Revisitações

Tomado que estou da mais absoluta ausência de ânimo para o que quer que seja, resolvi postar algumas linhas escritas numa primeira tentativa de escrever um artigo sobre um poeta português de quem gosto imenso: Al Berto, pseudônimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares, nascido em Coimbra a 11/1/48 e falecido em Lisboa a 13/6/97, do século passado. Espero que gostem. Tenho a impressão de que já coloquei este texto aqui…. Se repito fica assim mesmo!

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Escrever cartas. Uma prática que pode beirar o inusitado para algumas gerações. Escrever cartas é prática que não encontra mais espaço no horizonte de expectativas de muita gente, sobretudo se se considerar as quatro últimas décadas – isso para ser bastante generoso. Certa feita, em casa de uma amiga, pedi papel de carta e envelope para enviar a alguém a quem estava a dever uma resposta. Meu espanto: não havia, nem papel de carta, nem envelope. Em minha casa, há uma quantidade enorme de envelopes – daqueles emoldurados por uma tarja verde e amarela… coisa de museu quase… ainda que eu insista em manter correspondência postal com a Elaine. Vamos ver quanto tempo ela ainda vai durar…

Por falar em carta, lembro-me de Camões e as suas, as “ridículas”, do Pessoa; as incineradas do Alberto e as três que Al Berto escreveu: uma para a mulher, outra para o pai e a terceira para o amigo. Se mulher, pai e amigo os são do sujeito cartorial que responde por Alberto Raposo Pidwell Tavares, ou Al Berto, já não sei. Há controvérsias. Costumo dizer que a biografia de um sujeito, desde que pistas sejam encontradas em seu texto (de gênero imponderável, por princípio), pode ser um instrumento, no mínimo, instigante para abordagem hermenêutica, de qualquer cariz, deste mesmo texto. Assim o faço com as Três cartas da memória das Índias. São três que, por intertextualidade, remetem A Camões e Pessoa, dialogando com Al Berto. Memória remete a tempo passado e articulada a “Índias”, faz logo pensar em Camões e sua homenagem épica às navegações portuguesas que para tão longínqua terra os levou. Também faz pensar em algo que não aconteceu e sua falta instiga a rememoração; da mesma forma que remete a um sonho abortado. Tudo isso, num clima de despedida, portanto, melancólico, o que faz olhar para Pessoa.

À primeira delas, deu o poeta o nome de “Carta da árvore triste (à minha mulher)”. O possessivo põe lenha na fogueira das possibilidades de leituras a que acima me referi. “Árvore” é substantivo comum que circunscreve campo semântico que aglutina ideia de mulher, de fertilidade; ao mesmo tempo que, por metonímia, leva à associação com madeira, caravela, viagem. Bem vindos de volta, Pessoa e Camões!

“o telefone parou de tocar
atiras o jornal para o caixote do lixo
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono
surge subitamente nítido e coberto de luz
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida
no fundo dalguma gaveta forrada a papel manteiga
o dia instalar se á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos
ouves rádio enquanto o café aquece
deixas queimar um pouco as torradas
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado

depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui
onde encontrarás esta carta”

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“é me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue
a noite cola se me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta
onde gostaria de deixar explicadas tantas coisas
não consigo
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
eu sei
comemos a lucidez do asfalto
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade
mas nada disto chegou para nos entendermos
o tempo transformou se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever te
sob o peso da luz do dia
a excessiva claridade amputar me ia todo o desejo
cegar me ia
tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite
sou frágil planta nocturna e triste
o sol ter me ia sido fatal
conduzir me ia ao entorpecimento da memória”

A segunda carta recebe o título de “Carta da região mais fértil (a meu pai)”. A fertilidade, triste na primeira carta, associa-se à virilidade, infusa no substantivo “pai”, do gênero masculino, construindo clara antítese com a tristeza que particulariza a pedra de toque da primeira carta: o abandono da mulher. Aqui, a identificação da/com a masculinidade é cristalina e, por oposição à primeira carta, remete à ideia de fertilidade, subtítulo do poema. A mudança, o anonimato dos afetos e desejos partilhados contrapõem-se ao marasmo da vida confortável com a mulher e à memória afetiva da educação recebida do pai.

vai certamente estranhar esta quase interminável carta
pai
há muito que o silêncio se fez entre nós
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar
e eu pobre de mim
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo
a cidade é veloz”

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“(…) é certo que arranjei outras compensações
a amizade segura de um amigo
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo
que quer
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas
e de beber
muitas vezes nem sei quem são as pessoas com quem falo
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível
desde que me conheço que me fujo
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando se
com pedaços sombrios da minha
não leve a mal estes desvarios”

Por fim, a terceira carta que se intitula “Carta da flor do sol (a um amigo)”. Na indefinição pronominal proposta no título, a definição do direcionamento de minha leitura: o real motivo da partida, do abandono, inclusive, do “melhor amigo”. Implicitamente, o homoerotismo que marca as palavras do poeta se faz explícito na aproximação de sentidos que “flor” e “sol” imprimem sobre a expressão de desejo tão peculiar. A beleza, o hedonismo, o desabrochar e a luminosa energia que, entre sol e flor, viceja, faz vislumbrar o definido desejo que indefine outras relações na busca insaciável de satisfação.

“vou partir
como se fosses tu que me abandonasses”

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“conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo”

O poema mistura experiências e constatações. Pulveriza ideias e protótipos – para não dizer estereótipos. Aponta diversas possibilidades de leitura. Aqui esboçada, está apenas mais uma, umazinha, simples e humilde, mas feita de coração, com a mente aberta às outras possibilidades, reconhecendo sua pequenez e limitação. Assim não fosse, não existiria a tal de crítica literária. A cada dia que passa, e muito mais agora, quando começo a descer a ladeira, confirmo a constatação de que o soco no estômago que a poema (no caso) e qualquer outro texto literário (no geral) dão no leitor é primordial, essencial, irrecorrível, inescapável, para fazer  a análise interpretativa a que se arvora certa crítica que se quer como imposição de parâmetros teóricos como conditio sine qua non desta mesma leitura. Teoria vem depois, é consequência que não pode prescindir da leitura mesma do texto. Entenda quem tiver olhos de ver e ouvidos de ouvir. Alea jacta est. E mais não digo: punto i basta!

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