Unidunitê…

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Ah se eu pudesse e se o meu dinheiro desse. O que eu faria? Já não sei. Se colocasse estas frases empilhadas, teria feito um poema? Também não sei. Mas o que é mesmo que a gente sabe? Outra pergunta sem respostas. E são tantas. Vão sendo acumuladas – sim, com a locução verbal, caso contrário, usando a forma pronominalizada, tem-se a impressão de que as perguntas se acumulam a si mesmas, que elas têm esta potência, que elas agem por si. E não é bem o caso… Vão sendo acumuladas como as incisões na camada de cera do “bloco mágico”. Desenho sobre desenho. Na superfície, eles desaparecem, mas as marcas ficam e vão se recobrindo: palimpsesto imaginário que não se revela, mas se desvela ao sabor a autorização do inconsciente… (Quem leu Freud sabe do que estou a falar…) E assim… dizem… contam a vida… Parece que, quase literalmente, são expressões de um texto dito por Elis Regina nas performances de seu último show, Trem azul. Não o vi. Aliás, não vi todos os shows dela. Conheci-a em 1972, voltando de Maceió, depois de disputar os Jogos Estudantis Brasileiros. Naquele ano, o governo do Médici (se não me falha a memória a cadeira de presidente era ocupada por ele, mais um general na lista da sucessão entre 1964 e 1988), levou todos os estudantes para os jogos de avião. Todos. E nós nos julgávamos privilegiados. Mal sabíamos o que estava se passando nos “porões da ditadura” (Ai que essa expressão me incomoda… não gosto dela!). Pois bem. Voltando de Maceió, numa escala no Rio de Janeiro (o aeroporto ainda se chamava Galeão e não havia a linha vermelha, se não me engano…) ouvi Casa no campo, na voz da Elis. Corri numa loja e discos e comprei o LP, com a sobra do dinheiro que meu pai havia me dado para gastar com as… bem deixa pra lá, isso é assunto para outra hora. Foi quando conheci a cantora. Daí comecei a comprar cada disco que ela lançava. Não vi Falso brilhante, mas vi Transversal do Tempo. No meio disso, dois outros shows, um no Mackenzie (o clube mineiro, não a universidade paulistana) e outro no Teatro Marília. Depois houve Elis, essa mulher: apoteótico. Mas não vi Trem azul. O último que vi foi Saudade do Brasil: uma ópera popular emocionante. A apresentação na Globo também valeu a pena ver, assim como o programa da Record, se não me engano. Tantos anos escutando música de qualidade inquestionável, interpretada por uma voz inigualável. No Brasil, ainda não apareceu outra para superá-la. Tantas músicas, tantos shows, tantas emoções (ai… ato falho… nada a ver com Roberto Carlos… peloamordedeus!). Assim, as perguntas, com resposta ou sem… Perguntas, dúvidas, ideias, sonhos, desejos… tanta coisa. E o tempo passa, deixa suas marcas e passa, incólume, ao que parece…

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civilis delirium

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26 estados e um distrito federal.

12 ministros (como os cavaleiros da távola redonda).

78 senadores (3 por estado), concursados.

150 deputados federais (5 por estado), concursados.

208 deputados estaduais (8 por estado), concursados.

Cada município, um prefeito e doze vereadores concursados (como os discípulos).

Cada estado, um governador e 12 secretários concursados (como os doze de Inglaterra).

Cada parlamentar (nos três níveis) receberá o salário que recebia em suas atividades profissionais antes de se candidatarem e se elegerem, e dois assessores, concursados; um automóvel para o trabalho. Passagens aéreas, despesas com telefone e correio correm por conta do parlamentar.

Tenho a impressão de que isto resultaria num economia considerável…

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Uma mulher: Isabela

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Pois bem… nos idos anos 70 do século passado, regularmente, tínhamos um almoço na casa dela. Chicken and bens… peito de franco om ervilhas num molho de queijo. Refeição regada a muita cerveja, nas tardes melancólicas de sábado ou nas folgas de quarta-feira. O noviciado da Companhia de Jesus era sensato e bastante liberal, na opinião de alguns. A memória desses encontros me leva a lembrar dela, a cozinheira. Uma enfermeira norte-americana, solteira, que bebia muito, fumava como uma fornalha e ria, ria muito. Estou tentando encher linguiça enquanto me esforço para me lembrar do nome dela. Não tem jeito… Simultaneamente, penso na personagem do conto “Felicidade clandestina”, constante da antologia homônima, da Clarice Lispector. Não a menina que ganhou o livro, a outra, a maldosa, a sádica que inventava o que quer que fosse para não satisfazer o desejo de sua coleguinha de escola: ter um livro. O primeiro parágrafo do conto vem a calhar na pintura que faz da personagem – que remete à figura da enfermeira que conheci em Campinas:

“Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.”

