Da beleza em Clarice (também!)

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“Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico. Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com seu marido diante do café derramado. – O que foi?! gritou vibrando toda. Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: – Não foi nada, disse, sou um desajeitado. – Ele parecia cansado, com olheiras. Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago. – Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela. – Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo. Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.”

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Os parágrafos acima constituem a sequência final do conto intitulado “Amor”, parte da coletânea de autoria de Clarice Lispector, e leva o nome de Laços de família. É bom lembrar que as coletâneas de conto publicadas pela autora – inferindo-se então que a organização dos textos se deu sob sua tutela, em vida, na maior parte dos casos – levam chancela comum, associada a temas específicos. Os contos, então, podem ser lidos como variações de um leitmotiv, como na música. A harmonia da orquestra ficcional de Clarice é orquestrada em tons e semitons e sobretons que os textos dos contos vão materializando, pela via da narrativa que se espraia, as histórias que os textos contam e suas personagens e situações, por vezes, inusitadas, por foça de sua contundente banalidade.

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Pode ser que não faça sentido, o que aqui vai dito, para quem não conhece o conto na íntegra. Não vou me preocupar com isso. Escrevo por estímulo de uma aula bem dada, por mim p deixando toda a falsa modéstia de lado, por princípio – sobre o trovadorismo português, hoje pela manhã. Gostei tanto de algumas coisas que disse que resolvi escrever, usando como exemplo o trecho final do conto de Clarice Lispector. Uma mulher, no fim doa, vai dormir, não sem antes se pentear, pensando em tudo o que lhe aconteceu, de surpreendente, sobretudo, em mais uma tarde comum, banal. Aquela tarde foi uma espécie de turning point para a personagem Somente ela se deu conta disso, ninguém mais. O marido não alcança o caráter abissal da constatação vivenciada pela personagem. Nada de novo, até aqui. O que me levou a escolher esse conto é sua profunda beleza, uma delicada beleza que se explicita no trecho que aqui trouxe. Será que qualquer leitor se dá conta desta beleza? Em caso positivo, como é que se explica esta experiência? Caso contrário, seria possível fazê-lo se dar conta da tal beleza. Numa ou noutra circunstância, o fato que resta é que este final é tão tocante, tão delicado e, simultaneamente, tão contunde, perturbador e profundo, que as palavras empobrecem um pouco mais no intuito de dar expressão vivaz a estas ilações. O final é bonito, para ficar com um apalavra.

O que é que isto tem a ver com a minha aula? Talvez meus leitores entendam menos ainda. Gostei do que disse aos meus alunos pela manhã. Não reproduzo tudo, porque, de um lado, já não me lembro dos detalhes; por outro, quero evitar que meus leitores me deixem só neste ponto! Na aula, satisfez-me com uma explicação sobre o papel do trovador na poesia provençal da península e de como sua preocupação com a melodia, o ritmo e a sonoridade eram imprescindíveis para usas composições. Neste sentido, a beleza da poesia trovadoresca pode ser usada como ilustração de um dos objetivos da poesia: a expressão da beleza. Muitos “pares” podem até espernear, muitos narizes podem se torcer, muitas carantonhas podem se mostrar. Não mudo uma vírgula do que acabei de dizer. Com isso, ratifico a intuição que me leva a associar a minha aula e o final do conto de Clarice Lispector: a beleza de/em um texto literário – poesia ou prosa ou drama ou o que quer que seja – está, antes de mais nada, na sua índole expressiva. Por via de consequência, ao leitor resta o trabalho (e a delícia) de experimentar a beleza, tentando explica-la ou, esta é outra consequência, mais pragmática, menos fundamental. A beleza… ah, a beleza. Obrigado Clarice!

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