Uma carta

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Ah… o desejo. Sobretudo aquele que não tem nome. Aquele que ataca, se faz presente, obseda, mas não se apresenta, não tem identidade. O desejo, inominável. O desejo enreda, consome, anuvia. O desejo move, se move e remove. O quê? Não há como saber. É assim, o desejo. Em sua multiforme, atira no que vê e acerta no que não vê, ou seria o contrário? Por ali e por aqui, alhures, na terceira margem do rio… Um rio que corre sem margens. Mas corre. Guimarães Rosa diz presente e eu cito alguém que não conheço, por tabela, citando trechos de Guimarães Rosa que são citados por esse alguém que não conheço. “E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei – daí então acreditei […] Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim- que não era de verdade. Não era […] Diadorim deixou de ser nome, virou sentimento meu. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia.” Uma carta. Uma carta de amor. Todas cartão de amor são ridículas. É isso mesmo o que diz o poeta, pois não? Como eu disse, não conheço o citador, mas conheço o texto do citado. E penso: fala o desejo. E como reagir. Talvez, como o autor da carta que segue abaixo (omito remetente e destinatário por uma questão de respeito). Não pedi permissão para publicar a carta, por isso o anonimato. Só vai saber quem é, quem for… se chegar a ler o que aqui escrevo, apropriando-me de sua carta. Como vente. Uma palavra que pode identificar esta carta e sua motivação. Contundente, em sua assertiva. Tocante, em sua inspiração. Direta e instigante: o texto se enreda, como música, em versos que são cosidos (sim, assim mesmo, com “s”, basta ir ao dicionário pra saber o porquê) em linha quebrada, na busca de expressão para sentimentos entrecortados por experiência contrária. Uma experiência. Um troca impossibilitada. Um lamento. Uma certeza. Um de cada um… Tudo em letras de música “cosida” e, tateante, constrói uma das facetas do desejo, um de seus filhos ou uma de suas filhas. Vai depender dos envolvidos na teia desse bicho danado, o desejo. Segue a carta. Copiada aqui literalmente, sem tirar nem pôs nada!

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Minha cabeça ficou louca, você me bagunçou, pirei, mas nossa história poderia ter os diálogos do filme “Bonequinha de Luxo”, só que escrita por Almodóvar. Mas, meu caro, meu quarto não é como a Tiffany & Co., onde você finge estar dentro da loja tomando seu café da manhã para confortar seu ego, acreditando ser um lugar mais confortável, talvez você não tenha um gato sem nome e não vamos ter o mesmo final… nessa novela não quero ser só teu amigo, te ganho ou te perco sem engano.

Vamos deixando o futuro, vamos fingindo que não há. Por enquanto, enquanto essa noite mais uma vez se arrasta, Nossa Senhora do Silêncio pinta as águas do mar, não a vemos (mais uma vez), mas ela estava ali, lua cheia dos amantes vazios, até ela, que segredos eu contava já se cansou. O que vejo é somente as paredes brancas do meu quarto, e nessa mesma noite seus olhos veem outra pessoa que adormece, você ao deitar abraça-a. Enquanto beija o seu porto seguro eu adormeço entre os braços do incauto. Você o deseja boa noite; não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada.

Esse jogo perigoso que pratico busca o limite da aceitação – exaure todas as minhas verdades, fazendo a pó todo plano que nunca tive, mas que de maneira infortuna quero ter; sonhos, desejos, vontades… tudo isso são desfigurados pela incerteza da hora que vou te ver novamente. As farpas do incerto me cravam, rasgam e sangram, mas basta ver o desejo do teu olhar assustado e vagueiro, teu sorriso de menino levado, ouvir sua voz me dizendo qualquer besteira para tentar mudar de assunto, que esqueço de mim e acredito mais uma vez neste amor marginal. A linha tênue da aceitação dilacera meu nome; sou o outro, o vulgar, o sem lar, sou aquele. Enquanto você é o trouble, o que me diz You Know I’m No Good, porém é aquele que me bagunçou, sim eu deixei, zerou!

Você que é essa pedra em meu caminho, vivendo a fugir, inventando qualquer desculpa, uma mentira e assim se fazendo minha verdade, numa tarde quente quando sobre as escadas; me beijando quando não somos mais vistos e se deitando em minha cama após um copo de água gelada. E depois esse amor proibido de minutos contados, mais uma vez bato o portão, me deito e me vejo na solidão, dessabor do falso me toma, arranhado por mais mentiras que pronuncia tão mal. Boca que treme por me conter para não te chamar de amor, olhos saltam à paixão, mãos que queimam ao te tocar, eu quero você agora, não dá mais para segurar, é notório. Toda desculpa se torna esfarrapada. E quanto mais eu me entregava, mais nascia o meu desejo, mais sobrava só o desejo, e mais eu te queria sem palavras, sem pensamentos

