Contradições voláteis

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Em 2005, Alejandro Almenábar lançava o seu Mar adentro. O rapaz que pula e fratura a coluna ficando tetraplégico e, depois de muitas décadas de uma sobrevivência exitosa, ainda que atroz (o que inferido da narrativa fílmica), resolve que a vida não vale mais a pena (em que pese a decantada recíproca poética do ortônimo). O homem decide que não quer mais viver. Confidencia com quem o cerca, na confiança e no afeto. Confidencia e sua decisão escapa do limite da confiança. A Igreja e o Estado se metem, mostram serviço, impõe seus valores, exigem obediência a seus princípios. Não vou falar como acaba o filme. Não é suspense, mas vale a pena recalcar o impulso do spoiler, investindo na sedução do convite. O filme tem NADA de piegas. A narrativa é uma faca de fio aguçado que vai penetrando, lenta e desconfortavelmente, na alma de quem a segue. A poesia das imagens comungam em espírito e ideia ao texto que relata o debate implícito, no auge de um absurdo (para alguns) que pode beirar a loucura. Claro está que existe quem, na economia do filme, veja como louvável a tentativa de manter a vida. Mas há controvérsias.

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A partir disso, fico pensando numa blague nada engraçada com um clássico do cinema – What ever happened to baby Jane (Robert Aldrich, 1962) – o que terá acontecido com Michael Schumacher? A falta de “graça” se deve ao fato de que no caso do filme, o tormento a que é submetido uma das personagens revela a alta tensão dramática da narrativa que contrapõe dois ícones da cinematografia moderna no Ocidente. No caso do piloto, nada disso se passa. O acaso de um acidente fora das pistas condena o indivíduo a uma “vida” mantida por aparelhos, até prova em contrário, ainda ativa, desde 2013. O que é que se passa com ele? As diversas possibilidades de constituir teorias de conspiração, a referência complementa o impacto causado pelo filme de Almenábar. Nos dois casos, há a interferência do que chamei aqui de “acaso”. Não vou me deixar levar pelo cantos de sereia que as conspirações solfejam em suas mais diversas teorias. Não. Prefiro deixar a imaginação livre, mesmo que, intimamente, não conceda a esta situação o apanágio da possibilidade> em outras palavras, pergunto-me se o piloto está mesmo “vivo”.

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Estas duas referências me fazem pensar em recentíssima notícia sobre o desligamento dos aparelhos que mantinham vivo uma criança de menos de dois anos de idade no Reino Unido, mais especificamente, em Liverpool. Alfie. Pelo que acompanhei – e confesso que foi muito pouco -, o bebê sofria de doença raríssima e, aparentemente, todas as possibilidades foram esgotadas pelos médicos ingleses. Não havendo mais opções, veio a recomendação de desligar os aparelhos. Os pais resistiram. Conseguiram a autorização para transferir o filho para outro hospital, na Itália – até cidadania italiana foi providenciada para não haver qualquer tipo de empecilho. A contra resistência se fez sentir e o “Estado” interveio. A situação é similar – e apenas isso, similar! – às outras duas aqui registradas. A similaridade, no entanto, parece exceder os limites alheios para apontar para uma questão fundamental: a intervenção do “Estado”. No caso do piloto, em menor escala, com menos força (talvez… a gente não sabe dos detalhes…). No caso do filme do bebê real a coisa fica um pouco mais complexa, delicada, contundente. Não sou jurista. Não conheço a fundamentação filosófica do Direito. Sou um sujeito comum que se pergunta> tem mesmo o Estado o “direito” de intervir, de modo definitivo, irrecorrível, inquestionável, sobre a vida de um indivíduo? Penso que esta situação, em particular, a complexidade se adensa por dois “detalhes”: trata-se de um bebê de menos de dois anos (será que sua consciência registrou o que se passava com ele mesmo?; os responsáveis, os pais, decidiram pela tentativa, ainda uma, de reverter o quadro considerado definitivo pelos médicos e pelos “doutores da lei” em terras de Elizabeth II.

