Nada como o tempo…

images

A última página do livro mostra um desenho de traço instigante, exibindo uma mulher deitada, nua, deixando entrever seu estado de lassidão e relaxamento. Abaixo do desenho, um pequeno parágrafo que diz:

“àqueles que falaram alto, não seguraram a língua, não guardaram segredo e esbanjaram o ouro do silêncio, enganosa fortuna dos homens, meu muito obrigado, o livro é de vocês, o livro, meus caros, são vocês, não cabendo a mim mérito algum, a não ser o de dar alguma forma ao repositório sempre pouco confiável das palavras”

O parágrafo está assim mesmo na página do livro: começa com letra minúscula e não tem vírgula ou ponto, marcando seu final. Até aqui há novidade e repetição. A repetição por conta da ausência de pontuação/uso de minúsculas. Já há obras literárias que, esteticamente, se utilizam deste recurso, na composição de seu projeto de escrita. Lembro-me agora e Walter Hugo Mãe, escritor português, muito bem sucedido nesta experiência. Há novidade, na mistura de desenho e texto, justificando a pulverização da voz narrativa – instância textual tradicionalmente individualizada – em vozes múltiplas, daqueles que não conseguiram se calar, segundo palavras do próprio autor. O verbo “calar”, neste contexto, explicita dupla significação: calar-se como forma de resistência, como luta, como demarcação de lugar “político”, por um lado, e calar-se como forma de multiplicar falácias, histórias, fatos, impressões, em uma palavra: fofocar. Esta duplicidade coroa o cartapácio narrativo que se espraia pelas 448 páginas deste livro, no mínimo, provocador. Pois bem. O que até que eu disse pode até se considerado pouco, quase nada, em relação ao pressuposto de estar escrevendo uma resenha, ainda que um tanto enxuta. Tudo bem. Todo mundo tem o direito de pensar e sentir o que bem lhe aprouver ou não. Neste caso, este detalhe, repito, coroa um cortejo luxuoso, ousado, inusitado, divertido e instigante de experiências narrativas, até então – pelo menos para mim – desconhecido. Li em jornal, que publica matérias sobre Literatura, a declaração de professor universitário, de sólida formação filosófica, com consistente posicionamento crítico. Ele dizia que dos inúmeros livros que recebe – e editoras e diretamente de outros autores – este valia a pena ler. Comentava que há muito não lia matéria tão contundentemente instigante da Literatura Brasileira. Tendo a concordar com ele, ainda que me sinta na obrigação de dizer que a crítica, na sua origem, é filha da impressão, prima da opinião. Logo, não preexiste a qualquer outra categorização. Não é materialização de uma existência ontológica per se. É, isso sim, resultado de elaboração, construção, articulação. Isso é bem diferente. De qualquer maneira, com ou sem a opinião abalizada do egrégio scholar, gostei imenso do livro. Um coro de vozes em miríade de tonalidades que se atropelam – se é possível, num bom sentido – sob as mais diferentes formas: teatro, poesia, diário, entrevista, aforismos, etc. Essas vozes, aparentemente desarticuladas, vão ecoando numa caudalosa narrativa que se faz “original” – as aspas se justificam: o conceito é por demais etéreo e miasmático –, pois não contam uma história, no sentido mais tradicional, clássica, desta prática ficcional. É ficção, da boa. Irônica e sagaz. Ficção que discorre sem atropelos, sem lugares comuns, sem moldura pré dimensionada. Flui. O texto transcorre com “tiques” como a referência a páginas rasgadas. Registro de falas diversas que não têm autoria identificada mas que identificam a origem, generalizada. Gostei imenso, vale e pena ler. Ah… já ia esquecendo o principal. O nome do autor é Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, que escreve o livro intitulado As visitas que hoje estamos, sobre o qual escrevi aqui, agora. Boa leitura!

download (1)

PS: vejam que o nome do autor e o título, na capa do livro, estão em minúsculas.

download

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s