Ábacos e astrolábios

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O relógio marca sete horas e cinco minutos. Exatamente. O ponteiro pequeno no sete e o grande no “I”. A numeração romana, ainda antiga, mostra o quatro com “IIII”. O relógio está parado desde as sete horas e cinco minutos de um dia qualquer no passado. Um passado não muito remoto, na verdade, mas passado. Terá sido de manhã ou à noite? Vai saber. O relógio parou. O tempo também parece ter parado junto com aquele relógio. Um tempo que até então ainda não tinha sido plenamente dinâmico. Parou com o relógio. Junto com o relógio e o tempo, uma série de outras “coisas” também parou… a série (Atenção com a concordância”). Até a cruz que encima a parede onde está o relógio parece… parada. E cruz para? Pois é… Esta cruz já não tem a ponta superior. Só a haste e os braços. Pronto. Decepada. Acéfala. Parada. Em cima de uma parede com um relógio parado às sete horas e cinco minutos de um dia qualquer de um passado não muito distante… Parece que é assim que a História se faz…

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Numa página seminal de seu livro Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos, Antonio Candido escreve que “A nossa literatura é ramo da portuguesa”. Muita gente já se descabelou por conta desta afirmação. Do meu lado, penso que, na medida das referências de que se vale o autor, a assertiva tem sua veracidade. No perímetro da História, o Brasil dependeu de Portugal. Fato. Por via de consequência, a literatura aqui produzida seguiu pelo mesmo caminho. Outro fato. Com o passar do tempo, os liames da tal dependência foram ficando puídos pelo desgaste. Cronos é implacável. Logo. Hoje, tomar as palavras do crítico em sua materialidade absoluta, sem relativizá-las em função das configurações discursivas que a própria crítica vai produzindo e fomentando e denegando e desenvolvendo e… e…, é burrice. No entanto, o fato permanece. A Literatura Brasileira é ramo da Literatura Portuguesa. Foram os portugueses que aqui chegaram. Foram os portugueses que implementaram sua cultura, Foi a Língua Portuguesa que se consolidou aqui. Logo, geneticamente, somos ramos sim. Não é ramo no sentido da dependência. Que esta já não existe como outrora. Mas como origem, inegavelmente, ainda ramo. Concluindo com uma polêmica, deixo à interpretação alheia um trecho de livro sagaz, arguto, sarcástico, feroz e incisivo: A poeira da glória. Dele, cito um trecho que vai ecoar as ideias acima. As do segundo parágrafo. Por que o primeiro, fica relegado a uma tentativa (frustrada?) de poesia… Segue o trecho:

“E isto permaneceu até mesmo na época da maturidade, quando se transformou no professor com quem os alunos queriam estudar a qualquer custo, até para se vangloriar como um troféu de prestígio. A partir de 1961, Candido teve a chance de experimentar a criação de um curso de Teoria Literária, primeiro na Faculdade de Assis, depois na Universidade de São Paulo, chegando ao ápice na Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, onde desenvolveu em sua plenitude a matéria depois intitulada de Teoria Literária e Literatura Comparada. Criou-se assim o que se chamaria posteriormente de “paradigma uspiano” e que se tornou a “principal referência da crítica literária contemporânea do país”. De acordo com o registro de Rodrigo Martins Ramassote, num momento de reformulação dos cursos de graduação e programas de pósgraduação [no Brasil], Candido mobilizou investimentos e recursos necessários em diversas frentes de atuação para dinamizar a montagem de uma infraestrutura acadêmica bem-sucedida na área de Teoria Literária, ao disponibilizar recursos financeiros para pesquisa (através de bolsas de pesquisa da FAPESP [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo]); recrutar e contratar entre os alunos e orientados futuros docentes; remanejar outros tantos para a ocupação de cargos e postos de trabalho em instituições universitárias no interior do estado (sobretudo para a recém-inaugurada Unicamp); gerenciar o espólio intelectual e pessoal de grandes intelectuais e escritores (incorporando tal patrimônio ao meio universitário, bem como supervisionando o seu acesso e consulta); desenvolver e implementar amplos projetos de pesquisa coletiva e, finalmente, sugerir temas de investigação particular para seus estudantes. 70 Há, sem dúvida, um espírito militante em todas essas ações — um espírito que criaria a sua própria tradição de crítica literária, um novo círculo de sábios que cooptaria a literatura brasileira e o jornalismo cultural de tal forma que não se poderia escrever uma única linha sem passar pelo crivo dos discípulos que seguiam o seu cânone. Alguns nomes desses escolhidos pescados a esmo mostram como Antonio Candido se tornou o verdadeiro “interesse dominante” da nossa sensibilidade moral e como sua influência permeia naturalmente a nossa leitura dos grandes autores brasileiros, sem nenhum questionamento. Ela vai de Roberto Schwartz (que transformou Machado de Assis em um protomarxista) e Davi Arrigucci Jr. (um ensaísta talentoso, sem dúvida, mas capaz de escrever várias páginas falando sobre a poesia de Manuel Bandeira apenas no aspecto formal, sem tocar no conteúdo de sua obra), passando por Walnice Nogueira de Galvão (estudiosa séria de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa) e Telê de Ancona Lopez (protetora feroz dos arquivos e da obra de Mário de Andrade), terminando com João Luiz Lafetá (falecido precocemente, mas que causou um estrago permanente no estudo do Modernismo Brasileiro ao desprezar escritores de calibre, como Octavio de Faria e Agripino Grieco, simplesmente porque teriam posições opostas à esquerda moderada, defendida por Mário de Andrade após a Revolução de 1930) e Augusto Massi (impetuoso professor que, em nenhum momento, consegue discorrer sobre o problema do Mal na obra de Otto Lara Resende —um sujeito que, conforme veremos no próximo capítulo, só pensava nisso dia e noite). 71 Cada um destes iluminados tem (ou tiveram) atualmente um cargo acadêmico garantido, mantido pelo Estado, com bônus e benesses salariais que fariam a alegria de qualquer brasileiro —e os jornais e as editoras sempre estiveram de portas abertas para eles, especialmente para tecer loas ao antigo e amado mestre. Candido conseguiu transformar o reino da literatura numa espécie de Cuba literária onde a liberdade de discordar é paga com o desprezo solene de quem não se opõe às ideias superficiais de seu líder, porque eles mesmos não querem admitir para si mesmos que tudo o que fizeram até tem algum talento, mas ficou perdido na fragilidade de seus pensamentos. Ainda assim, isto não é nada perto do prejuízo que provocaram nas cabeças dos leitores. Foi uma catástrofe sem precedentes. Este círculo dos sábios simplesmente impediu qualquer possibilidade de aprendermos a fitar o abismo, tirando o prazer de estudar a literatura e inculcando na cabeça de cada um de nós que ela só seria útil se tivesse uma meta adequada à tão esperada revolução. Graças a esta traição dos intelectuais, ninguém mais se importa com o ser humano que foi triturado em carne e osso. O mito da “revolução permanente” contribuiu para que as contradições de Antonio Candido se transformassem em insanidades ratificadas pelas nossas instituições nacionais. Pois foi isso que aconteceu: atordoados por sonhos que não conseguiram transformar em realidade, elas destruíram definitivamente a sensibilidade moral do país, contribuindo para aumentar o abismo que há entre o Brasil real e o Brasil oficial.” (p. 310-311)

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