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A primeira oração é a pedra de toque para o que me traz aqui hoje. A descrição contempla a minha imaginação, quando da composição da imagem da narradora do livro que acabei de ler: A gorda (São Paulo, Todavia, 2018). A autora, portuguesa, Isabela Figueiredo, era para mim desconhecida. Há algumas semanas, Gerson me falou dela. Ele havia comprado este romance quando de suas férias lusitanas no início do ano. Elogiou o material. Fiquei curioso. Não pude comprar o exemplar português – por óbvio: os livros que vêm da terrinha, chegam aqui muito caros. Por coincidência, descobri no Jornal Rascunho a publicação em Pindorama do dito livro. Romance? Não sei dizer. Será mesmo necessário a priori determinar o gênero? O que é mesmo um gênero? Firulas à parte, oque se pode dizer, o que eu digo, é que o livro é uma delícia. A linguagem leve, diáfana, envolvente e absolutamente simples comove, encanta, seduz e diz a que veio. A história, como está no título, relata as idas e vinda e uma mulher, da adolescência à maturidade. Idas e vindas costuradas pelo fio da imagem: gorda. A menina era gorda. A adolescente era gorda. A mulher era (deixou de ser?) gorda. Isso importa mesmo? O exercício da narrativa se faz também a partir de idas e vindas do texto, num discurso em nada amargo, mas nem um pouco condescendente. A narradora não perdoa. Mata a cobra e mostra o pau. As idas e vindas, na perspectiva da cronologia do relato, misturam passado e presente, de forma a construir o relato que se articula em episódios aparentemente descosidos, todos arrematados pela perspectiva entre irônica e cética da voz narrativa. O texto não conta uma história contando uma história. Perdi o juízo? Penso que não. O livro de Isabela Figueiredo não se mostra como um romance, na acepção mais estrita do termo – ainda que eu tenha declinado de bordejar a questão dos gêneros literários. O livro de Isabela conta uma história em que os episódios não se apresentam como células de um tecido narrativo que acaba por compor o quadro geral que pretensamente o gênero constrói. Dizer que estes episódios são apresentados ao sabor da maré da memória afetiva é outra redução. Afirmar que o traço autobiográfico é o que faz identificar a espessura do relato faz pensar que o texto perde em sua proposta estética. Penso que a via é outra. Deixando de lado a questão referente à intenção da autora, se esta ou aquela – ao fim e ao cabo este tipo de questão não leva ninguém a lugar nenhum – o livro se constrói a partir da experiência da autora, independentemente dela ser (ter sido) gorda ou não. Não é este o tópico que interessa. O que vai valer a pena e faz valer a pena a leitura do livro é o caminho que ele traça, entre as memórias da experiência africana e o percurso de adaptação na Europa. A herança colonial, aqui e ali, despontam de maneira até charmosa e elegante, sem deixar de ser contundente. A passagem em que se narra os incômodos causados (ou não, depende da perspectiva) pelas caixas com utensílios chegados da África, quando da mudança da família da narradora para Portugal é tocante. Para além disso, deixa entrever, como em outras passagens, a dificuldade do relacionamento entre imigrados e retornados, entre brancos e pretos. Ainda que a preocupação histórica não seja o plot da narrativa, esta perspectiva de leitura se vê privilegiada na dicção narrativa da autora, sem sombra de dúvida. Outro aspecto interessante a ressaltar é o delicado desenho produzido pela voz narrativa, ao estruturar seu relato a partir de uma espécie de mata residencial. Os cômodos da casa, que dão título aos capítulos do livro, são definidos, conceituados, nas “epígrafes”. Epígrafes que não são exatamente epígrafes. Explico-me: uma espécie de ementa – para não parecer esnobe uso este termo em lugar de didascália – se antepõe a cada capítulo. O efeito disso é, no mínimo, duplo: por um lado, explicita certa ironia com a diferença entre as moradias na África e em Portugal, o que sustentaria um discurso ficcional de cunho exegético no que diz respeito ao capítulo colonial da História que envolve Portugal e África; por outro, o tom intimista da narrativa é desvelado, de maneira explícita e sem censura, o que pode respaldar a revelação das experiências eróticas com Tony e Davi (duas outras personagens que se relacionam com a narradora. A passagem do encontro com o cachorro abandoado também revela ainda uma terceira perspectiva: a da marca altruísta e mais humana das personagens. Com relação a isto, tenho a obrigação de mencionar algo aparecido “recentemente” (de acordo com seus proponentes, pelos quais não ponho minha mão no fogo) que diz respeito a uma crítica zoológica: em outras palavras, a relação entre ficção e animalidade, em sua faceta irracional, como outro instrumento de hermenêutica da ficção. Acredite quem quiser… De uma ou de outra forma, recuso-me a subscrever a crítica que nomeiam Isabela como promessa da Literatura Portuguesa. Eu diria mais, muito mais: muito além disso, Isabela Figueiredo faz literatura que vale a pena ler. Isso sim, eu acredito, é gabarito!
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Do desconsolo e do cetiscismo

