O dicionário e suas veredas

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Sobre o que vou escrever hoje? Não sei. Definitivamente, não sei. Se sei, a preguiça apagou qualquer ligação com a memória de um devir que, simultaneamente interessa muito e não faz qualquer falta. Qual não seria a solução desse enigma senão continuar sendo um enigma, ou apenas mais um sofisma? Palavra interessante esta: sofisma. No dicionário Houaiss, ela apresenta em seu verbete quatro acepções:

  1. argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa;
  2. na rubrica “lógica”: argumentação que aparenta verossimilhança ou veridicidade, mas que comete involuntariamente incorreções lógicas; paralogismo;
  3. derivação por extensão de sentido da primeira acepção: qualquer argumentação capciosa, concebida com a intenção de induzir em erro, o que supõe má-fé por parte daquele que a apresenta; cavilação;
  4. derivação por extensão de sentido em uso informal: mentira ou ato praticado de má-fé para enganar (outrem); enganação, logro, embuste.

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Nas quatro acepções do verbete, uma ideia é recorrente e subjaz como leito de rio perene: enganação, se quisermos um substantivo, ou enganar, se um verbo. O leitor escolhe. Esta é a ideia chave. Em qualquer das acepções, sobretudo na primeira, mais abrangente, esta ideia central, básica, axial (ai como esta palavra me agrada!) – a “estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa” – rescende a pecado, como gosta de dizer meu queridíssimo amigo Vitor Escudero. E esse pecado banalizou-se, ou melhor, foi banalizado por excessiva repetição, por desgaste de uso, por vulgarização discursiva. Todos pecados igualmente veniais. Os pecados veniais, no meu tempo de catecismo, eram os menos graves. Os que pediam contrição mais simples e penitência leve. Ao contrário dos mortais… Nos dias que correm, quase não há mais este limite, a fronteira que deixava os adolescentes de cabelo em pé. Assim, de pecado em pecado, chegamos ao quadro de horror metonimizado em sofisma. Já não há fonte segura. Intenção (segunda, terceira ou mais funda…) se pulveriza em referências quase marginais que desviam o olhar, ciam cortina de fumaça, desestabiliza convicções. É IMPOSSÍVEL levar em conta, sem deixar os dois pés atrás (salve adagiário!) acreditar de primeira, sem uma segunda (terceira, quarta…) versão para o mesmo fato. Ainda, mesmo munido de todas as provas de que se sente amparado, o leitor não pode afirmar, com certeza, de que o que lê é “fato”, para além de qualquer dúvida racional. Junte-se a isso, a esse tsunami chamado sofisma – porque é disso, ao fim e ao cabo, de que se trata – a má intenção, a maldade, a perversidade, o crime. Uma pena. Uma chatice. Uma canseira. Esse tal de sofisma é mesmo um demônio e, do jeito que vai a procissão, há de infernizar a vida de todo mundo por um tempo. Olhe lá se não for pra sempre…

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