Frivolidades histriônicas

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Leio o Jornal Racunho faz um algum tempo. Sou assinante. Não sei se muito ou pouco. Pra que calcular? Como calcular? Muito ou pouco quer dizer alguma coisa? Bem… O fato é que leio e gosto. O jornal é instigante, apesar de, confesso, não gostar de muitas das opiniões aí expostas. Mas isso não interessa. O que conta, hoje, é que há uma secção do jornal que muito me diverte, por que a leio com cinismo e sarcasmo, pela quase total inocuidade, apesar de o que ali vai escrito ainda importar para miríades e miríades de pessoas em território nacional e, até, alhures. Resolvi, então, dirigir a mim mesmo as perguntas do tal “Inquérito”. Este é o nome da secção a que me refiro. Sei que não sou famoso – não ganhei nenhum concurso literários, não fi “descoberto” por algum “agente” literários, não fui entrevistado nem pelo judeu do caldeirão, nem pela Ana Maria Brega; o Pedro não me conhece e jamais serei chamado pelo antipático e grosseiro ex-obeso, porque não aceitaria o convite. Ainda assim, ouso fazer o inquérito a mim mesmo, por puro divertimento…

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  • Quando se deu conta de que queria ser escritor?
    Nunca me dei conta disso. 
  • Quais são suas manias e obsessões literárias?
    Carimbo os livros com dados de propriedade, com um ex libris e rabisco os livros, conversando com eles. 
  • Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
    O livro que estiver lendo no momento. 
  • Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
    Uma mesa, uma cadeira e o computador.
  • Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
    Aquelas em que eu me encontrar.
  • O que considera um dia de trabalho produtivo?
    Defina trabalho produtivo. Isso parece coisa de linha de produção de automóveis…
  • O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
    Escrever.
  • Qual o maior inimigo de um escritor?
    Outro escritor.
  • O que mais lhe incomoda no meio literário?
    A fogueira de vaidades estereotipadas.
  • Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
    Aquele que se lê.
  • Um livro imprescindível e um descartável.
    O dicionário e os paradidáticos, necessariamente nesta ordem!
  • Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
    A diagramação feia encapada sem cuidado estético.
  • Que assunto nunca entraria em sua literatura?
    Aquele que o tal de mercado pedir…
  • Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
    Ih…!
  • Quando a inspiração não vem…
    Eu suspiro de preguiça.
  • O que é um bom leitor?
    Aquele que “”!
  • O que te dá medo?
    Perder totalmente a autonomia física e mental.
  • O que te faz feliz?
    Ficar à toa.
  • Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
    Dúvida? Todas as possíveis. Certeza? Nenhuma! De nada!
  • Qual a sua maior preocupação ao escrever?
    Não ser capaz de escrever.
  • A literatura tem alguma obrigação?
    Sim. Ser SUPERIOR a qualquer outro registro escrito.
  • Qual o limite da ficção?
    E ficção tem limite? Não fui avisado…
  • O que lhe dá forças para escrever?
    Não preciso de forças, preciso de vontade.
  • Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
    Para minha casa.
  • O que você espera da eternidade?
    Será que ela existe mesmo? Só acredito (mesmo) vendo!

PS: não se esqueça que me diverti escrevendo isso, com muito sarcasmo… pois foi brincadeira…