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João vai ao hortifrúti, mas não consegue comprar o tomate e a laranja de que precisava. Não há. O dono do hortifrúti diz que na distribuidora não há mais frutas legumes e verduras. O vendedor da central de abastecimento disse que não chegou nada do produtor. O produtor diz que não consegue chegar à central de abastecimento. No rádio, o produtor ouve a notícia de que o governo cedeu e aceitou atender a reivindicações. Simultaneamente, João vê na internete que, na câmara, em Brasília, deputados batem boca por conta de uma “questão de ordem”. Muitos dos que lá estão, cobram do garçom o copo de água gelada de que têm desejo. O garçom disse que não pode servir porque a copeira não veio. Por telefone ela informou que não tinha ônibus pra chegar ao trabalho. No bairro em que mora, a copeira não consegue encontrar o gás necessário para fazer comida para a família. Seus três filhos não foram para a escola porque o governo municipal decretou ponto facultativo. Um dos professores de uma das filhas da copeira, saiu de carro de casa, rumo ao litoral: ficou presa na estrada por conta de falta de combustível. Do outro lado da estrada, sua irmã não consegue embarcar para a viagem ao Nordeste, tão desejada e programada: não há combustível de aviação no aeroporto onde ela está. Ela liga para o João, pra dizer que não sabe quando volta pra casa por conta da situação…

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Esta pequena parábola, para o bem e para o mal me leva a pensar num poema de Carlos Drummond de Andrade:

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história”

 

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Daí, eu penso numa série de perguntas:

Cadê a Jojô Toddynho?

E a palestra da Anita?

Que cor é a cueca usada pelo Tite na viagem para a Inglaterra?

Quantos carros tem o Wesley Safadão?

Alguém mandou celebrar missa de trinta dias pela alma da Hebe Camargo?

Cadê o técnico acusado de assédio?

A Eliane implantou dentes?

Quantos cachorros tem a Rainha da Inglaterra?

A mulher do príncipe Harry escova os dentes quantas vezes ao dia?

Quando Ariella vai contar pra Manu e Ícaro que é mãe deles?

Pablo Vittar é homem ou mulher?

O Rick Martin tem chulé?

Por que Olivia Pope rebola tanto?

Quando Selton Melo vai abrir a boca pra falar direito?

Por que a Globo gosta tanto de sotaque (falso) nordestino?

Estela e Amaro vão ter filhos?

O que Marcelo Rezende diria sobre esta paralisação?

E assim a vida continua (sem muito sentido) em Pindorama: uma caricatura pobre de bateau ivre

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Do capítulo das resenhas – final

Resolvi reduzir para duas as etapas de publicação da resenha sobre o livro do Carlos Nejar. Aí vai a segunda (e última!)

Em Odysseus, o velho, a escrita de Carlos Nejar, própria dos poetas que são também videntes, é um tecido denso de imagens e ritmos com efeito dinamizante. Poeta da poesia, mais que do verso – dado que o verso costuma ser perecível – usa e abusa da palavra que fala, ou se cala, para além dos limites do verso: compósito de camadas diversas, que se entrecruzam, se dispersam, retornando sempre ao mesmo estuário, ao mesmo núcleo energético, de onde irrompem, em sequência solidária. A voz poética, no conjunto dos poemas, jamais se deixa enredar nas malhas de um texto enigmático, porque explicitamente referencial. Seu enredo poético alarga o princípio da realidade, alcançando os limites da transparência do mistério cosmogônico, telúrico mesmo. Concentrado e lúcido, o poeta encontra fórmulas exatas, em que irrompem perturbantes visões e vivências, tecendo o texto feito de palavra e sombra: poço das origens, etapa de um Gênesis particular.