Minha ingenuidade me cegou, me enganou. Obtuso me tornei por acreditar que lhe oferecer meu pouco seria o suficiente; que lhe importava ter de volta sua liberdade, teu sorriso e tua vida. Mas tudo que puder oferecer foi dado de boa fé e verdade, talvez possa continuar a desfrutar, pelo menos creio que o aprendizado ficou. Pode me dar o meu prazer, mas vi que com amor é mais caro. Ou, talvez, temos relação e perspectiva diferente sobre valores, pois realmente para mim era muito. Ou, talvez, tenha esperado demais, querer receber algo que nunca será foi capaz de dar, afinal damos o que temos e um relacionamento verdadeiro, de entregas e compartilhamentos nunca lhe foi ofertado, até o momento. Deve ser triste viver onde a exploração é a elo, o medo é a sustentação e o falso o sopro vital, mas suas atitudes te direcionam para o acômodo, para o querer pelo corrupto e pelo que não há hombridade, para o repouso maçador, à pratica do sádico. Um espaço ótimo para sua boca de cena, ali o público aplaude sua interpretação torta de Diadorim, que nasceu para muito amar sem gozo de amor, a mim, só me resta o papel de Dorotéia afogada, e no fim minhas lágrimas secam sozinhas

Sempre fui um sujeito forte, autossuficiente e independente. Sabe, nunca dependi de ninguém – filho da rua, meio sem lar, aprendi a me criar sozinho e tudo isso me fez homem que não sabe não ser, um menino encantado com armadura feito do ouro de Oxum, só me dou por paixão, nasci com esse defeito. De alguma forma você tem um poder de kryptonita sobre mim, ao ponto de não conseguir dizer não quero mais olhando nos seus olhos, a carne fraqueja, as palavras não saem. Você é meu harakiri. Amigo, não duvide da capacidade de um filho de Logun Edé, sagitariano, regido pelo Odú 8, guardado por São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora Aparecida, quando desejo faço subir marés sortilégios, quando desconfio desconfiguro dunas de desencantos, não zombe da minha inteligência. O coração é doce, mas não idiota!

Não há saudade nem mágoas. Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar, e não me volte a cara quando passar por mim. Nem tenha de mim uma recordação que entre o rancor. Fiquemos um perante o outro como conhecidos desde a infância, que se amaram por quando meninos, embora na vida adulta sigam outras afeições. Conservam nos caminhos da alma a memória de seu amor antigo e inútil.

Talvez esteja me achando infantil por não ter conseguido falar tudo que te escrevi, contudo essa foi mais uma forma de cuidado, procurando a sinceridade de veras palavras. Mas nesse momento recolho meus brinquedos e não quero mais brincar, é sério ser o seu brinquedo. Saber a hora de parar é uma das coisas mais adultas que a vida me ensinou.

Se levante e saia, leve contigo suas mentiras, medos e incertezas. Me deixe com nossas lembranças, nossas músicas que futuramente voltarei a escutar, e quando as lagrimas secarem vou cantá-las sejam onde for. Não há mais o que fazer, amor esse que foi devagar e urgente não me alimenta mais.  Não lhe cabe a preocupação, preocupação é dadiva dos que amam e de quem pode cuidar, isso não lhe é permitido, você não se permitiu. Vá, que por aqui, ficarei bem, sempre fico…

Por que no primeiro momento da leitura dessa carta não se levantou? Mesmo que sem pensar, era medo de eu não ir te buscar? E não iria, não posso ir atrás de alguém em um momento de confusão. Você quis ficar; sabendo que tudo que me trouxe de ruim o pior seria ficar sem você. E o que você fez? Ficou, voltou, se foi novamente… Em meios a propostas absurdas e mais mentiras me feriu outra vez, se atente: não estou para seu bel prazer, você me procura para preencher a sua necessidade e no vazio me deixa. Sabendo que podia ter tudo que te falta, preferiu o conforto de relacionamento assolado, mundano e espúrio – este que te desgasta, te limita, humilha e te fere, esse que em meu peito vem afagar. Não consigo compreender, está fora da minha capacidade, não importa o que me diga. No fim, me pergunto, “O que sou para você?”, e não consigo encontrar respostas, há momentos que acredito, há reconhecimento de verdades e afetos, reconheço que de tão verdade acredito, porém tudo vem a desabar, e quando o coração aceita, psicológico pira, não sei mesmo!

Enquanto o medo de voltar ao passado preenche sua cabeça, cegamente fica, não enxerga o que te ofereço. Vem me dê a mão, a gente agora já não tinha medo. [E] se te interessa o inverso do que tem, estou aqui, não faz parte de mim proporcionar vivências de dominação e trevas, só tenho a ofertar sorrisos bobos quando te vejo, brigas idiotas por não ter vindo me ver, pensamentos vagarosos em tardes de domingo, café da manhã com pão de queijo na segunda, a espera na semana para te ver sorrindo, para te ver cantando, abraços apertados em louvação ao sucesso, um afago quando algo não der certo, canções desafinas embalando olhares desconcertados, dancinhas ridículas para abrir seu sorriso, um corpo quente sobre o seu, um chão para amor urgente, mordidas que não precisam ser escondidas, felicidade em horinhas de descuido, um amor que gera um pouquinho de saúde, um descanso na loucura, grandes cartas cheias de bobagens que talvez nunca serão lindas…

Não me diga que eu amo a mim mais do que amo você, meu bem. Mas de fato as paixões são para si mesmo, não são para mais ninguém. O que não quer dizer, porém, que sozinho eu possa ser feliz… Pois então decore esse texto sob o pretexto de não parecer um ator. Na verdade, eu acho que amo você melhor que você mesmo. Eu fumo um cigarro, eu bato um carro, eu espero que você veja que eu não posso viver sob a mira eterna desses dois olhos frios. Olha o tempo passando, e a gente parado fazendo cena para o público rir. As paixões, meu amor, são tontas, são tantas. Chegou a conta, esteja pronto, aquele ponto em que tudo muda, não quero ser o último a chorar.