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Surpresas virtuais

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Judy Garland foi encontrada morta em seu apartamento londrino, vítima de overdose. Ela já era uma estrela do cinema e da música. Sua morte causou comoção. Ayrton Senna, depois de um acidente durante uma corrida veio a falecer. Histeria coletiva no Brasil. Um jogador de futebol cumpre pena por ter participado do assassinado de uma namorada e da ocultação de seu cadáver. Quem se lembra dela? Elton John torna pública sua personalidade homoerótica e pouco tempo depois é condecorado com o título de “Sir”, uma honraria superior nas terras de Elizabeth II. Jorge Amado perseguiu com afinco e devoção o prêmio Nobel. Morreu sem recebê-lo. Mário de Sá-Carneiro se veste a rigor, ordena o jantar no quarto do Hôtel des Artistes, em Paris, onde era seu costume se hospedar e matou-se, deixando para nós uma obra estupenda. A menina desaparece e, dias depois, seu corpo é encontrado numa beira de estrada. A televisão faz um drama e arrasta a “novela”, supostamente, em busca de uma explicação. Um bando de boçais que, por infelicidade, nasceram em Pindorama, colocando-se no papel de heróis da imbecilidade, transformam mulheres russas em títeres de sua imbecilidade machista, atrasada, rasteira, vulgar, triste, patética… Tudo isso acontece. Tudo isso pode acontecer. Tudo isso é coisa que se dá no dia a dia de qualquer um na face do planeta. O que diferencia estas coisas entre si e em relação às inumeráveis outras coisas que podem vir a aparecer, a acontecer, a virar notícia de jornal e/ou de televisão é a ênfase que se dá, a versão dos fatos, a “entonação” do discurso que relata os fatos. Ou seja, em uma palavra, depende de quem fala/conta/mostra/comenta/reporta. Assim é com a Literatura.

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Sinais gráficos como a decorar o parágrafo e às vezes, desempenhando o papel de suspensão do discurso. Palavras do corriqueiro da língua, criando clima de ironia, humor no texto e no desempenho de certas personagens. A numeração dos capítulos que, a partir de certa altura, começa a voltar para trás, não chegando ao início da contagem dos capítulos. Personagens cujo nome é constituído de siglas sem significação explícita ou, até mesmo, necessária. Narração que escapa do lugar comum da sequência episódica que se alterna entre os padrões cronológico e psicológico de categoria narrativa constitutiva: o tempo. Diálogos curtíssimos e estrategicamente colocados em momentos, digamos, fundamentais de cada passo da narrativa ficcional que se estende debaixo dos olhos de quem lê. Apropriação intertextual e interdiscursiva com um poeta, digamos, essencial da Literatura Brasileira: Drummond. E, para não dizer que não falei de flores, o tratamento delicado, contundente e revelador do homoerotismo em diapasão poético de intensidade inquestionável. Pois bem, tudo isso a gente pode encontrar no livro de Victor Heringer, O amor dos homens avulsos (Companhia das Letras, 2016). Na página da editora, encontra-se o seguinte parágrafo (os números entre parênteses foram colocados por mim, para organizar os comentários seguintes): “No calor de um subúrbio carioca, um garoto cresce em meio a partidas de futebol, conversas sobre terreiros e o passado de seu pai, um médico na década de 1970.(1) Na adolescência, ele recebe em casa um menino apadrinhado de seu pai, que morre tempos depois num episódio de agressão. O garoto cresce e esse passado o assombra diariamente, ditando os rumos de sua vida.(2) Essa história, aparentemente banal, e desenvolvida com maestria ficcional e grandeza quase machadiana (3) por Victor Heringer. Dono de uma prosa fluente e maleável, além de uma visão derrisória da vida, o autor demonstra pleno domínio na construção de cenas e personagens. E emociona o leitor com sua delicada percepção da realidade. (4)