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A pergunta vai ficar, pra mim, sem reposta, ainda que minha dúvida aponte para a razão dos pais, mas…

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Memória afetiva… e mais

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Meu pai foi prefeito da cidade em que hoje eu vivo. Ele administrou o município entre 1977 e 1981. Depois disso, tentou dar continuidade em sua carreira política, mas não deu certo. Ainda como prefeito, eleito pelo MDB (só quem tem mais de 40 anos serão capazes de se lembrar o peso do significado desta sigla naquela altura). Ainda me lembro da carreata que encerrou sua campanha. Um grupo grande de pessoas, quase todos com a camiseta amarela com o número da sigla e o nome dele. O cortejo chegou até a praça da cidade, atrás da matriz de São Gonçalo. Todo mundo entrou no cine teatro que ali havia. Quando meu pai chegou, uma chuva de papel picado, gritaria, foguetório, banda música. Uma balbúrdia. Ainda hoje me escapa o sentido e o efeito disso tudo. Sinceramente, não conseguia alcançar o porquê de tanta euforia e, antes, o propósito, o desejo, o plano de meu pai. Ah… Hoje posso dizer sem culpa, a vaidade humana é como água: vai tomando a forma que o espaço e a circunstância permitem. Com isso, estou longe de criticar a atitude de meu, o fato dele ter se candidatado. Pois foi eleito e, ainda hoje, há gente que fala dele, não sem uma dose de doce e sentida nostalgia. O borracheiro, que hoje atende a mim e a meu irmão, comenta, emocionado, que o imóvel onde funciona sua oficina foi doado pelo prefeito de 1978: meu pai. A gratidão dele é tocante. Lá pelas tantas, já na reta final do mandato, meu pai presidia uma associação de prefeito da área metropolitana de Belo Horizonte, a GRANBEL. O dinheiro andava curto (Parece até que algum dia isso foi novidade). A administração já vislumbrava seu final. A tal associação resolveu atender ao chamado de Golbery do Couto e Silva para uma reunião. Lá se foi meu pai. No retorno: uma polêmica. Todos os prefeitos da GRANBEL conseguiram (milagre!) concluir as obras e os feitos alocados em seus planos de governo, apresentado quatro anos antes. Um fato inédito. Cadê a polêmica? Alguém pergunta. A polêmica reside na mudança de partido de todo o grupo de prefeitos. Mudaram de MDB para PDS. Gritaria, confusão, xingamentos. Por uns bons anos, os jornais vociferavam contra a então mencionada “traição”. O fato remanesce: a administração daquele grupo de prefeitos se CONCLUIU, na acepção, mas plena e acabada do verbo. Punto i basta! Meu pai não ficou rico. Nós não mudamos nosso padrão de vida e, melhor, nossos princípios. As contas foram contestadas por muito tempo e, depois de período esticado à exaustão, foram aprovadas sem emendas, sem processos, sem “operações” de ministério público estadual (Isso sim pode ser considerado um milagre!). E eu ainda me pergunto para quê isso tudo?

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De ler e de ver

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Li, hoje, na edição de Março do jornal Rascunho, um comentário que me fez pensar. O sujeito, dito escritor de sucesso, afirma que o escritor tem que estar no centro da vida, dos acontecimentos, do momento, para poder, daí mesmo, retirar elementos para a sua “obra”. Ao mesmo tempo, ele afirma que para saber o que fazer com tais elementos tem que se afastar, se distanciar, do centro da vida, dos acontecimentos, do momento. Tal assertiva é, no mínimo ambígua. Faz sentido, em perspectiva operacional, dinâmica, orgânica, prática. (Nossa, Graciliano Ramos teria tido um episódio de apoplexia ao ler esta linha!) Ou seja, o movimento (dialético) de centrar-se e descentrar-se para completar a “obra”, faz do escritor um sujeito dinâmico. E o substantivo (sujeito), aqui, carrega em sua espessura semântico-discursiva, a ambivalência de sua “posição”, de sua própria dinâmica no processo da escrita, entre outros. Por outro lado, há de se admitir certa ambiguidade no cerne da mesma expressão. Falo ambiguidade para não usar “contradição”, ou, mais excessivamente “paradoxo”. Creio que a matéria não suporta tanto. Voltando… A ambiguidade se constata, ou, antes, pode ser constatada, na antítese dos dois movimentos implícitos – centrar-se e descentrar-se. Sem a consideração da perspectiva dinâmica do processo (da escrita, aqui, especificamente), cada um dos dois exclui o outro, automática e simultaneamente. Ou não? Vejam que faço uma pergunta e não apenas uma exclamação retórica, como certo cantor/compositor que, quando na ação de seu talento peculiar, encanta, mesmeriza, seduz; mas quando se mete a “falar”… argh… Deixo implícitos os comentários adjacentes… Bem. Estas linhas servem para destilar um pouco da minha desconfiança destas obras incensadas como “originais” ou inovadoras, ou ainda, que iniciam uma nova fase de uma literatura qualquer. Se tais obras tem origem em certames literários, por mais sérios que sejam, ganham a chancela do meu ceticismo. Por via de consequência, o que dessa situação advém, é tocado pelo mesmo posicionamento, no mínimo, desconfiado. Todos estes eufemismos para dizer que tenho quase verdadeira ojeriza, ou quase ojeriza verdadeira (São duas coisas diferentes, inquestionavelmente!), desse tipo de “sucesso”… mas, como tenho o hábito de dizer, sou um chato…

