Do capítulo das resenhas

Já faz uns dias, eu escrevi sobre um livro de poesia de Carlos Nejar, sobre o qual escrevi uma recensão – para ficar com o termo usado pela revista onde o texto seria publicado, a Colóquio Letras. Pois bem. Resolvi publicar, uma vez mais, aqui – agora sem a preocupação de normas de ABNT, citações e referência e submissão a revistas indexadas pelo Qualis, dada minha aposentadoria. Como são cinco páginas, penso que é melhor publicar em três etapas. Aí vai a primeira:

 

FANTASMAS, INFLUÊNCIAS, INSPIRAÇÕES:
ODYSSEUS, O VELHO, DE CARLOS NEJAR

 

… E o auxílio luxuoso de um pandeiro… (Luiz Melodia, Juventude transviada)

O adjetivo sofisticado é comumente utilizado em muitas situações. Eu diria que, sobretudo, naquelas em que a visualidade é o sentido mais instigado a agir. Um restaurante sofisticado – pela comida e pelo ambiente, com tudo o mais que o circunda: uma roupa sofisticada, modos sofisticados, festa sofisticada. Um adjetivo “comum” que se relaciona sempre a situações, pessoas e/ou ideias sempre tidas como “mais elabor adas”, diferentes, nada comuns. O estranho é que – na espessura semântica que o discurso de Freud imprimiu ao vocábulo -, no dicionário, o verbete apresenta cinco acepções inesperadas para a palavra. O adjetivo, formado pelo particípio de um verbo transitivo direto remete à ideia de falsificação, burla, afetação, engano, adulteração, rebuscamento – no sentido pejorativo. Nada mais estranho quando se pensa nas situações corriqueiras em que este vocábulo é utilizado. Prova de que a linguagem é manhosa e não se deixa “dominar”, de maneira alguma!

Entretanto, quando se pensa exatamente nela, a linguagem, o equívoco se desfaz, uma vez que as acepções apontam para ideias de requinte, originalidade, bom gosto, conhecimento profundo sobre a matéria de que se trata, avanço, eficiência e aprimoramento. É este o diapasão que me dá o tom do presente texto de recensão: exercício de exame crítico da obra em epígrafe. Aliás, esta aponta para uma aparente contradição de sabor bakhtiniano: “o auxílio luxuoso de um pandeiro”. Os grifos, meus, ressaltam a aparente falta de sintonia entre os dois termos. O luxo de um pandeiro está associado à ideia de carnaval que, como festa popular, aposta na aparência desse mesmo luxo: uma fantasia para a comemoração do tríduo momesco, principalmente no Brasil. O pandeiro, instrumento popular, marca o ponto de fuga do luxo que, na letra da música de Luiz Melodia, compõe a harmonia de uma vida simples, típica da favela carioca, cenário exuberante da criação do samba, herança cultural de priscas eras. É sob esta perspectiva que venho apresentar a obra de Carlos Nejar.

A primeira impressão que tenho é a de que Camões, Dante, Homero e, em certa medida, Cervantes, passeiam pelo texto do poeta gaúcho de maneira sutil, elaborada e eficiente. Portanto, eu poderia dizer que se trata de um texto sofisticado. Odysseus, o velho é um emaranhado de referências míticas, históricas, literárias que enredam um discurso elaborado. Sua construção tange a beleza plástica da palavra. Trata-se da elaboração poética de uma epopeia, sem, necessariamente, seguir os passos clássicos do gênero. No entanto, a “essência” deste transparece clara e lucidamente em cada linha do longo poema. Estruturado em quatro conjuntos de poemas – em números variados -, remodelam a saga de um herói legendário em suas reflexões sobre a vida, suas relações, seus feitos, a mulher, o amor e a família. Cronos é a divindade que conduz o texto nas entrelinhas, tornando possível ler todo o volume “sofisticado” e primorosamente encadernado. O leitor saberá em que sentido utilizo, aqui, o adjetivo.

Carlos Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos 37 escritores epigonais do período compreendido entre 1890-1990. Ele constrói uma voz poética emblemática e universal, de original e abundante produção lírica. O poeta encarna, de maneira muito convincente, ainda que modesta e discretamente, a síntese, sobejamente desejada e raramente alcançada, entre inovação e tradição, entre a crítica do mal-estar e a esperança. A figura do mito e da personagem que o encarna, na epopeia clássica revisitada, é uma espécie de porta-voz da simplicidade da dicção poética do autor – exata, mas sugestiva, crítica e esperançada. A criação poética do texto, intensa e passional, atinge o ápice da solidariedade humana. A figura esboçada pelas linhas dos poemas oscila entre a loucura e a santidade: espécie de túnel visualmente delirante e, simultaneamente, terrível, que leva o leitor a repensar a experiência subjetiva de um desesperado amor.

Nejar usa o discurso alegórico, gerando outra realidade paralela que redimensiona e refaz a argamassa verbal da realidade real, ora para criticá-la, ora para satirizá-la, mas sempre de forma a celebrar a experiência da existência humana, nas ondas da poesia. O poeta redimensiona os modelos e paradigmas da crítica literária, talvez com a intenção secretamente irônica de dissolvê-los todos, instaurando potente anarquia nos movimentos poéticos que orquestra. Sua poesia irriga o território tão reflorestado da linguagem, provocando certo translado semântico: tráfego e trânsito de símbolos, transferência de sentidos outros, sempre procurados pelo fazer poético.

(… continua)

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2 comentários sobre “Do capítulo das resenhas

  1. Tive o privilégio de ler há algum tempo. À frente de quem lerá agora. Não consigo imaginar o motivo da rejeição que provocou uma reação de impaciência do autor do livro. Tão bonita esta recensão… Ora, que a leiam sem preocupação com normas e com mais sensibilidade! Beijinho.

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