Pra não dizer que não falei…

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Já faz um tempo. Um rapaz levanta a mão e pede a palavra. Começa, num tatibitate chatinho, com voz melíflua e atonal, quase não respira. Algo exasperante. E vai em frente… Acusa o professor de não poder falar o que está falando sobre o autor a quem se referiu. Diz que não pode porque o professor não tem a competência do autor comentado, não tem a autoridade do autor comentado, não tem conhecimento de causa como o autor comentado. E que tais. Fala sem parar, quase sem respirar. Chato, enfadonho, desrespeitoso, agressivo. E para de repente. Cala-se. Assim, não mais. De repente. Calado. O professor, por alguns milhonésimos de segundo não reage. De repente, como a parada do aluno insolente, irrompe numa sequência de impropérios do mais baixo calão, sem censura. Babando, cuspindo, batendo na mesa de onde caem os livros, a garrafa de água, papeis, canetas, cigarro, os óculos. Um estrondo. Esbraveja, vocifera, xinga. O restante da patuleia, calada, estupefata, assiste, inerme. O professor se levanta e sai. Na semana seguinte, a mesma cena. O mesmo local. A mesma aula. O mesmo professor. A mesma patuleia. A mesma mão se levanta e escarra asneiras. O professor, arregala os olhos e se declara entusiasmado com as ideias que acabou de ouvir. Numa segunda oportunidade, a mesma sequência, e o professor declara que jamais tinha pensado em algo tão genial. Ainda uma terceira vez, e o professor elogia a sapiência de quem fala. Resumo da ópera: o aluno trancou a matrícula e desapareceu da sala.

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Teresa era uma mulher bonita. Morena com olhos verdes, uma bugra, mas de traços sedutores. Olhava para o professor com desejo. O adagiário popular, bom ajudante nestas horas, vem à cena: a menina “tirava a roupa” do professor “com os olhos”. O papo informal versava sobre tudo e sobre nada. Passatempo. Intervalo. Grupo pequeno de seis alunas, o professor novato. Daí a pergunta dele: este curso é “espera marido”? (Alô, adagiário! Presente!). Depois da dúvida delas, a explicação dele. E Teresa olhando, lambendo os beiços, com um sorrisinho sarcástico e voraz. Olhava e não falava nada. Papo vai, papo vem, risadas, comentários. Ela abre a boca: Não. Não é espera marido, pois os homens do curso ou são casados ou são veados. Enfática, na resposta, fala, olhando fixamente, de cima a baixo, o professor. Incontinenti, ele responde: que pena. Vocês saem perdendo nas duas situações. Os casados não contam e os veados pegam os homens que restam. Três meses depois, Teresa presidiu a comissão de formatura que convidou o professor a paraninfar a turma.

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Mais uma vez, recorro ao adagiário popular: quem fala o que quer, ouve o que não quer… Fala-se muito por aí. Fala-se muito por aí nos dias que correm. Fala-se muito, demais. E quanto mais se fala, menos se tem que falar. Menos se sabe, menos se conhece e menos se pode descobrir a veracidade do que se fala. Difícil. Alguém precisa desesperadamente de uma coisa. Consegui-la, por vias, digamos, naturais, é quase impossível. Missão para Sísifo. Interminável. Não há saída. Todas as possibilidades parecem esgotadas; todas as saídas, fechadas; todas as alternativas, anuladas. Tudo é não. O caos. No entanto, por um saber não sabido, explicitamente, aceita-se que um fato pode ser criado por uma situação inusitada que, necessariamente, não precisa ser anunciada. Se não o for, ainda melhor. Cria-se, então, o fato. Monta-se a cena. A situação, alheia ao desejo do fato, inusitada – quanto mais melhor –, envolve o desconhecido, o comum, o inofensivo (até esse ponto). Pronto. Está criada a situação que justifica tudo. Envolve-se o absolutamente ignorado em notório sacramentado. Em valor, quase um mito. Fala-se tudo, descobre-se o que antes era absolutamente desconhecido. A repetição do fato, exaustiva, insistente, renitente, como água mole em pedra dura, fura. Todas as possibilidades de interpretação estão eivadas de verdade… e de mentira. Como é que aconteceu? Quem fez? Quem mandou? Por quê? Fala-se muito e não se diz nada. Fala-se muito…

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