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O aquecimento valeu para introduzir algumas linhas sobre um filme que vi ontem, por recomendação de um amigo do Rio Grande do Sul, admirador contumaz do cinema. Trata-se da última (e recente) versão cinematográfica de um romance irretocável, como todos os outros, de uma escritora de língua inglesa: Agatha Christie. O romance tem por título Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Orient Express). Não vou fazer a mesma acurada e cristalina resenha crítica já feita pelo amigo citado, em sua página do facebook (o nome dele é Robson Pereira Gonçalves). A direção de Kenneth Branagh e a atual de um elenco estelar fazem valer a aventura de ver o filme. Aliás, é um achado a composição do bigode de Hercule Poirot, no filme, encarnado que é pelo próprio diretor. Impécable! (Com sotaque belga, por favor!) Mais que isso, o fato de ser uma adaptação (renovada) do romance da escritora inglesa. E é este, exatamente, o ponto que me obseda: a fuga absoluta, radical e inquestionável ao estereótipo de Hercule Poirot como fio condutor da narrativa. Olhos mais ingênuos podem se deixar guiar por essa falácia, quando da leitura do romance e, por via de consequência, perseguir as voltas e desvoltas que o dito cujo dá para esclarecer o assassinato do gangster norte-americano (Seria isso uma redundância?). Quero destacar a abordagem humanista e filosoficamente psicanalisada da narrativa fílmica, transformando as personagens tipo de um drama raso em encarnação de dilemas e conflitos constitutivos da subjetividade humana, em toda a extensão de sua complexa diversidade. Um achado! A sequência final, quando o detetive faz seu trivial discurso em que elucida as artimanhas do crime até então insondável, é de uma sutileza e, simultaneamente, de uma profundidade que chega a emocionar de fato. Tocante! Vale a pena a aventura. Fica o convite.

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OS: isso tudo serve para sintetizar o que penso das “celebridades” de ocasião, infelizmente, tão comuns em Pindorama…

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Uma carta

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Ah… o desejo. Sobretudo aquele que não tem nome. Aquele que ataca, se faz presente, obseda, mas não se apresenta, não tem identidade. O desejo, inominável. O desejo enreda, consome, anuvia. O desejo move, se move e remove. O quê? Não há como saber. É assim, o desejo. Em sua multiforme, atira no que vê e acerta no que não vê, ou seria o contrário? Por ali e por aqui, alhures, na terceira margem do rio… Um rio que corre sem margens. Mas corre. Guimarães Rosa diz presente e eu cito alguém que não conheço, por tabela, citando trechos de Guimarães Rosa que são citados por esse alguém que não conheço. “E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei – daí então acreditei […] Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim- que não era de verdade. Não era […] Diadorim deixou de ser nome, virou sentimento meu. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia.” Uma carta. Uma carta de amor. Todas cartão de amor são ridículas. É isso mesmo o que diz o poeta, pois não? Como eu disse, não conheço o citador, mas conheço o texto do citado. E penso: fala o desejo. E como reagir. Talvez, como o autor da carta que segue abaixo (omito remetente e destinatário por uma questão de respeito). Não pedi permissão para publicar a carta, por isso o anonimato. Só vai saber quem é, quem for… se chegar a ler o que aqui escrevo, apropriando-me de sua carta. Como vente. Uma palavra que pode identificar esta carta e sua motivação. Contundente, em sua assertiva. Tocante, em sua inspiração. Direta e instigante: o texto se enreda, como música, em versos que são cosidos (sim, assim mesmo, com “s”, basta ir ao dicionário pra saber o porquê) em linha quebrada, na busca de expressão para sentimentos entrecortados por experiência contrária. Uma experiência. Um troca impossibilitada. Um lamento. Uma certeza. Um de cada um… Tudo em letras de música “cosida” e, tateante, constrói uma das facetas do desejo, um de seus filhos ou uma de suas filhas. Vai depender dos envolvidos na teia desse bicho danado, o desejo. Segue a carta. Copiada aqui literalmente, sem tirar nem pôs nada!

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Minha cabeça ficou louca, você me bagunçou, pirei, mas nossa história poderia ter os diálogos do filme “Bonequinha de Luxo”, só que escrita por Almodóvar. Mas, meu caro, meu quarto não é como a Tiffany & Co., onde você finge estar dentro da loja tomando seu café da manhã para confortar seu ego, acreditando ser um lugar mais confortável, talvez você não tenha um gato sem nome e não vamos ter o mesmo final… nessa novela não quero ser só teu amigo, te ganho ou te perco sem engano.

