mesmo… e de seu autor…, – pois ele aprova e reprova, simultaneamente, ao longo de suas considerações, sem definir uma posição clara para, no final, optar por exigir (ainda que implicitamente) o trabalho seja reescrito em obediências às normas e aos protocolos de praxe. E eu em pergunto: o que realmente tem “valor” – a discussão desse tema mereceria outras linhas em separado – na situação que se apresenta. Por que não aprovar o trabalho, de conteúdo incontestavelmente válido e qualificado, ainda que não “apresentado” num modelo estrito e, vamos ser sinceros, redutor. Por outro lado, se existem os modelos – ainda que coercitivo – porque o trabalho não foi assim apresentado, evitando certos incômodos posteriores, da ordem do burocrático? E, em terceiro lugar, oh dúvida cruel, o que realmente é para ser feito: um trabalho sério, consistente, ou o preenchimento de um subliminar formulário?

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Perguntei ao Dr. Google sobre o indivíduo acerca do qual escrevi as linhas acima e ele ficou silente. Não me foi dada sequer uma referência. Logo, posso concluir que sou isento de qualquer tipo de responsabilização… Isto posto, estou tranquilo, afinal, tudo não passou de ficção… e ironia!

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2 comentários sobre “Das chatices que vêm com o tempo

  1. Muito bom o seu texto! Essas normas de trabalhos acadêmicos são muito chatas, às vezes passamos mais tempo editando o texto para que fique de acordo com as normas, do que escrevendo o trabalho em si.

  2. Vaidade do parecerista. Nenhuma objetividade. Rejeita um trabalho acadêmico em razão de normas engessadas, que talvez tenham sido deixadas de lado em função do conteúdo, provavelmente denso, apresentado pelo próprio autor, conhecedor que é da tese que defende. Picuinhas… Normas há, mas não devem desqualificar um bom trabalho, o que parece ser o caso. Enfim… coisa de PH-Deuses. Beijinho.

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