Memória afetiva… e mais

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Meu pai foi prefeito da cidade em que hoje eu vivo. Ele administrou o município entre 1977 e 1981. Depois disso, tentou dar continuidade em sua carreira política, mas não deu certo. Ainda como prefeito, eleito pelo MDB (só quem tem mais de 40 anos serão capazes de se lembrar o peso do significado desta sigla naquela altura). Ainda me lembro da carreata que encerrou sua campanha. Um grupo grande de pessoas, quase todos com a camiseta amarela com o número da sigla e o nome dele. O cortejo chegou até a praça da cidade, atrás da matriz de São Gonçalo. Todo mundo entrou no cine teatro que ali havia. Quando meu pai chegou, uma chuva de papel picado, gritaria, foguetório, banda música. Uma balbúrdia. Ainda hoje me escapa o sentido e o efeito disso tudo. Sinceramente, não conseguia alcançar o porquê de tanta euforia e, antes, o propósito, o desejo, o plano de meu pai. Ah… Hoje posso dizer sem culpa, a vaidade humana é como água: vai tomando a forma que o espaço e a circunstância permitem. Com isso, estou longe de criticar a atitude de meu, o fato dele ter se candidatado. Pois foi eleito e, ainda hoje, há gente que fala dele, não sem uma dose de doce e sentida nostalgia. O borracheiro, que hoje atende a mim e a meu irmão, comenta, emocionado, que o imóvel onde funciona sua oficina foi doado pelo prefeito de 1978: meu pai. A gratidão dele é tocante. Lá pelas tantas, já na reta final do mandato, meu pai presidia uma associação de prefeito da área metropolitana de Belo Horizonte, a GRANBEL. O dinheiro andava curto (Parece até que algum dia isso foi novidade). A administração já vislumbrava seu final. A tal associação resolveu atender ao chamado de Golbery do Couto e Silva para uma reunião. Lá se foi meu pai. No retorno: uma polêmica. Todos os prefeitos da GRANBEL conseguiram (milagre!) concluir as obras e os feitos alocados em seus planos de governo, apresentado quatro anos antes. Um fato inédito. Cadê a polêmica? Alguém pergunta. A polêmica reside na mudança de partido de todo o grupo de prefeitos. Mudaram de MDB para PDS. Gritaria, confusão, xingamentos. Por uns bons anos, os jornais vociferavam contra a então mencionada “traição”. O fato remanesce: a administração daquele grupo de prefeitos se CONCLUIU, na acepção, mas plena e acabada do verbo. Punto i basta! Meu pai não ficou rico. Nós não mudamos nosso padrão de vida e, melhor, nossos princípios. As contas foram contestadas por muito tempo e, depois de período esticado à exaustão, foram aprovadas sem emendas, sem processos, sem “operações” de ministério público estadual (Isso sim pode ser considerado um milagre!). E eu ainda me pergunto para quê isso tudo?

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