Prosa e poesia: leituras

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É hoje. Sem falta. Custe o que custar. Hei de vencer a minha proverbial preguiça e vou escrever sobre os dois livros que citei ontem. Um, de poesia, é o primeiro (espero que de uma série) de um jovem poeta de Itajaí, Audo Morel. Conheci o gajo em Coimbra. Eu fazendo pós-doutoramento, ele, licenciatura pelo PLI. A gente se viu por primeira vez numa conferência na FLUC. A gente se cruzou algumas vezes, se cumprimentou, batemos papos rápidos. O encontro mesmo se deu na véspera de meu retorno ao Brasil e terminou num abraço de despedida, já tarde da noite, entre a casa em que ele morava e a minha. Depois disso, não nos vimos mais. Ficamos em contato e ele enviou o volume. O segundo é de um jovem escritor português, João Tordo, que tive o prazer de conhecer em Zagreb, enquanto trabalha como Leitor de Português. Ambos jovens. Ambos, promessas, um mais adiantado que outro. Um na prosa, outro na poesia.

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Entre os três eu sou o quarto (Pontes, 2017) é o título do livro de poemas de Audo , Morel. Aparentemente, o conjunto de textos não segue ordem cronológica de produção/criação. Digo isso por intuição, pura inferência a partir da leitura do livro. O título (Um achado! Criativo!) já demonstra boa dose de sensibilidade poética que ecoa em versos como “Duas vogais, duas consoantes / Palavras sinceras / Verso completo / É o que eu sinto, / Me ensines a velejar / Sou o aprendiz do tempo / Me dê a mão, quero contigo navegar!”. Não vou gastar tempo e paciência (do leitor) detratando o poeta por conta de dois pequenos lapsos gramaticais. Prefiro destacar a intuição poética do autor que invoca o alfabeto, matriz da palavra – objeto estético em estado bruto – como suporte para a expressão de desejos latentes. Este, me parece, o eixo de todo o livro: desejo. Ainda palmilhando as sendas da poesia, o jovem autor desbrava, com galhardia, tais veredas e constrói imagens instigantes, alternadas com declarações rasgadas de um amor mal realizado, inconcluso, retroalimentando a fonte dos desejos que subjaz ao discurso que se explicita em cada linha. Aqui e ali, ainda se respira a adolescência poética do autor, o que só contribui para a manutenção de sua vitalidade poética: o sujeito tem a verve necessária para madurecer. Na página da Livraria Martins Fontes Paulista, pode-se ler o seguinte: “O texto de Audo Morel manifesta-se em muitos poemas. São diversos também os temas, seus conteúdos e formas. Ele fala poeticamente de religiosidade, de amor, amizade, saudade, desejo, ensejo; ele fala de (sua) vida. Exercendo a função poética, Audo usa a linguagem de maneira peculiar e criativa, marcando a sua poesia como a antítese do lugar-comum. Esta arte desenvolve-se pelo reconhecimento trabalhoso e formidável de que a diversidade marcante do mundo pode ser a maior inspiração.” Nada mais veraz e correto. Seus poemas escorregam por lajedos íngremes que se fazem desafios para a realização poética que, epifanicamente, se manifesta em versos como: “Na mesa posta / Você está / Ao meu lado conversas / Sem mesmo falar / Se hoje é segunda / Pouco é horas de importar / Tomo um café preto / És dia de acordar!”. Se há a possibilidade de se apontar ara pequeno desliza de concordância (Terá sido manifestação de licença poética não percebida pelo leitor?), o que estes versos ecoam é uma intuição forte no que chamo aqui de expressão de desejo. Repito: o eixo de “orientação” da concepção poética desse livro. Como eu disse, é o primeiro. Outros virão, com certeza e, também tenho certeza, a espessura poética de Audo vai aumentar. Perceberam? Implicitamente, afirmei que ela já existe, o que é fato. Ela vai aumentar, se adensar, se sofisticar. Matéria a ser tratada com o tempero do tempo e o calor da experiência que com ele vem. Um em companhia do outro. O “quarto” vai se multiplicar, no espaço e na quantidade da poesia de Audo Morel que promete. Ah… se promete!

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Alguém já parou pra pensar num detalhe aparentemente bobo e sem valor algum: um escritor gago? Pois é. Nem defeito nem qualidade. O gajo é gago. Pelo menos, quando de nosso encontro na sala do Centro de Língua Portuguesa, na Faculdade de Letras da Universidade de Zagreb, na Croácia. Não sei se continua gago, o que só confirmaria uma hipótese: o nervosismo do autor. Isso, no entanto, não é o que interessa aqui. João Tordo chegou a mim por indicação de Sofia Soares, amiga querida, de quem tenho imensas saudades. Ela era Leitora de Português do Instituto Camões na já referida faculdade. Ficamos amigos. Conversando sobre Literatura, falou-me do autor que ia convidar para uma palestra e oficina no também já referido Centro. Indicou-me seu terceiro livro: As três vidas. Na opinião dela, um autor que fazia lembrar de Paul Auster. Seria uma versão lusitana do autor norte-americano. Sendo ou não sendo, li o livro. Gostei imenso, do livro, e, depois, do autor. Rapaz simpático, sorriso largo. Escrita mais que instigante, densa e leve, simultaneamente. Impossível? Quem quiser que vá pesquisa pra constatar a efetividade desta simultaneidade… Há tantas… Acabei de ler dele (Daí a referência de ontem) Biografia involuntária dos amantes (Alfaguara, 2014, em Portuga; Companhia das Letras, 2017 – este, o volume que manuseei). Confirma a primeira impressão que tive. O que é que se pode dizer deste livro? Tanta coisa… O inusitado diz presente: a pedra de toque para a narrativa é um acidente em que um javali é morto. Isso faz juntar os dois protagonistas. Não, não são eles os amantes! Seria uma solução, eu diria, fácil demais. A filha do professor (um dos protagonistas), a amante desaparecida de um músico (o outro). Duas ou três personagens… esquisitas… mas marcantes, fundamentais para o desdobramento do relato e uma carta, supostamente deixada por Teresa, a que desaparece. Muito mais não digo. Não vou tirar o possível prazer de quem me lê ao ler, se ler, o livro do português. Mais não digo, mas posso alcovitar um pouco: as idas e vindas do narrador produzem um estado de quase letargia, dada a alta dosagem de melancolia e ceticismo que o cerca. Isso, na minha modestíssima opinião. A relação entre pai e filha é um toque interessante, a quebrar certo clima. A relação do narrador com a hospedeira e o outro personagem inesperado também colaboram para um colorido menos brilhante, ainda que multitonal da mesma narrativa. Certas sombras, igualmente coloridas, rondam a relação do narrador com o presidiário. A organização do livro em seus capítulos acompanha certo ritmo interno que não quebra a harmonia das partes sem deixar à vista a costura, o liame, os fios, que se perdem, a serem puxados pelo leitor que se fizer atento. Um romance delicadamente soturno. Não chega a ser trágico e o que há de humor nele está bem dosado, para não quebrar a solenidade natural do discurso que flui, linguagem leve e densa, como já disse: marca da registrada de João Tordo. Vale a pena ler! De verdade!

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7 comentários sobre “Prosa e poesia: leituras

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