Das chatices de quem lê

Suicídio. Palavrinha triste, pesada. Tão pequena e tão grave. No dicionário quer dizer ato ou efeito de suicidar-se. Em sentido figurado, ainda no dicionário, quer dizer desgraça ou ruína causada por ação do próprio indivíduo, ou por falta de discernimento, de previdência etc. No Brasil, há certo regionalismo que usa esta palavra, em sinuca e jogos afins, significando ato de o jogador encaçapar involuntariamente a bola branca. O cenário chega a beirar o engraçado, no regionalismo, mas em suas variações semântico-discursivas, o termo é triste, aperta o peito, estica o cérebro, faz pensar. O suicida não resolve um problema, ao contrário, deixa uma série de outros problemas para quem fica: por quê? Como? Com que objetivo? Deixou uma nota? Tinha antecedentes? As especulações podem chegar à fímbria do infinito. A razão do ato atinge o cerne do imponderável, ainda que certas abordagens psicanalíticas e/ou filosóficas tentem encontrar-lhe coerência e justificativa, portanto, explicação plausível. Num ou noutro caso, a investigação, notoriamente de caráter policial, tenta desvenda esse mistério, porque é sempre um mistério, ainda que encontre respaldo em explicação aceitável.  Nesta onda de investigação, lembro-me agora de um romance fabuloso da Literatura Brasileira: Agosto. Em três planos narrativos muito bem delineados – os detalhes gráficos no/do texto de Rubem Fonseca não deixam dúvidas – o romance especula, pelo olhar do detetive clássico, a morte de um empresário milionário em Ipanema e vai costurando detalhes, emendando episódios, forrando tudo com o pano da História – os vinte cinco últimos dias de vida de Getúlio Vargas são o pano de fundo do enredo. A coincidência não é gratuita, nem fortuita, é construída. E a pena melancólica de um detetive dividido entre dois amores afastados pela sanha do tempo, invisivelmente, vai contando a história que caba por não desvendar de maneira clara as intuições detetivescas. Para o leitor resta – e não é pouco! – o prazer de percorrer as linhas de um romance soberbo que, ele sim, merece o epíteto de representante da narrativa policialesca ou, popularmente, do romance policial, no que esta tem de mais tradicional. O verde-amarelo da linguagem de Rubem Fonseca celebram uma brasilidade que, por vezes, vem à tona de maneira pujante. Falei, falei, falei, mas não disse, ainda, a que vim. O pretexto do verbete “suicídio” cedeu espaço para os comentários breves de um romance que marcou época e tem lugar garantido na série historiográfica da Literatura Brasileira. No entanto, não é esta minha motivação. Aqui e agora, quero falar de outro romance, recentemente lançado, que acabei de ler na semana passada, entre satisfeito e decepcionado. A intuição me dizia que eu iria chegar a este estado de coisas. Insisti, Li o romance. Constatei a matéria da intuição, mas não me arrependo. Até com os dissabores – ou, talvez, mas com eles 0 se aprende imenso! O que me traz aqui hoje é a leitura de Suicidas, romance de um tal de Raphael Montes. Comprei dele os livros já publicados, por conta de uma resenha que me instigou a fazê-lo. A resenha foi publicada numa das recentes edições do jornal Rascunho, de leitura imprescindível, pelo interesse que desperta. O livro é um romance policial que, ao contrário do que é incensado pelas críticas e resenhas que li, se desenvolve de maneira (até) interessante, mas, foro íntimo, penso que não passa disso, um romance policial. Punto i basta! Na página da Companhia das Letras, editora que o publica, o romance é anunciado como “O primeiro romance do jovem autor que se firmou como principal nome do novo suspense brasileiro.” Fazendo como Jack, o estripador: vamos por partes. Quanto ao “jovem”, nada de novo no front, o rapaz é mesmo jovem e andou ganhando prêmio(s) literário(s) Brasil afora. Não sei, de fato, se é cria de uma das inúmeras “oficinas de criação literária” que pipocam como “maria sem vergonha” (aquela erva daninha que aparece de repente e se alastra rapidamente) no rincão nacional. Isso é um detalhe. Mas o rapaz é, mesmo, jovem. Em sendo jovem, minha chatice se alerta com o verbo que a ele se refere nesta “chamada”: o verbo “firmar”. O uso do pretérito perfeito do indicativo leva o leitor letrado a perceber – principalmente se ele é chato como eu – certa dose de contradição. Como, em sendo jovem, já se firmou? Guardadas as devidas proporções, há de se levar um tempo até eu uma obra se “firme” no cenário literário de qualquer nacionalidade. Exceções existem, obviamente. Há, de quando em vez, a epifania da genialidade, raríssima, que faz com que tal contradição desapareça. Não é o caso. “Novo suspense brasileiro”. Sim. É assim mesmo que a chamada da editora se refere ao rapaz que escreveu o romance policial. Novo por quê? O que há de novo nele? A aproximação com Rubem Fonseca, além de plausível, instigante, marca, demarca e confirma a superioridade de Rubem Fonseca, sem a menor sombra de dúvida. E não se trata, aqui, de mera opinião, ou gosto pessoal. Basta ler os dois livros para chegar a esta conclusão. A não ser que a editora considere que colocar uma carta assinada pelo autor do romance, confessando ter usado pseudônimo para poder ter mais liberdade de escrever o que veio a ser a matéria do romance que se acabou de ler, seja uma atitude inovadora para a narrativa policialesca verde-amarela. Também não é o caso, penso eu. Quando muito, o esquema revela certa dose de curiosidade pelo inesperado que nem é tanto assim: há índices disso que escorrem da narrativa como água dos dedos. Pois bem. Penso e repito que a apresentação do autor na página da editora que o publica é exagerada. O romance de Raphael Montes é, sim, um ensaio de thriller policial. Uso o termo em língua inglesa não como homenagem ou hiper valorização do trabalho do jovem escritor, mas para chamar a atenção para o fato de que o clima de suspense existe e se mantém, no entanto, o enredo é quase óbvio. Uma possibilidade de tentar reverter esse quadro é a percepção da “divisão” dos planos narrativos do romance entre três estamentos: a conversa de um dos investigadores com as mães das vítimas da história, o texto escrito por Alexandre (em itálico) que narra o “presente” da história narrada e o terceiro bloco – sempre identificado por “observações”, complementada por dados processuais da investigação policial – que relata o “tempo” que antecede a história que é narrada, como uma espécie de metatexto. Poderia ser um elemento de engrandecimento do romance. Não é o caso, ainda uma vez. Rubem Fonseca já o fez e com mais propriedade. Blagueando um blogger popular por aqui, André Moscoso, “esta é apenas a minha opinião”. Reproduzo aqui a nota de apresentação do romance:

“Antes que o mundo pudesse sonhar com o terrível jogo da baleia azul, que leva jovens a tirar a própria vida, ou que a série de televisão Thirteen Reasons Why fosse lançada e se tornasse o sucesso que é hoje, Raphael Montes, então com 22 anos, já tratava do tema do suicídio entre jovens com a ousadia que virou sua marca registrada. Em seu primeiro livro, que a Companhia das Letras agora relança acrescido de um novo capítulo, conhecemos a história de Alê e seus colegas, jovens da elite carioca encontrados mortos no porão do sítio de um deles em condições misteriosas que indicam que os nove amigos participaram de um perigoso e fatídico jogo de roleta russa. Aos que ficaram, resta tentar descobrir o que teria levado aqueles adolescentes, aparentemente felizes e privilegiados, a tirar a própria vida. Para isso, contamos com os escritos deixados por Alê, um narrador nada confiável.”

O esforço da editora é notável. Chega a ser tocante suat entativa de sobrevalorizar um romance que, em tudo e por tudo, não consegue ultrapassar o limite do legível, do comum. Sinceramente, não vi NADA de excepcional no romance. Restam ainda outros volumes dele para ler: Jantar secreto (2016), O vilarejo (2015) e Dias perfeitos (2014). Todos (evidentemente!) publicados pela Companhia das Letras. Será que esse “prestígio” é chancela suficiente para o “valor” de uma obra? Há controvérsias… Aos que lerem, fica o cite para um papo, nem que seja virtual…

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