Vamos deixando o futuro, vamos fingindo que não há. Por enquanto, enquanto essa noite mais uma vez se arrasta, Nossa Senhora do Silêncio pinta as águas do mar, não a vemos (mais uma vez), mas ela estava ali, lua cheia dos amantes vazios, até ela, que segredos eu contava já se cansou. O que vejo é somente as paredes brancas do meu quarto, e nessa mesma noite seus olhos veem outra pessoa que adormece, você ao deitar abraça-a. Enquanto beija o seu porto seguro eu adormeço entre os braços do incauto. Você o deseja boa noite; não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada.

Esse jogo perigoso que pratico busca o limite da aceitação – exaure todas as minhas verdades, fazendo a pó todo plano que nunca tive, mas que de maneira infortuna quero ter; sonhos, desejos, vontades… tudo isso são desfigurados pela incerteza da hora que vou te ver novamente. As farpas do incerto me cravam, rasgam e sangram, mas basta ver o desejo do teu olhar assustado e vagueiro, teu sorriso de menino levado, ouvir sua voz me dizendo qualquer besteira para tentar mudar de assunto, que esqueço de mim e acredito mais uma vez neste amor marginal. A linha tênue da aceitação dilacera meu nome; sou o outro, o vulgar, o sem lar, sou aquele. Enquanto você é o trouble, o que me diz You Know I’m No Good, porém é aquele que me bagunçou, sim eu deixei, zerou!

Você que é essa pedra em meu caminho, vivendo a fugir, inventando qualquer desculpa, uma mentira e assim se fazendo minha verdade, numa tarde quente quando sobre as escadas; me beijando quando não somos mais vistos e se deitando em minha cama após um copo de água gelada. E depois esse amor proibido de minutos contados, mais uma vez bato o portão, me deito e me vejo na solidão, dessabor do falso me toma, arranhado por mais mentiras que pronuncia tão mal. Boca que treme por me conter para não te chamar de amor, olhos saltam à paixão, mãos que queimam ao te tocar, eu quero você agora, não dá mais para segurar, é notório. Toda desculpa se torna esfarrapada. E quanto mais eu me entregava, mais nascia o meu desejo, mais sobrava só o desejo, e mais eu te queria sem palavras, sem pensamentos

Minha ingenuidade me cegou, me enganou. Obtuso me tornei por acreditar que lhe oferecer meu pouco seria o suficiente; que lhe importava ter de volta sua liberdade, teu sorriso e tua vida. Mas tudo que puder oferecer foi dado de boa fé e verdade, talvez possa continuar a desfrutar, pelo menos creio que o aprendizado ficou. Pode me dar o meu prazer, mas vi que com amor é mais caro. Ou, talvez, temos relação e perspectiva diferente sobre valores, pois realmente para mim era muito. Ou, talvez, tenha esperado demais, querer receber algo que nunca será foi capaz de dar, afinal damos o que temos e um relacionamento verdadeiro, de entregas e compartilhamentos nunca lhe foi ofertado, até o momento. Deve ser triste viver onde a exploração é a elo, o medo é a sustentação e o falso o sopro vital, mas suas atitudes te direcionam para o acômodo, para o querer pelo corrupto e pelo que não há hombridade, para o repouso maçador, à pratica do sádico. Um espaço ótimo para sua boca de cena, ali o público aplaude sua interpretação torta de Diadorim, que nasceu para muito amar sem gozo de amor, a mim, só me resta o papel de Dorotéia afogada, e no fim minhas lágrimas secam sozinhas

Sempre fui um sujeito forte, autossuficiente e independente. Sabe, nunca dependi de ninguém – filho da rua, meio sem lar, aprendi a me criar sozinho e tudo isso me fez homem que não sabe não ser, um menino encantado com armadura feito do ouro de Oxum, só me dou por paixão, nasci com esse defeito. De alguma forma você tem um poder de kryptonita sobre mim, ao ponto de não conseguir dizer não quero mais olhando nos seus olhos, a carne fraqueja, as palavras não saem. Você é meu harakiri. Amigo, não duvide da capacidade de um filho de Logun Edé, sagitariano, regido pelo Odú 8, guardado por São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora Aparecida, quando desejo faço subir marés sortilégios, quando desconfio desconfiguro dunas de desencantos, não zombe da minha inteligência. O coração é doce, mas não idiota!

Não há saudade nem mágoas. Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar, e não me volte a cara quando passar por mim. Nem tenha de mim uma recordação que entre o rancor. Fiquemos um perante o outro como conhecidos desde a infância, que se amaram por quando meninos, embora na vida adulta sigam outras afeições. Conservam nos caminhos da alma a memória de seu amor antigo e inútil.

