Domingueira

Não gosto mais de ver jogo de voleibol pela televisão, sobretudo se for “na globo”. Primeiro, porque os jogadores, em lugar de vibrar com os pontos que fazem, reagem como vikings raivosos em um ataque de pilhagem, em lugar de expressar alegria. Isso, mais no masculino que no feminino. Neste, a empáfia (sobretudo das jogadoras do Sesc-Rio) e os olhares de desdém e “a pose” das garotas do citado eixo… um nojo. Segundo, porque os narradores “da globo”, inclusive o chatíssimo comentarista (ex-jogador), narram como se fossem chefes de torcida organizada de times paulistas e ou cariocas. Percebo isso, não apenas em relação aos times mineiros, mas em relação a qualquer outro time que não seja oriundo do “eixo” rio-são Paulo, assim mesmo, em minúsculas, como expressão do meu desprezo por atitudes como esta… reprováveis. Já foi o tempo em que o prazer de ver dois times jogarem era possível… uma pena!

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O que é que um livro e um filme têm comum? Ou, antes, é necessário que um filme e um livro tenham, necessariamente, algo em comum? O livro é um romance de Mário Cláudio, Peregrinação de Barnabé das Índias; o filme é Wilde. Na verdade, para não deixar de ser absolutamente sincero, era outro filme, mas já não me lembro de qual foi que vi recentemente (deve ser grande coisa não, senão teria me lembrado…). Na preguiça, vai esse mesmo. O filme narra, obviamente, um trecho da vida de Oscar Wilde. Fiquei pensando, durante e após o filme, que sacanagem fizeram om o gajo inglês. Um homem inteligente, sensível, correto moralmente e absolutamente dedicado “às coisas do espírito”, um esteta, na acepção mais estrita do termo – pelo menos, é esta a imagem que dele tenho; como sempre, para tudo, há sempre controvérsias… Pois bem, o danado foi se envolver com uma figurinha execrável, filho de um homem mais execrável ainda e, na aparente ingenuidade que conduziu seus atos e pensamentos, se vê envolvido num processo judicial que o leva ao cárcere onde murcha, seca, definha. Uma punição nada exemplar. Como os dois outros envolvido, igualmente execrável. Os atores – Jude Law (Lord Alfred Douglas), com aqueles olhos e lábios de dar medo de tão bonitos, e Stephen Fry (Oscar Wilde), com seu indefectível e charmoso nariz torto – desempenham galhardamente seus papéis, dando mais consistência ainda às personagens do drama que convence. Como não conheço detalhes da biografia do escritor inglês e da história que o envolveu no citado processo, não posso dizer da veracidade, da verossimilhança, da verdade do relato. Ao fim e ao cabo, gostei e recomendo – até parece que minha recomendação conta alguma coisa…

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Quanto ao livro, a história é outra. Conheço a obra deste escritor português já faz algum tempo. Já dele li alguns de seus livros e, confesso, gostei de todos, até gora. Dois deles me incomodam, no melhor dos sentidos: Guilhermina (1986) e Amadeo (1984). Isso porque são livros densos, apesar de pouco volumosos e que inauguram, no curso de minha leitura das obras de Mário Cláudio, o tipo de narrativa que faz dele um escritor sui generis. A ideia não é minha. Ele faz uma ficção que pretende, entre outras coisas (óbvio!) preencher as lacunas que a biografia de seus protagonistas legou para a posteridade. Assim é no caso destes dois títulos em que protagonizam o relato a musicista Guilhermina Suggia e o pintor Amadeo de Souza Cardoso. No caso da Peregrinação…, a História de Portugal, no capítulo referente às navegações, é revisitada. Uma saga, perspectivada na figura desse Barnabé. Lembrei-me, durante a leitura, da figura folclórica (brasileira) do barnabé, vinculada ao certo tipo social que quase nada faz, que tende a ser pobre, mas tende também a conseguir superar os obstáculos de maneira muito peculiar. O funcionário público “típico”, esse folclore. Essa figura se confunde, na minha memória de leitura, com a do judeu que protagoniza a narrativa de Mário Cláudio. Uma saga entre divertida e trágica que, nesse caso, apresenta a figura de navegadores portugueses “de renome”, associados a esse ínfimo e quase insignificante barnabé, chamado Barnabé. Em outras línguas, essa blague talvez não funcione… Uma das principais viagens dos portugueses é recontada, tendo como ponto de fuga, ou eixo de orientação – o leitor é livre para escolher – a figura de Barnabé, suas vicissitudes, seus périplos e seu desempenho no correr da narrativa caudalosa de Mário Cláudio: capítulos sólidos, períodos entre curtos e longos, mancha tipográfica densa, tal como a História a que se vincula a ficção. É outro livro que vale muito a pena ler…

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Um comentário sobre “Domingueira

  1. Bem, de futebol não gosto muito e concordo com você: no passado até assistia uma partida ou outra. Dava gosto. O filme fiquei com muita vontade de ver, admiro Oscar Wilde. O livro? Tem em torno de 500 páginas? Se tiver, você me empresta daqui a um tempinho. Ainda estou lendo os outros. Obrigada pelas resenhas. Beijinho.

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