Contradições voláteis

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Em 2005, Alejandro Almenábar lançava o seu Mar adentro. O rapaz que pula e fratura a coluna ficando tetraplégico e, depois de muitas décadas de uma sobrevivência exitosa, ainda que atroz (o que inferido da narrativa fílmica), resolve que a vida não vale mais a pena (em que pese a decantada recíproca poética do ortônimo). O homem decide que não quer mais viver. Confidencia com quem o cerca, na confiança e no afeto. Confidencia e sua decisão escapa do limite da confiança. A Igreja e o Estado se metem, mostram serviço, impõe seus valores, exigem obediência a seus princípios. Não vou falar como acaba o filme. Não é suspense, mas vale a pena recalcar o impulso do spoiler, investindo na sedução do convite. O filme tem NADA de piegas. A narrativa é uma faca de fio aguçado que vai penetrando, lenta e desconfortavelmente, na alma de quem a segue. A poesia das imagens comungam em espírito e ideia ao texto que relata o debate implícito, no auge de um absurdo (para alguns) que pode beirar a loucura. Claro está que existe quem, na economia do filme, veja como louvável a tentativa de manter a vida. Mas há controvérsias.

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A partir disso, fico pensando numa blague nada engraçada com um clássico do cinema – What ever happened to baby Jane (Robert Aldrich, 1962) – o que terá acontecido com Michael Schumacher? A falta de “graça” se deve ao fato de que no caso do filme, o tormento a que é submetido uma das personagens revela a alta tensão dramática da narrativa que contrapõe dois ícones da cinematografia moderna no Ocidente. No caso do piloto, nada disso se passa. O acaso de um acidente fora das pistas condena o indivíduo a uma “vida” mantida por aparelhos, até prova em contrário, ainda ativa, desde 2013. O que é que se passa com ele? As diversas possibilidades de constituir teorias de conspiração, a referência complementa o impacto causado pelo filme de Almenábar. Nos dois casos, há a interferência do que chamei aqui de “acaso”. Não vou me deixar levar pelo cantos de sereia que as conspirações solfejam em suas mais diversas teorias. Não. Prefiro deixar a imaginação livre, mesmo que, intimamente, não conceda a esta situação o apanágio da possibilidade> em outras palavras, pergunto-me se o piloto está mesmo “vivo”.

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Estas duas referências me fazem pensar em recentíssima notícia sobre o desligamento dos aparelhos que mantinham vivo uma criança de menos de dois anos de idade no Reino Unido, mais especificamente, em Liverpool. Alfie. Pelo que acompanhei – e confesso que foi muito pouco -, o bebê sofria de doença raríssima e, aparentemente, todas as possibilidades foram esgotadas pelos médicos ingleses. Não havendo mais opções, veio a recomendação de desligar os aparelhos. Os pais resistiram. Conseguiram a autorização para transferir o filho para outro hospital, na Itália – até cidadania italiana foi providenciada para não haver qualquer tipo de empecilho. A contra resistência se fez sentir e o “Estado” interveio. A situação é similar – e apenas isso, similar! – às outras duas aqui registradas. A similaridade, no entanto, parece exceder os limites alheios para apontar para uma questão fundamental: a intervenção do “Estado”. No caso do piloto, em menor escala, com menos força (talvez… a gente não sabe dos detalhes…). No caso do filme do bebê real a coisa fica um pouco mais complexa, delicada, contundente. Não sou jurista. Não conheço a fundamentação filosófica do Direito. Sou um sujeito comum que se pergunta> tem mesmo o Estado o “direito” de intervir, de modo definitivo, irrecorrível, inquestionável, sobre a vida de um indivíduo? Penso que esta situação, em particular, a complexidade se adensa por dois “detalhes”: trata-se de um bebê de menos de dois anos (será que sua consciência registrou o que se passava com ele mesmo?; os responsáveis, os pais, decidiram pela tentativa, ainda uma, de reverter o quadro considerado definitivo pelos médicos e pelos “doutores da lei” em terras de Elizabeth II.

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A pergunta vai ficar, pra mim, sem reposta, ainda que minha dúvida aponte para a razão dos pais, mas…

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