Indignação

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Hoje, eu queria escrever sobre os dois livros que acabei de ler. Um, de poemas, de um amigo recente, de Santa Catarina, que tive o prazer de conhecer em Coimbra. Ainda vou a Itajaí… Outro, de um escritor português, que tive o prazer de conhecer pessoalmente em Zagreb. Mas não… Não vou falar deles. Fiquei espantosa e inesperadamente indignado com uma cena que vi, em vídeo, durante a tarde. Numa estrada – não sei onde… pelo sotaque dos participantes da cena, parece ser no Nordeste brasileiro, mas não posso afirmar – um punhado de gente coloca paus e pedras numa das pistas da rodovia, obrigando o impedimento do trânsito. Aparece um caminhão parado, aparentemente, querendo seguir seu rumo, a trabalho. De repente, aparece, na contramão, uma viatura da polícia, aparentemente da polícia federal, não tenho certeza. Eles afastam os “manifestantes” que, aos gritos, acusam os policiais de tentativa de assassinato. Dois dos policiais vão tentando afastar os “manifestantes” enquanto o terceiro vai retirando os paus e pedras para fazer voltar o fluxo do tráfego. Os gritos de “tentativa de assassinato” continuam. Fiquei perplexo. Dadas as atuais circunstâncias a que somos submetidos diariamente – desmandos, roubalheira, impunidade, ostentação, agressividade, polarização, falsidade, confusã0 –,pode até parecer pouco. Mas fiquei indignado. Sei que a taxa de desemprego tem oscilado, numa tendência de crescimento Penso, por isso mesmo, que esta não pode ser “a” base de argumentação que busca defender a “manifestação”. Porque, dadas as imagens que vi, “manifestação” não era. O áudio é mais que explícito quanto a isso. Por outro lado, sei também da truculência de que se serve os corpos policiais em Pindorama, Obviamente, não posso ser conivente ou aceitar tal atitude. A autoridade existe, é instituída e deve se fazer obedecer, mas há maneiras de fazer isso ter lugar nas mais diversas e multifacetadas situações. Truculência gratuita não é o caminho. No entanto, na tal de “manifestação”, não vi truculência. Vi, apenas e somente, exercício de função com autoridade investida. Infelizmente, no caos que vem se instaurando a cada dia, todo cuidado é mais que pouco, muito mais. Paradoxalmente, a palavra não tem mais quase valor algum. E é a mesma palavra que é usada para explicitar o poder, a autoridade, o direito, a liberdade. Fiquei indignado porque isso está se tornado banal. Fiquei indignado por que, a cada dia, dizer o que se pensa passou a ser ameaça à liberdade de expressão alheia. Se digo o que penso e o que digo não é o que dito por quem pensa de forma diversa, o atrito, antes de ser abordado como espaço de conversação, tem se cristalizado como limite, fronteira, perímetro em que a subjetividade se exacerba numa infinitude de diretos e liberdades que cerceiam o alheio. Eu posso, diz um lado. Eu posso, diz outro. Nenhum dos dois lados, aparentemente, enxerga que as duas possibilidades não são excludentes. Os dois “poderes” não se eliminam ou cerceiam. Antes, abrem espaço para a ampliação do campo de visão, do horizonte de expectativas, da possibilidade de crescimento, de enriquecimento de alguma coisa que pode ser identificada como sociabilidade. Fiquei indignado e mais não digo. Amanhã, talvez, eu volte para falar dos livros ou, pelo menos, de um deles.

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