Eu sei que atrás deste universo de aparências, das diferenças todas, a esperança é preservada. Nas xícaras sujas de ontem o café de cada manhã é servido. Mas existe uma palavra que não suporto ouvir e dela não me conformo, eu acredito em tudo, mas eu quero você agora. Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes, pelas tuas loucuras todas, minha vida. Eu amo as tuas mãos, mesmo que por causa delas eu não saiba o que fazer das minhas. Amo teu jogo triste, as tuas roupas sujas é aqui em casa que eu lavo. Eu amo a tua alegria, mesmo fora de si, eu te amo pela tua essência, até pelo que você poderia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse te banhado nas águas do equívoco. Eu te amo nas horas infernais e na vida sem tempo, quando sozinho bordo mais uma toalha de fim de semana. Eu te amo pelas crianças e futuras rugas. Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas e pelos teus sonhos. Amo teu sistema de vida e morte. Eu te amo pelo que se repete e que nunca é igual. Eu te amo pelas tuas entradas, saídas e bandeiras. Eu te amo desde os teus pés até o que te escapa. Eu te amo de alma para alma. E mais que as palavras, ainda que seja através delas que eu me defenda, quando digo que te amo mais que o silêncio dos momentos difíceis, quando o próprio amor vacila.

Odeio o modo como fala comigo. Odeio quando finge que está com raiva só para me ouvir a te chamar. Odeio o modo que me olha e odeio mais ainda quando vou dizer algo e o brilho dos teus olhos vem me calar. Odeio quando me deixa sem graça e como consegue ler minha mente, eu odeio tanto isso em você que até me sinto doente. Eu odeio quando diz que meu sorriso é lindo e quando me chama de amigo. Odeio o modo que toca o meu rosto e as suas brincadeiras quando falo sério. Odeio mais ainda quando me pede para não ir embora, eu odeio, pois, você sabe que eu não consigo. Eu te odeio pois você nunca disse te amo, mas nunca disse que não! Odeio o modo que sorri, é fascinante, eu fico sem rumo. Eu odeio quando me faz rir muito, mas mais quando me tira do sério. Eu odeio quando não está por perto e o fato de não me ligar. Eu odeio pensar em você o dia todo e não te encontrar. Eu odeio quando você diz que eu não resisto a você. Odeio quando me dá não razão e mais ainda quando me diz que não. Eu odeio essa sua cara lavada. Odeio quando diz que estava com saudades e odeio quando não vem me abraçar. Eu odeio te dar as mãos e ter que soltar.  Eu odeio não poder te ver todos os dias e te querer cada vez mais perto de mim. Mas eu odeio principalmente, não conseguir te odiar. Talvez, às vezes, só um pouco, por um instante, por um segundo. Te amo e te odeio em uma mesma oração!

Minha casa é onde apontam meus pés, ir e voltar tem a mesma facilidade para mim. Só depende de você, me tenha por completo ou me deixe ir, só não me machuque mais. Veja bem, nosso caso é uma porta entre aperta, e eu busquei a palavra mais certa, vê se entende meu grito de alerta.

E só vai saber para que serve o tempo quem se preocupa quando houver saudade, às vezes dói, como dói querer não sentir vontade. Futuramente a gente vai viver nossa eternidade, Nossa vida vai dizer o que mais importa e aí todo mundo vai saber que o amor convém. Deixa à distância e à saudade te mostrar o que realmente te importa, se reconheça e pare com autodesculpas, enganos e mentiras tão clichês que nem você mesmo acredita nelas, são lamaçais. É o fim daquele medo bobo, e por mais que eu te queira agora, respeito o tempo, sei que não é possível, mas quero tentar, tentar acreditar que futuramente seremos tão completos que seremos um, porquê é no futuro que mora nossos medos mais perfeitos e nossas melhores esperanças, não podemos se prender à toa por causa de uma outra pessoa.

Quem de nós dois vai dizer que é impossível? Por fim; você foi…”

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3 respostas para “Uma carta”.

  1. Que alegria seu comentário sobre meu texto, me trouxe uma alegria imensa. Fique a vontade para publicar, para mim é uma honra!

    1. Guilherme, boa noite! Que bom que você gostou. Erisvaldo queria um comentário meu e mandou-me a carta. Gostei tanto que resolvi transformar o comentário em postagem do blogue. Seja bem vindo! Obrigado! Abraço

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