Poeta do tempo, do amor, da esperança, da morte e de Deus, Nejar entretece fios de uma mesma urdidura cujo paralelo pode ser encontrado, no exercício pictórico de Bosch, dado que pinta, com palavras, a criação de um mundo arquetípico, rasurado pelo caminhar da cultura no/do Ocidente. Nesta pintura, o poeta gaúcho não denega suas origens: preocupa-se com “a poesia do homem pelo homem”, o que sobressai de seu texto firme, viril, delicado e aberto, como o pampa. A variedade dos temas – amor, elegia, meditação, mística, épica – não significa dispersão, mas o domínio de um sopro poético que se adensa e refina. Não faltam idéias à poética muito particular de Carlos Nejar. O que o destaca é sua capacidade de verbalização geométrica. São as palavras, em sua bem cuidada arquitetura, que revelam a prosa poética, recortada pelo cume da construção dos poemas. Na verdade, o ritmo da frase se parece com a prosa, lírica e visual, que dá consistência a sentimentos e ideias, num ritmo inesperado. Tem-se a impressão de que o texto é a narrativa de um retorno. Este não se deixa recalcar pelas regras de uma poética “clássica”, mas renova-se na sintaxe do verso livre, com ritmo em nada acelerado:

 

Sou teu pai. E dura tão pouco

a vida do homem.

para que não

me reconheças.

 

Ulisses sou

e outro não virá. (p. 63)

 

A pontuação, escassa, é instrumento de organização visual da frase. Sua musicalidade vem da ideia que flui das palavras, criando a sensação de que o caráter prosaico das situações poeticamente desenhadas desmancha a dureza da realidade, tingindo liricamente a intenção da voz poética. Os diálogos, como no trecho acima, ainda que hermeticamente implícitos, revelam o caráter discursivo da épica, sem a subserviência à métrica e à rima. Arrisco afirmar que o sucesso de Camões, com seu trabalho de ourivessaria poética em Os lusíadas, é igualmente alcançado pela aventura textual de Carlos Nejar. Em Língua Portuguesa, ambos atingem o sucesso que só se consolida com o tempo: espécie de desejada eternidade da palavra, quando orquestrada pela mão firme sonhadora do poeta. Poeta completo. A lírica e a épica coexistem na lavra poética do autor gaúcho: regional e universal, lírico e épico, simples e complexo, telúrico e oceânico, sintético e úmido. A linguagem de Nejar tem qualquer coisa de ígneo: consome, ao mesmo tempo que ilumina, a experiência humana do mito fixada no seu verso. Sua arte, reafirmo, é própria dos poetas que são também videntes: um tecido denso de imagens e ritmos. A fusão do épico com o lírico pode explicar o gosto pelo sensível que marca a dicção da voz poética. O tom subjetivo de uma possível épica, que narraria o demiúrgico, “sopra” a forma expressiva da frase.

A confecção de versos adaptáveis à situação e musicais, são propriedades da poesia de Carlos Nejar. Ele sabe dar às vozes que aparecem nos quatro “livros” o barroquismo de sua linguagem poética que hiperboliza, repete cristalizadas antíteses e dá o tom de choque de repulsão para expressar a fugacidade do tempo. Se de outras coisas não falasse, seria o amor uma das linhas mestras da força tanto épica, quanto lírica deste seu livro. Penélope também comparece como “personagem” no contexto da saga lírica enfrentada pelo velho herói em seu retorno, não tanto físico, material, épico, mas, como quer a poesia, um retorno lírico de memória e consumação:

 

Envelheceste

Quando o abraço de Odysseus

Te desabotoou.

O abraço não te poupou.

Envelheceste quando os vinte anos

De peixe de fisgaram pelo meio.

Ou quando vinte faróis

Girassolaram seu casco

De pensamento veleiro.

Sem demorar o acaso

Nas rodas de nau e roca,

Foste rejuvenescendo

Ao findar o abraço, a onda.

E mesmo no arder do gozo,

Alvos azuis sobrevoam

Os corpos. Também o espírito

Plana, jovem. Romã

No galho de onde saltas.

