Efeito colateral

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Tenho que reconhecer… já houve um tempo em que me esgotava para entender o porquê de certas coisas escritas. Por que é que alguém gasta a vida escrevendo? Fazendo troça com meus alunos – que riam da graça que eu fazia, mas não alcançavam o que eu queria dizer com aquilo (Não tenho a menor dúvida disso! E, por favor, quem já foi meu aluno, não se ofenda. A intenção aqui não é esta. É apenas repetir a troça…) – eu dizia que quem assim vivia (ih… uma rima paupérrima!) tinha um parafuso a menos na cabeça ou dois dele, no mínimo eram soltos. Para completar a troça, dizia que mais de um a menos e muito mais que dois soltos, eram os parafusos da cabeça de quem gastava tempo (e dinheiro!) lendo o que os primeiros escreviam… Quem tem ouvidos de ouvir… ouça! Pois bem. Depois a troça, mais troça, pois é o que me resta a dizer sobre este sujeito alçado, assim, de repente, aos píncaros da glória. Não. Isto não é ciúme, muito menos inveja. Não. Isso não é dor de cotovelo ou irritação porque ele é jovem. Como se ser jovem fosse uma vantagem… Há controvérsias! Não! Definitivamente não! O que se passa é que, uma vez mais, a prática já usual é repetida e cegamente elogiada, incensada como uma grandíssima novidade. Claro está que não me dar ao desfrute de elencar todas as obras que já fizeram o mesmo. Os que forem mais curiosos que eu que se esforcem por descobrir. Mas que a prática é repetida, ah… é mesmo. O prefácio. Assim, só a palavra “prefácio”, num tipo gráfico que não chega a ser “uma Brastemp”, mas condiz com o resto… A palavra em branco sobre uma página negra (Era para ser sugestivo?) No prefácio, o autor assina como tradutor (É mesmo para reconhecer a esperteza dele?). No prefácio conta uma historinha um tanto assim… Bem. O prefácio fala que o texto que segue é a tradução de textos encontrados por acas, depois de um telefonema igualmente casual, que leva a um encontro (casual de novo?) com uma descendente da suposta autora do pressuposto texto escrito numa língua que quase ninguém conhece. A tentativa de legitimidade (Seria um exercício e verossimilhança ficcional?) é dado pelo contato com outra entidade suposta: um professor universitário. Esta chancela ainda tem peso no atual mercado da escrita dita literária. Logo, um a zero para o livro. Obviamente, isto só vale para quem acredita que a academia ainda detém todo este “poder (Isso existe mesmo?). Pois bem. No mesmo prefácio, o autor/tradutor espraia sete historietas interligadas. Tudo o que eu li sobre o livro (Claro, o alarde e a balbúrdia são enormes, afinal o “jovem escritor” já aparece no cenário das letras nacionais como uma enfant gaité, uma celebridade! Ai que preguiça). O clima das histórias, anunciado como de suspense, perde coerência, a meu ver, sobretudo a primeira e a última. As que estão no meio seguem certa linha de verossimilhança narrativa, mas não chegam a despertar o nível de curiosidade e espanto que a “crítica” anuncia como sendo o apanágio da narrativa de suspense do “jovem autor”. O deslize entre a primeira e a última histórias não compromete o andamento das outras cinco. Justiça seja feita: há duas coisinha que me agradaram no livro. As ilustrações e a ideia de associar cada história a uma denominação do demônio, desdobrando esta associação em outra, desta feita, com os sete pecados. Este traço também sofre de coerência pois, do fundo de minha chatice, não consegui estabelecer os elos que ligam os pecados às personagens que os representam no determinado texto intitulado por uma das denominações do “coisa ruim”. Por outro lado, as ilustrações são sugestivas e têm um traço bastante interessante. Ademais, na página contígua a cada ilustração, respingam, graficamente, raiadas ou gotículas de sangue. Isso confere certo movimento visual à narrativa que, ao fim e ao cabo, se perde em sua própria falta de sentido. Para quem ainda não percebeu, estou a falar de O vilarejo, escrito por este “fenômeno” (Para mim, ainda, inexplicável, mas sou um chato) que atende por Raphael Mendes. O livro é de 2015 e foi publicado pela Objetiva. Está aí, no “mercado” para quem quiser ler…

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6 comentários sobre “Efeito colateral

  1. Não o li, mas na sinopse, ao notar que o personagem se chama Peter Binsfeld, não tive interesse. Sobre obras BR, defendo obras que são ambientalizadas sobre a nossa realidade brasileira – nomes BRs, locais e afins. Um dia quero lê-lo para tirar conclusões justas. 😊

    1. A leitura sempre vale a pena, meu caro. Não é por outro motivo que escrevo, inclusive, sobre livros de que não gosto. E confesso: chego a ter urticária mental desse tipo de “celebridade”… Ai que preguiça… Obrigado pela visita! Bom fim de semana! Abraço

      1. Talvez eu tenha tido essa mesma repulsa ao ler Dan Brown. Tanta gente diz que é bom. A ressalva de trabalhar a trama com as obras de Da Vinci me agradou. Mas quanto á escrita, que ao meu ver é o cerne de uma obra, peca. Trata o leitor como um analfabeto funcional. Foi triste. Valeu👍

  2. Desanimador o que andam publicando. Agora andam à caça de corações e mentes dos mais jovens e daí publicam obras de gente da mesma faixa etária, cujo conteúdo é bem ao gosto da “galera”: vocabulário “informal”, assuntos mais “light” para que ninguém precise pensar muito e vai por aí, Estou generalizando: há alguma escrita de jovens autores que vale a pena ler, mas o grosso é para “viralizar” – novo vocábulo que também contempla o que chamávamos de best-sellers – e enriquecer editoras. Talvez seja o caso. Nem cheguei perto do livro e já perdi o interesse. Obrigada por resenhar para que não se perca também tempo precioso. Beijinho.

  3. É já não há bons e ótimos escritores como antigamente ! 😭
    Grata por partilhar a sua opinião , evitando assim que eu caísse em tentação de comprar esse “livro”.

  4. Pois é… Ainda sob o domínio de certa “febre pedagógica” comprei os exemplares. Não digo que me arrependo – a gente não pode se arrepender de ler e aprender -, mas se pudesse saber do conteúdo antes doe ler – isso não seria mesmo conveniente?! – não os teria comprado. Se tiver muita curiosidade, pode tentar emprestado ou em bibliotecas… só por curiosidade…;-)

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