Dos males inevitáveis da chatice

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A moça atravessa a avenida, sem muito trânsito. Olha com displicência e desdém enquanto atravessa. Anda olhando para o telefone esperto, sem sequer se preocupar se vem alguém na direção contrária. O que “pega” é a displicência desdenhosa do olhar… fora da faixa de pedestres…

O rapaz, magrelo e aparentemente subnutrido está usando capacete. O gosto deste é duvidoso. Mas está usando. Trepado numa motocicleta, dessas bem baratinhas, bem fuleiras. Ele vai “costurando” entre os carros, olhando como quem sabe de tudo e pode tudo… entre os carros. Nota: a motocicleta é daquelas das rodas bem finas, bem barulhenta e o condutor está mal trajado, usando chinelo de dedo e capacete!

O jovem com os fones de ouvido devidamente enfiados orelha a dentro, dorme no banco do coletivo, enquanto três senhoras se penduram, incomodadas, no corredor lotado.

A coitadinha está vestida como se fosse uma página de catálogo de enfeites de natal. Mal a funcionária se aproxima do balcão e começa a falar – sempre aquelas informações absolutamente irrelevantes, mas necessárias, dado que não vivemos num país EDUCADO – e a coitadinha corre para a beirada do portão. Ela tem medo de que alguém lhe tome o “direito” de viajar de avião. A personagem em questão pode ser um coitadinho também…

A mocinha do cabelo pintado de amarelo passa uma lixa nas unhas. O rapagão, com cara de galã de subúrbio, dorme. A mocinha, magrinha, feinha, meio sujinha, com a cabelama amarrada em tiras de chita bem coloridas, olha com desinteresse mais que evidente, mais que absoluto. Outro rapaz dorme. Outra mocinha está trocando mensagens – urgentíssimas” – ao celular. Lá fora, as faxineiras trocam comentários sobre a vizinha que se amancebou com o marido da beata e os homens se xingam – quase se matam na verdade – teorizando sobre o nada enquanto defendem as cores de seu escrete preferido. Faz calor. Enquanto isso, o coitado, à mesa, fala sobre a beleza das rimas de Camões.

Toda vez é a mesma coisa: o cenário de uma choperia ou lanchonete com a comida menos saudável possível. Ou então, um carro exótico. Ou então a foto mostra o objeto absoluta e redondamente inútil, comprado por uma nota preta e que demorou a chegar da china. Pra amoldurar, os comentários sempre na dicção de Jocasta sobre “as crianças”.

Se você fala de uma comida ruim, ela já experimentou. Se são as agruras de sequelas de males físicos, ela os conhece. Se a música não agrada, ela sabe porquê. Se o dinheiro está pouco, ela se diz miserável. Se você é contra isso ou aquilo, ela tem a explicação cabal. Se você não sabe, ela dá uma aula. Se você escreve, ela lê e dá palpite, mesmo que não tenha isso sido pedido a ela. Que pessoa chata…

Ele coça a barbicha enquanto ãhn faz pausas ãhn para ãhn formular uma ãhn pergunta ãhn que não faz o menor sentido.

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Para terminar, três opiniões diferentes:

A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente. (Florbela Espanca)

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Tomei a decisão de fingir que todas as coisas que até então haviam entrado na minha mente não eram mais verdadeiras do que as ilusões dos meus sonhos. (Descartes)

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Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas. (Voltaire)

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2 comentários sobre “Dos males inevitáveis da chatice

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