Três livros e três mulheres: Luíza

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Ou seria Luísa? A seguir os parâmetros da Língua Portuguesa falada na península, bem que poderia ser com “s” e não com “z”. Firulas… Desta vez, o romance vai para Portugal, contemplar o mar com os pés na terra, a sonhar, delirar, imaginar e perceber, como Eça o autor. De começo, faço referência um sujeito que já admirei, mas continuo a reputar como merecedor do respeito e da admiração que a ele se dedica. Silviano Santiago. Ele é autor de um artigo sobre Gustave Flaubert e Eça de Queiroz: “Eça, autor de Ema Bovary”. Numa “mistura” muito bem dosada de crítica e ironia, o crítico fala das tramas que envolvem os dois romances, numa perspectiva (inusitada quando do aparecimento do artigo) de leitura do livro de Machado de Assis: Dom casmurro. Para a Literatura Comparada, nada mais natural, plausível e relevante. A aproximação se faz de maneira a instigar a leitura do romance do autor brasileiro, sem deixar de demarcar as fronteiras que este partilha com seus congêneres francês e lusitano. Hoje, na segunda etapa, o romance de Eça comparece com sua “contribuição” para o trajeto da ideia de punição que proponho na leitura comparativa dos romances.

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Num segundo momento, temos o casal formado por Luisa e Jorge, igualmente provincianos, mas de um provincianismo citadino, urbano – como requer o código da modernidade. Luisa também é leitora dos românticos franceses, mas ao contrário de Ema, não se sente atraída por mais nada além do que já possui: boa casa em Lisboa, empregados, um marido dedicado e todos os confortos que o modelo burguês poderia oferecer. Seu paraíso começa a ser ameaçado com a volta de um primo, amor antigo, atropelado pelo casamento apaixonado. O contrato burguês aqui se localiza na cidade, como já se disse. Há de se insistir que um certo provincianismo pode ser detectado nesse quadro narrativo, mas um provincianismo dirigido à situação de Lisboa no contexto europeu “fin-de-siècle”. Jorge é o protótipo do macho bem sucedido, para a época. O detalhe que chama a atenção no aparente equilíbrio da cena de fundo é o fato de que a célula dramática do romance é espelhada no texto do próprio romance. Na mise-en-abyme realizada pelo narrador, Emestinho, uma personagem, escreve uma peça cujo fim é vivenciado pelo casal de protagonistas. O marido é traído e deve decidir sobre o destino da mulher adúltera. Coincidentemente, ela morre, mas não por meio da febre que vitima Luisa. Esse espelhamento em profundidade pode remeter à narrativa de Flaubert, recuperada pela dicção narrativa de Eça de Queirós que, por meio de insistentes comparações da vida lisboeta com a mundanidade parisiense, acaba por reduplicar a situação de insatisfação vivida por Ema e sua punição que, no caso de Luisa, é revestida de uma erudição atávica no perfil culto-intelectual dos portugueses. Em outras palavras, a morte de Luisa remonta à punição medieval das mulheres tomada pelo demônio. Os jesuítas, mestres na arte de “arrancar” confissões de obsessão de homens e mulheres têm uma participação mais que profunda na formação do caráter religioso dos portugueses. Essa marca se deixa transparecer quando Luíza tem a cabeça raspada Esse elemento dramático pode ser associado ao ritual inquisitorial, já referido, o que, por sua vez, na economia do romance de Eça acaba por explicitar urna faceta da religiosidade – marca indiscutível da identidade cultural portuguesa.

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