Três livros e três mulheres: Capitu

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Agora é a vez de Machado de Assis. O que escrevo sobre o romance dele que aqui me interessa – Dom Casmurro – vai ao encontro das ideias de Silviano Santiago a que me referi ontem. Claro está que não vou me pautar por uma abordagem aproximativa entre textos ficcional e texto crítico. Longe disso. Anoto, aqui, apenas, algumas observações ligeiras, a partir da leitura mais acurada que fiz quando da escrita do meu artigo. De qualquer forma, faço outra referência de cunho teórico e/ou metodológico. Desta feira, não a um texto em particular, mas a uma ideia. Em tese de doutoramento em Literatura Comparada defendida por Eni de Paiva Celidonio, em Porto Alegre, em 2006, a autora insinua certo equívoco de Alfredo Bosi, quando afirma que Capitu recebeu o ratamento que lhe era devido como mulher burguesa no fim do século dezenove. O equívoco é explícito e não cabe aqui averiguar sua relevância, em que pese o deslize do crítico e historiador. Esse tipo de firula já não me apetece mais… O que desejo ressaltar é que, em nada e por nada, pode-se afirmar tal coisa por um motivo simples: no romance, o narrador nos conta que jamais respondeu às cartas que Capitu lhe escrevera e, quando da visita de seu filho, a indiferença – para não dizer sarcasmo e desdém -fizeram com que declinasse do direito de saber o que quer que seja sobre a ex-mulher. Este detalhe, a meu ver, se aproxima da visada que desenvolvo em artigo meu já referido. A hipótese da “punição”, neste caso, faz mais sentido. Diro isto, não me demoro, deixo para as retinas que me acompanharam até aqui a decisão de seguir acompanhando com a terceira parte do meu “relato”.

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Fiquemos, agora, com algumas considerações acerca do romance de Machado de Assis. De maneira diferente, em relação às duas protagonistas já citadas, Capitu tem uma personalidade forte. Moça decidida, resolve todas as situações com um senso de objetividade e equilíbrio, que superam o próprio Bentinho, personagem fraca e indecisa, apesar de nomear a narrativa, fato que o faz coincidir com Basílio, o vértice do triângulo de adultério estabelecido no romance português. Bentinho, como já se disse, é fraco e seu espírito frequentemente assaltado por dúvidas e inseguranças. Talvez seja resultado da força impositiva da mãe, substituída depois pela objetividade de Capitu. No fim de sua trajetória narrativa, Bentinho é um homem atormentado por um ciúme doentio, um pouco fruto de sua imaginação, associada à insegurança que lhe marca a personalidade. Suas fantasia são comuns quando se pensa no perfil do homem burguês – na perspectiva de Peter Gay que coloca no homem um temor desmedido pelo “sexo misterioso” da mulher, o que acaba por refletir uma insegurança em relação à possibilidade de perda de seu lugar na hierarquia social da burguesia fin-de-siècle. Ainda sobre Dom casmurro, é necessário que se diga que os nomes das personagens são significantes mais que sintomáticos das situações aqui referidas. A mãe de Bentinho se chama Glória; Capitu, na verdade, se chama Capitolina, o que remete o significado de seu nome para o campo semântico da superioridade que marca sua personalidade. Bentinho, ele mesmo, tem no nome um diminutivo ambíguo, ao mesmo tempo carinhoso e depreciativo.

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3 comentários sobre “Três livros e três mulheres: Capitu

    1. Penso que, ao contrário, a Literatura Comparada colabora na agilização de encurtamento de distâncias que, por vezes equivocadamente, nos tiram a justeza da leitura. É sempre uma possibilidade a mais, sempre!

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