Talvez esteja me achando infantil por não ter conseguido falar tudo que te escrevi, contudo essa foi mais uma forma de cuidado, procurando a sinceridade de veras palavras. Mas nesse momento recolho meus brinquedos e não quero mais brincar, é sério ser o seu brinquedo. Saber a hora de parar é uma das coisas mais adultas que a vida me ensinou.

Se levante e saia, leve contigo suas mentiras, medos e incertezas. Me deixe com nossas lembranças, nossas músicas que futuramente voltarei a escutar, e quando as lagrimas secarem vou cantá-las sejam onde for. Não há mais o que fazer, amor esse que foi devagar e urgente não me alimenta mais.  Não lhe cabe a preocupação, preocupação é dadiva dos que amam e de quem pode cuidar, isso não lhe é permitido, você não se permitiu. Vá, que por aqui, ficarei bem, sempre fico…

Por que no primeiro momento da leitura dessa carta não se levantou? Mesmo que sem pensar, era medo de eu não ir te buscar? E não iria, não posso ir atrás de alguém em um momento de confusão. Você quis ficar; sabendo que tudo que me trouxe de ruim o pior seria ficar sem você. E o que você fez? Ficou, voltou, se foi novamente… Em meios a propostas absurdas e mais mentiras me feriu outra vez, se atente: não estou para seu bel prazer, você me procura para preencher a sua necessidade e no vazio me deixa. Sabendo que podia ter tudo que te falta, preferiu o conforto de relacionamento assolado, mundano e espúrio – este que te desgasta, te limita, humilha e te fere, esse que em meu peito vem afagar. Não consigo compreender, está fora da minha capacidade, não importa o que me diga. No fim, me pergunto, “O que sou para você?”, e não consigo encontrar respostas, há momentos que acredito, há reconhecimento de verdades e afetos, reconheço que de tão verdade acredito, porém tudo vem a desabar, e quando o coração aceita, psicológico pira, não sei mesmo!

Enquanto o medo de voltar ao passado preenche sua cabeça, cegamente fica, não enxerga o que te ofereço. Vem me dê a mão, a gente agora já não tinha medo. [E] se te interessa o inverso do que tem, estou aqui, não faz parte de mim proporcionar vivências de dominação e trevas, só tenho a ofertar sorrisos bobos quando te vejo, brigas idiotas por não ter vindo me ver, pensamentos vagarosos em tardes de domingo, café da manhã com pão de queijo na segunda, a espera na semana para te ver sorrindo, para te ver cantando, abraços apertados em louvação ao sucesso, um afago quando algo não der certo, canções desafinas embalando olhares desconcertados, dancinhas ridículas para abrir seu sorriso, um corpo quente sobre o seu, um chão para amor urgente, mordidas que não precisam ser escondidas, felicidade em horinhas de descuido, um amor que gera um pouquinho de saúde, um descanso na loucura, grandes cartas cheias de bobagens que talvez nunca serão lindas…

Não me diga que eu amo a mim mais do que amo você, meu bem. Mas de fato as paixões são para si mesmo, não são para mais ninguém. O que não quer dizer, porém, que sozinho eu possa ser feliz… Pois então decore esse texto sob o pretexto de não parecer um ator. Na verdade, eu acho que amo você melhor que você mesmo. Eu fumo um cigarro, eu bato um carro, eu espero que você veja que eu não posso viver sob a mira eterna desses dois olhos frios. Olha o tempo passando, e a gente parado fazendo cena para o público rir. As paixões, meu amor, são tontas, são tantas. Chegou a conta, esteja pronto, aquele ponto em que tudo muda, não quero ser o último a chorar.

Eu sei que atrás deste universo de aparências, das diferenças todas, a esperança é preservada. Nas xícaras sujas de ontem o café de cada manhã é servido. Mas existe uma palavra que não suporto ouvir e dela não me conformo, eu acredito em tudo, mas eu quero você agora. Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes, pelas tuas loucuras todas, minha vida. Eu amo as tuas mãos, mesmo que por causa delas eu não saiba o que fazer das minhas. Amo teu jogo triste, as tuas roupas sujas é aqui em casa que eu lavo. Eu amo a tua alegria, mesmo fora de si, eu te amo pela tua essência, até pelo que você poderia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse te banhado nas águas do equívoco. Eu te amo nas horas infernais e na vida sem tempo, quando sozinho bordo mais uma toalha de fim de semana. Eu te amo pelas crianças e futuras rugas. Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas e pelos teus sonhos. Amo teu sistema de vida e morte. Eu te amo pelo que se repete e que nunca é igual. Eu te amo pelas tuas entradas, saídas e bandeiras. Eu te amo desde os teus pés até o que te escapa. Eu te amo de alma para alma. E mais que as palavras, ainda que seja através delas que eu me defenda, quando digo que te amo mais que o silêncio dos momentos difíceis, quando o próprio amor vacila.

