Assim é se lhe parece

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Que Garcia de Resende é importante para o período inicial da História da Literatura Portuguesa é fato que interessa aos interessados. Seu trabalho de recolha e organização da produção poética peninsular no Cancioneiro Geral, trazido a lume em 1516, é primoroso, digno de nota e um documento inconteste do “estado da arte” àquela altura do tempo. Ocorre que a História de Portugal continuava seu périplo pelo tempo e disso davam conta os cronistas – entre eles Fernão Lopes – que diuturnamente registravam as efemérides, seus protagonistas, ajuntadas as considerações e interpretações, bem como o invólucro narrativo de que se serviam para deixar gravados os anais de uma História que ainda daria muito o que falar. Neste périplo, um rei, chamado Afonso, pai de Pedro, que viria a ser seu sucessor (como soía acontecer então), manda matar Inês, dama de companhia da esposa de Pedro. Acontece que Inês tivera filhos com Pedro, numa relação condenada sob a chancela do adultério o que, para além do “pecado” poderia significar o aprofundamento de uma crise – eufemismo para guerra – com Castela. Dizem as más (e as boas também claro!) línguas, que o sangue de Inês ainda está incrustrado nas pedras da fonte que ainda corre no ainda bucólico paço, hoje transformado em jardim de um hotel, o Solar das Lágrimas, à margem do Mondego, na, igualmente bucólica, cidade de Coimbra. Vale a pena o passeio. Claro está que o tal sangue não existe, mas a mineralogia explica com clareza os laivos de vermelho que marcam algumas pedras que servem de leito à fonte “das lágrimas”, num dos recantos do terreno do “solar” onde um dia fora edificado um paço real. Tudo isso para falar de um “mito”. Mito este que nasce de um fato: o assassinato de Inês de Castro. A crônica de Fernão Lopes, que se acerca da figura de D. Afonso (se não me engano, o quarto – corrijam-me se me equivoco, por favor! A preguiça me impede de folhear o livro que pode sanar esta dúvida…), dá conta de registrar o fato. Mas cabe ao poeta dos poetas, Camões, o fausto e a solenidade de, epicamemte, narrar o mesmo fato, de natureza lírico-trágica. Os versos magistrais celebram o amor destroçado de Pedro e Inês, dando voz à protagonista que pede pela misericórdia real e encontra o fio da espada dos algozes enfurecidos. Muito poderia ser dito acerca dos conflitos impetrados pela maledicência alheia, pelo ciúme, pelo rancor e/ou pela simples desconfiança daqueles que instigaram o rei, pai do amante da condenada, a executar tal atrocidade. Será que lhe faltaram motivos? Será que não poderia ter salvo Inês da morte, condenando-a a punição perene que satisfizesse a sede de sangue dos vociferantes algozes? Qual nada! O rei até titubeia, mas executa a sentença. Ou melhor, manda executar. Está aí em fartas estrofes de oito versos o relato do fato (com a devida vênia, ui!, pela rima soante involuntária). A coisa muda um pouco de figura na pena de Garcia de Resende. Mesmo sem ser um “poeta” ipso facto, o autor escreve seus versos e a um conjunto deles dá o nome de Trovas à morte de Inês de Castro. São 22 estrofes de dez versos cada. Cada verso tem 7 sílabas, que se expressam no esquema rimático ABAACDDEED. A regularidade métrica e rímica é, até prova em contrário, constante. Pois bem, apenas estes detalhes, aqui, servem de respaldo para anotar a incoerência do título dado ao conjunto de estrofes e o conceito tradicional de trova. Mas isso, aqui, repito, são firulas. O que importa é que Garcia de Resende, além de compilados do referido Cancioneiro, homenageia a seu modo a mesma protagonista trágica, Inês de Castro. O que chama a atenção – e este mesmo aspecto orientou meus comentários durante a aula de hoje pela manhã – é o fato de que o autor procede a uma inusitada manobra (o adjetivo está aqui circunscrito aos contexto da época da escrita do poema): mudar a perspectiva do discurso, colorindo seus versos com tintas épicas, mesmo que o conjunto não constitua uma epopeia. Explico. A primeira estrofe é da “voz poética” que a partir da segunda até a vigésima segunda deixa espaço para a fala da protagonista do “drama”: Inês. Esta, por sua vez, abre espaço para a manifestação de um dos algozes que apela para o poder real que pode vir a ser desacreditado se tiver piedade, como lhe pede Inês. Isto se dá na altura das estrofes 17 a 19. Em seguida, na estrofe 21, há a intromissão real que de desfaz da responsabilidade do assassinato, deixando para os algozes a decisão de o fazer. Tais procedimentos, a meu ver, inauguram certa ousadia na poética portuguesa de então, pois que, não sendo o poema uma epopeia, toma desta o tom narrativo na voz de três “personagens” – Inês, o algoz e o rei – para desvelar o desfecho que, paradoxalmente, é narrado pela própria Inês. O final, na última estrofe, levou-me a pensar no Brás Cubas, defunto autor que, depois de ter lugar na terra dos pés juntos, narra sua própria história como se vivo fosse, se vivo estivesse, com a “tinta da galhofa” Não sei se é esta mesmo a citação literal!). De uma forma ou de outra, o conjunto de estrofes de Garcia de Resende colaboram, se não fundamentam, a passagem do fato histórico ao panteão dos mitos. Neste caso, mito que se espraia pela Literatura Portuguesa a partir de então, encontrando sua culminância durante a vigência estética do Romantismo. E não apenas em Portugal. Aulas como esta ainda fazem pensar que alguma coisa vale a pena…

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