Com amor cerzindo

As abas da manhã. (p. 92)

 

Fica claro nesses versos a alusão fatídica ao amor desesperado do herói por sua escolhida. O mito gera a situação narrativa que os versos do poeta recortam em sintaxe particular. As alusões metonímicas ao mar – “peixe”, “veleiro”, “nau”, “onda”, para ficar com apenas algumas ilações – conotam a viagem do retorno à ilha desejada, assim como, por tabela, a memória das vicissitudes da busca desesperada na viagem de ida. O tecer de Penélope – metonimizado no substantivo “roca” e no gerúndio “cerzindo”, para além de referenciar a mulher, remetem à ideia de tempo, de fluxo contínuo de acontecimentos e situações que demarcam o território da própria existência. A plasticidade da frase, quebrada em versos que podem ser considerados “irregulares”, não prescinde do ritmo que vem, antes, do movimento das ideias por eles veiculadas. A substituição da tradição rimático-métrica não se faz sentir, dado que o fluxo lírico do discurso se consolida na referência sempre segura ao mito, em todas as suas variações. Os versos destacados são apenas pequena amostra do universo de fantasias e experiências sensoriais que a leitura do livro de Nejar oferece ao leitor. Fica o convite para esta aventura repleta de prazer e sedução.

 

[Recebido em novembro de 2011 e aceito para publicação em junho de 2012]

NEJAR, Carlos. Odysseus, o velho: poemas. Porto Alegre: CiaE, 2010.

Do capítulo das resenhas

Já faz uns dias, eu escrevi sobre um livro de poesia de Carlos Nejar, sobre o qual escrevi uma recensão – para ficar com o termo usado pela revista onde o texto seria publicado, a Colóquio Letras. Pois bem. Resolvi publicar, uma vez mais, aqui – agora sem a preocupação de normas de ABNT, citações e referência e submissão a revistas indexadas pelo Qualis, dada minha aposentadoria. Como são cinco páginas, penso que é melhor publicar em três etapas. Aí vai a primeira:

 

FANTASMAS, INFLUÊNCIAS, INSPIRAÇÕES:
ODYSSEUS, O VELHO, DE CARLOS NEJAR

 

… E o auxílio luxuoso de um pandeiro… (Luiz Melodia, Juventude transviada)

O adjetivo sofisticado é comumente utilizado em muitas situações. Eu diria que, sobretudo, naquelas em que a visualidade é o sentido mais instigado a agir. Um restaurante sofisticado – pela comida e pelo ambiente, com tudo o mais que o circunda: uma roupa sofisticada, modos sofisticados, festa sofisticada. Um adjetivo “comum” que se relaciona sempre a situações, pessoas e/ou ideias sempre tidas como “mais elabor adas”, diferentes, nada comuns. O estranho é que – na espessura semântica que o discurso de Freud imprimiu ao vocábulo -, no dicionário, o verbete apresenta cinco acepções inesperadas para a palavra. O adjetivo, formado pelo particípio de um verbo transitivo direto remete à ideia de falsificação, burla, afetação, engano, adulteração, rebuscamento – no sentido pejorativo. Nada mais estranho quando se pensa nas situações corriqueiras em que este vocábulo é utilizado. Prova de que a linguagem é manhosa e não se deixa “dominar”, de maneira alguma!

Entretanto, quando se pensa exatamente nela, a linguagem, o equívoco se desfaz, uma vez que as acepções apontam para ideias de requinte, originalidade, bom gosto, conhecimento profundo sobre a matéria de que se trata, avanço, eficiência e aprimoramento. É este o diapasão que me dá o tom do presente texto de recensão: exercício de exame crítico da obra em epígrafe. Aliás, esta aponta para uma aparente contradição de sabor bakhtiniano: “o auxílio luxuoso de um pandeiro”. Os grifos, meus, ressaltam a aparente falta de sintonia entre os dois termos. O luxo de um pandeiro está associado à ideia de carnaval que, como festa popular, aposta na aparência desse mesmo luxo: uma fantasia para a comemoração do tríduo momesco, principalmente no Brasil. O pandeiro, instrumento popular, marca o ponto de fuga do luxo que, na letra da música de Luiz Melodia, compõe a harmonia de uma vida simples, típica da favela carioca, cenário exuberante da criação do samba, herança cultural de priscas eras. É sob esta perspectiva que venho apresentar a obra de Carlos Nejar.