Odeio o modo como fala comigo. Odeio quando finge que está com raiva só para me ouvir a te chamar. Odeio o modo que me olha e odeio mais ainda quando vou dizer algo e o brilho dos teus olhos vem me calar. Odeio quando me deixa sem graça e como consegue ler minha mente, eu odeio tanto isso em você que até me sinto doente. Eu odeio quando diz que meu sorriso é lindo e quando me chama de amigo. Odeio o modo que toca o meu rosto e as suas brincadeiras quando falo sério. Odeio mais ainda quando me pede para não ir embora, eu odeio, pois, você sabe que eu não consigo. Eu te odeio pois você nunca disse te amo, mas nunca disse que não! Odeio o modo que sorri, é fascinante, eu fico sem rumo. Eu odeio quando me faz rir muito, mas mais quando me tira do sério. Eu odeio quando não está por perto e o fato de não me ligar. Eu odeio pensar em você o dia todo e não te encontrar. Eu odeio quando você diz que eu não resisto a você. Odeio quando me dá não razão e mais ainda quando me diz que não. Eu odeio essa sua cara lavada. Odeio quando diz que estava com saudades e odeio quando não vem me abraçar. Eu odeio te dar as mãos e ter que soltar.  Eu odeio não poder te ver todos os dias e te querer cada vez mais perto de mim. Mas eu odeio principalmente, não conseguir te odiar. Talvez, às vezes, só um pouco, por um instante, por um segundo. Te amo e te odeio em uma mesma oração!

Minha casa é onde apontam meus pés, ir e voltar tem a mesma facilidade para mim. Só depende de você, me tenha por completo ou me deixe ir, só não me machuque mais. Veja bem, nosso caso é uma porta entre aperta, e eu busquei a palavra mais certa, vê se entende meu grito de alerta.

E só vai saber para que serve o tempo quem se preocupa quando houver saudade, às vezes dói, como dói querer não sentir vontade. Futuramente a gente vai viver nossa eternidade, Nossa vida vai dizer o que mais importa e aí todo mundo vai saber que o amor convém. Deixa à distância e à saudade te mostrar o que realmente te importa, se reconheça e pare com autodesculpas, enganos e mentiras tão clichês que nem você mesmo acredita nelas, são lamaçais. É o fim daquele medo bobo, e por mais que eu te queira agora, respeito o tempo, sei que não é possível, mas quero tentar, tentar acreditar que futuramente seremos tão completos que seremos um, porquê é no futuro que mora nossos medos mais perfeitos e nossas melhores esperanças, não podemos se prender à toa por causa de uma outra pessoa.

Quem de nós dois vai dizer que é impossível? Por fim; você foi…”

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Três livros e três mulheres: Capitu

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Agora é a vez de Machado de Assis. O que escrevo sobre o romance dele que aqui me interessa – Dom Casmurro – vai ao encontro das ideias de Silviano Santiago a que me referi ontem. Claro está que não vou me pautar por uma abordagem aproximativa entre textos ficcional e texto crítico. Longe disso. Anoto, aqui, apenas, algumas observações ligeiras, a partir da leitura mais acurada que fiz quando da escrita do meu artigo. De qualquer forma, faço outra referência de cunho teórico e/ou metodológico. Desta feira, não a um texto em particular, mas a uma ideia. Em tese de doutoramento em Literatura Comparada defendida por Eni de Paiva Celidonio, em Porto Alegre, em 2006, a autora insinua certo equívoco de Alfredo Bosi, quando afirma que Capitu recebeu o ratamento que lhe era devido como mulher burguesa no fim do século dezenove. O equívoco é explícito e não cabe aqui averiguar sua relevância, em que pese o deslize do crítico e historiador. Esse tipo de firula já não me apetece mais… O que desejo ressaltar é que, em nada e por nada, pode-se afirmar tal coisa por um motivo simples: no romance, o narrador nos conta que jamais respondeu às cartas que Capitu lhe escrevera e, quando da visita de seu filho, a indiferença – para não dizer sarcasmo e desdém -fizeram com que declinasse do direito de saber o que quer que seja sobre a ex-mulher. Este detalhe, a meu ver, se aproxima da visada que desenvolvo em artigo meu já referido. A hipótese da “punição”, neste caso, faz mais sentido. Diro isto, não me demoro, deixo para as retinas que me acompanharam até aqui a decisão de seguir acompanhando com a terceira parte do meu “relato”.

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Fiquemos, agora, com algumas considerações acerca do romance de Machado de Assis. De maneira diferente, em relação às duas protagonistas já citadas, Capitu tem uma personalidade forte. Moça decidida, resolve todas as situações com um senso de objetividade e equilíbrio, que superam o próprio Bentinho, personagem fraca e indecisa, apesar de nomear a narrativa, fato que o faz coincidir com Basílio, o vértice do triângulo de adultério estabelecido no romance português. Bentinho, como já se disse, é fraco e seu espírito frequentemente assaltado por dúvidas e inseguranças. Talvez seja resultado da força impositiva da mãe, substituída depois pela objetividade de Capitu. No fim de sua trajetória narrativa, Bentinho é um homem atormentado por um ciúme doentio, um pouco fruto de sua imaginação, associada à insegurança que lhe marca a personalidade. Suas fantasia são comuns quando se pensa no perfil do homem burguês – na perspectiva de Peter Gay que coloca no homem um temor desmedido pelo “sexo misterioso” da mulher, o que acaba por refletir uma insegurança em relação à possibilidade de perda de seu lugar na hierarquia social da burguesia fin-de-siècle. Ainda sobre Dom casmurro, é necessário que se diga que os nomes das personagens são significantes mais que sintomáticos das situações aqui referidas. A mãe de Bentinho se chama Glória; Capitu, na verdade, se chama Capitolina, o que remete o significado de seu nome para o campo semântico da superioridade que marca sua personalidade. Bentinho, ele mesmo, tem no nome um diminutivo ambíguo, ao mesmo tempo carinhoso e depreciativo.

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Três livros e três mulheres: Luíza

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Ou seria Luísa? A seguir os parâmetros da Língua Portuguesa falada na península, bem que poderia ser com “s” e não com “z”. Firulas… Desta vez, o romance vai para Portugal, contemplar o mar com os pés na terra, a sonhar, delirar, imaginar e perceber, como Eça o autor. De começo, faço referência um sujeito que já admirei, mas continuo a reputar como merecedor do respeito e da admiração que a ele se dedica. Silviano Santiago. Ele é autor de um artigo sobre Gustave Flaubert e Eça de Queiroz: “Eça, autor de Ema Bovary”. Numa “mistura” muito bem dosada de crítica e ironia, o crítico fala das tramas que envolvem os dois romances, numa perspectiva (inusitada quando do aparecimento do artigo) de leitura do livro de Machado de Assis: Dom casmurro. Para a Literatura Comparada, nada mais natural, plausível e relevante. A aproximação se faz de maneira a instigar a leitura do romance do autor brasileiro, sem deixar de demarcar as fronteiras que este partilha com seus congêneres francês e lusitano. Hoje, na segunda etapa, o romance de Eça comparece com sua “contribuição” para o trajeto da ideia de punição que proponho na leitura comparativa dos romances.

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Num segundo momento, temos o casal formado por Luisa e Jorge, igualmente provincianos, mas de um provincianismo citadino, urbano – como requer o código da modernidade. Luisa também é leitora dos românticos franceses, mas ao contrário de Ema, não se sente atraída por mais nada além do que já possui: boa casa em Lisboa, empregados, um marido dedicado e todos os confortos que o modelo burguês poderia oferecer. Seu paraíso começa a ser ameaçado com a volta de um primo, amor antigo, atropelado pelo casamento apaixonado. O contrato burguês aqui se localiza na cidade, como já se disse. Há de se insistir que um certo provincianismo pode ser detectado nesse quadro narrativo, mas um provincianismo dirigido à situação de Lisboa no contexto europeu “fin-de-siècle”. Jorge é o protótipo do macho bem sucedido, para a época. O detalhe que chama a atenção no aparente equilíbrio da cena de fundo é o fato de que a célula dramática do romance é espelhada no texto do próprio romance. Na mise-en-abyme realizada pelo narrador, Emestinho, uma personagem, escreve uma peça cujo fim é vivenciado pelo casal de protagonistas. O marido é traído e deve decidir sobre o destino da mulher adúltera. Coincidentemente, ela morre, mas não por meio da febre que vitima Luisa. Esse espelhamento em profundidade pode remeter à narrativa de Flaubert, recuperada pela dicção narrativa de Eça de Queirós que, por meio de insistentes comparações da vida lisboeta com a mundanidade parisiense, acaba por reduplicar a situação de insatisfação vivida por Ema e sua punição que, no caso de Luisa, é revestida de uma erudição atávica no perfil culto-intelectual dos portugueses. Em outras palavras, a morte de Luisa remonta à punição medieval das mulheres tomada pelo demônio. Os jesuítas, mestres na arte de “arrancar” confissões de obsessão de homens e mulheres têm uma participação mais que profunda na formação do caráter religioso dos portugueses. Essa marca se deixa transparecer quando Luíza tem a cabeça raspada Esse elemento dramático pode ser associado ao ritual inquisitorial, já referido, o que, por sua vez, na economia do romance de Eça acaba por explicitar urna faceta da religiosidade – marca indiscutível da identidade cultural portuguesa.