A primeira impressão que tenho é a de que Camões, Dante, Homero e, em certa medida, Cervantes, passeiam pelo texto do poeta gaúcho de maneira sutil, elaborada e eficiente. Portanto, eu poderia dizer que se trata de um texto sofisticado. Odysseus, o velho é um emaranhado de referências míticas, históricas, literárias que enredam um discurso elaborado. Sua construção tange a beleza plástica da palavra. Trata-se da elaboração poética de uma epopeia, sem, necessariamente, seguir os passos clássicos do gênero. No entanto, a “essência” deste transparece clara e lucidamente em cada linha do longo poema. Estruturado em quatro conjuntos de poemas – em números variados -, remodelam a saga de um herói legendário em suas reflexões sobre a vida, suas relações, seus feitos, a mulher, o amor e a família. Cronos é a divindade que conduz o texto nas entrelinhas, tornando possível ler todo o volume “sofisticado” e primorosamente encadernado. O leitor saberá em que sentido utilizo, aqui, o adjetivo.

Carlos Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos 37 escritores epigonais do período compreendido entre 1890-1990. Ele constrói uma voz poética emblemática e universal, de original e abundante produção lírica. O poeta encarna, de maneira muito convincente, ainda que modesta e discretamente, a síntese, sobejamente desejada e raramente alcançada, entre inovação e tradição, entre a crítica do mal-estar e a esperança. A figura do mito e da personagem que o encarna, na epopeia clássica revisitada, é uma espécie de porta-voz da simplicidade da dicção poética do autor – exata, mas sugestiva, crítica e esperançada. A criação poética do texto, intensa e passional, atinge o ápice da solidariedade humana. A figura esboçada pelas linhas dos poemas oscila entre a loucura e a santidade: espécie de túnel visualmente delirante e, simultaneamente, terrível, que leva o leitor a repensar a experiência subjetiva de um desesperado amor.

Nejar usa o discurso alegórico, gerando outra realidade paralela que redimensiona e refaz a argamassa verbal da realidade real, ora para criticá-la, ora para satirizá-la, mas sempre de forma a celebrar a experiência da existência humana, nas ondas da poesia. O poeta redimensiona os modelos e paradigmas da crítica literária, talvez com a intenção secretamente irônica de dissolvê-los todos, instaurando potente anarquia nos movimentos poéticos que orquestra. Sua poesia irriga o território tão reflorestado da linguagem, provocando certo translado semântico: tráfego e trânsito de símbolos, transferência de sentidos outros, sempre procurados pelo fazer poético.

(… continua)

Despedidas

Hoje faz nove dias que recebi, oficalmente, a declaração de aposentadoria, exarada pela egrégia universidade federal de outro planeta (ufop), aposentadoria esta que foi publicada na DOU onze dias antes, 3 de Maio. Eu poderia dizer coisas e loisas sobre esta “diferença de tempo. Declino desse direito, por absoluta preguiça… Tal situação demanda uma atitude mais protocolar, mais convencional: a despedida. Não o fiz, nem protocolar, nem convencionalmente. Despedi-me, in prasentia de cinco funcionários e uma colega docente. Outra colegam, perguntou-me se eu iria promover uma “despedida”. Disse que não. Sairia, como o fiz à francesa, comme il faut, complementei. De mais a mais, não estava in the mood de ficar sorrisndo e dando abraços e apertos de mãos. por desnecessário. Sei que, no fundo de algumas almas, o sentimento era de alívio… Seixa isso pra lá. Resolvi escrever m poema e enviá-lo, como forma de despedida. Recebi alguns comentários de volta, bem menos que o possível, devido ao numero de endereços utilizados. Segue o poema:

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Poema de ir embora

 

Vou-me embora,

minha Pasargada é outra, bem diferente.

Deixo amigos, de quem já me despedi.

Deixo conhecidos de quem, às vezes, me esqueço e, espero, não inimigos.

 

Vou-me embora

e na minha Pasargada não há lugar para arrependimento, pedido de desculpas e agradecimentos, de todo, protocolares.

Minha Pasargada só me fez aprender, sempre e mais

para chegar ao fim e constatar que ainda há o que aprender.

 

Vou-me embora, e da minha Pasargada vou ouvir

o suspiro de alívio de muitos,

de saudades de poucos, mas suspiros…

A indecisão, a dúvida e, até, a raiva, de lá, do fundo do quintal da outra Pasargada.

Não mais reuniões,

decisões,

discussões,

argumentações,

encheções.

E a rima, de pobre, ficou repetitiva e chata.

Vou-me embora.

 

Miríades de imagens no horizonte de minha Pasargada.

Muitas, diversas, nítidas ou apagadas,

imagens que, alegres ou não, ficaram, ficam, ficarão.

E no lugar comum da expressão,

a certeza da alegria,

a gratificação de ter conquistado o passe livre.

Na estrada, para a estrada, desta minha Pasargada.

Vou-me embora!

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