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Três livros e três mulheres: Ema

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Ah… o exercício da leitura. Não fosse ele… Sei não… Uma personagem de novela “global”, vivida por Nathália Timberg, fala, numa de suas meteóricas aparições no “folhetim”: os livros me fazem voar. Ou qualquer parecida. Mas a ideia está aí, explícita. Os livros. Esses objetos indecifráveis, apesar e sua materialidade concreta e óbvia, ainda assim, indecifráveis. São objeto de desejo desta horda igualmente indecifrável: a dos leitores. Que raça mais esquisita, gente que gasta seu tempo (Veja bem, eu disse “gasta”, não “desperdiça”! Poderia ter escrito “usa”, ficaria menos óbvia a possibilidade de entrada em vigor do tal sentido pejorativos, mas…). O livro. O objeto livro. A materialidade da história em toda a pujança de sua natureza ficcional, portanto, mentirosa, dissimulada, inventada, pré-determinada. Ainda assim, absolutamente livre, etérea, volátil. O livro e a linguagem. A linguagem e o sentido. Estes pares, em nada opositivos, bailam uma dança sem som que preenche de sonoridades imaginárias a mente de quem se dispõe a aceitar o convite da linguagem: viajar na imaginação. Depois disso tudo, desse tsunami de tergiversações, digo a que vim: falar de um livro. Um não, três. Começo hoje a publicação de partes de um texto que escrevi logo no início de minha “carreira” acadêmica. Ainda em Santa Maria. Isso se deu na década de 90 do século passado. Ai, o tempo… Sinto-me velho quando falo assim. Por velho não quero dizer ultrapassado, acabado ou inútil. Não. Apenas velho. Gasto. Idoso: adjetivo (que pode ser substantivado!) que identifica alguém, um sujeito que já viveu muitos anos. O muito é de intensidade moderada. Então… Sinto-me velho quando falo o que falei acima. Mas escrevi este artigo sobre três romances importantes da Literatura no Ocidente. Importantes e bonitos. Bonitos e interessantes: o prazer da leitura, mais uma vez experimentado nas páginas desses três livros! Trata-se de Madame Bovary, O primo Basílio e Dom Casmurro. Os autores, creio, todo mundo sabe quem são. Dispenso-me, então, de citá-los literalmente.

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No caso do romance de Flaubert, temos um casal de província que é – e esse fato é fundamental para entendermos um pouco das perspectivas de leitura de romances franceses do século XIX, devedores convictos de uma tradição descritivo-realista fundamental para a literatura da época, o casal de protagonistas sacramentam, com seu casamento, um contrato burguês no campo: nada da burguesia urbana que vai caracterizar outras narrativas ficcionais da época, mas a insistência na articulação entre provincianismo e vida no campo. Ema é uma mulher “romântica”, por vício de formação. Leitora dos românticos mais em voga, vive influenciada pelo imaginário romântico e desenvolve uma procura desesperada de ascensão social aliada ao prazer sensual. Nesse desejo desenfreado por mudança de status existencial, Ema recusa sua condição provinciana, em nome do desejo burguês de bem viver. Nesse sentido, seu casamento se reveste de uma aura de interesse, marcada pela busca de um status social diferenciado. Em contrapartida, Charles, o marido, reconhece, ao longo do romance, sua falência como tal, enquanto instrumento de realização marital dos desejos de ascensão social de Ema. Ela ama sua mulher, mas não perde de vista seu perfil estreito de médico de província, o que lhe impõe e à mulher, uma série de limitações absolutamente frustrantes para ambos. Dadas essas condições, a punição de Ema – veiculada por um suicídio que nada tem de covarde, mas funciona como admissão do fracasso, no sentido nietzcheano – funciona como sentença social provinciana para o pecado da devassidão. Na esteira da luxúria, Ema perde o controle da situação e se deixa arrastar numa enxurrada de “crimes” que não podiam ficar impunes: o moralismo provinciano da burguesia do campo não o permite. Neste sentido, o suicídio alegoriza dupla punição: a do adultério e a auto exterminação em si mesma. Um pecado moral, outro religioso. Anos depois, uma amiga questionou o approach que proponho, mas falo disso depois, quando publicar a terceira parte!

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