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Vamos às notas. (1): O clima que cerca a narração, no que concerne a figura do pai, remete aos famigerados “anos de chumbo” criando espaço para ilações que envolvem o pai, a mãe, o menino e o narrador, como títeres da História, no Brasil daquele período. A relação que se estabelece entre esta referência e o “intimismo” desvelado, fica por conta da natureza da relação que se estabelece entre o narrador e o menino que aparece em sua casa. (2) O passado a que a nota se refere, na leitura que eu fiz do romance – é possível chamar este livro por este nome, dadas as idiossincrasias de minha formação acadêmica –, assenta-se na troca de afetos que ocorre entre o narrador e o menino e toda a sequência de momentos que marcam, tanto a vida do narrador, quanto a sua relação com este mesmo menino. Neste aspecto, é possível aproximar esta ficção – não posso sequer ousar a pensar em ilações de natureza autobiográfica pois conheço pouquíssimo, quase nada da vida do autor – a um romance de formação, outra categoria considerada importante e necessária para a tal formação acadêmica aqui referida… (3) Isso é um exagero editorial. Eu diria que se trata de chamariz para a venda do livro, dado que o autor, muito jovem falece inesperadamente quando justamente desponta no cenário mercadológico da Literatura no Brasil. Fato é que o gajo escreve bem, mas não chega perto, ao fim e ao cabo, do romancista carioca do final do dezenove, quem sabe, apenas o vislumbra como “influência” – considerado aqui os parâmetros da Literatura Comparada. (4) O realismo da escrita de Victor é mesmo comovente. O toque pessoal na reconstrução de cenários, que poderiam parecer desgastados pelo uso repetido, é mesmo notável. Intriga-me a maneira como ele constrói seu discurso homoafetivo. Intriga-me pela delicadeza e pelo quase cinismo, fruto do ceticismo que, a meu ver, marca de forma definitiva o seu discurso. A leitura do livro me agradou e, para mim, marcou a primeira experiência com ebook. Comprei, confesso, desconfiado, mas li todo, de cabo a rabo. E gostei! Pasmem… gostei de verdade…

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Três vezes “towanda”!

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Depois e discar os cinco dígitos você é atendido por uma gravação, depois outra, outra e mais outra. Depois desse suplício, uma voz “humana” atende e “finaliza” a assinatura de um pacote de televisão para a sua casa. Todos os seus dados são gravados e você recebe um SMS confirmando tudo. Pouco tempo depois – geralmente, depois da assinatura é comum que a instalação ocorra (até) rapidamente – o técnico instala tudo, dá aquela “aula” sobre o óbvio – bem, para muitos, há que dar um desconto nessa obviedade… – e tudo começa a funcionar. Passa-se o tempo. Você decide cancelar a assinatura. Não interessa a ninguém mais o motivo. Você decide e pronto. Disca os mesmos cinco dígitos do início da história. A mesma ladainha gravada. Você disca o seu cpf e uma voz (pasme!) humana atende. Ao dizer o que quer a tal voz humana pede seu cpf. Não adianta dizer que já foi digitado o tal número. Ela insiste. Você dá o número. Daí ela pergunta o que é que você deseja. Você responde: cancelar minha assinatura. Aí ela interfere: por ser um assinante “fiel”, a empresa disponibiliza um pacote especial que inclui canais de filmes, de esportes, de variedades que superam “em muito” o seu próprio pacote. Você agradece e nega. Insiste que quer cancelar. Aí ela pergunta se pode saber o motivo. Você diz que é porque você está com vontade de cancelar, que está de saco cheio, que não quer mais. Não adiante. A voz humana insiste em oferecer outro pacote. Você repete o que já foi dito, no mínimo, três vezes, que quer o cancelamento. Ela, a voz humana, pergunta de novo se pode saber o motivo. Daí você diz que é porque vai se mudar. A voz – pelo tom, dá pra perceber que ela sorri, vitoriosa, pois você abriu flanco para uma tentativa de reverter o seu desejo – retruca que você pode requerer a transferência do ponto, “sem custo adicional!”. Você diz que não e insiste no cancelamento. A voz começa a retrucar com mais uma oferta e você corta. Olha só, quero cancelar porque vou me mudar para a Patagônia. Vocês têm condições de transferir minha assinatura para a Patagônia? Não, diz, estupefata, a voz. Então, você retoma, eu quero cancelar porque vou me mudar para a patagônia. Desse modo, ela parece, entre um muxoxo e outro, proceder ao cancelamento. Pede para esperar um pouco pois está abrindo o cadastro. Pede, uma outra vez, o número do seu cpf. Você dá. Pede pra você confirmar os demais dados. Você confirma. Então, ela volta a solicitar que você aguarde pois ela “vai estar lançando” o seu pedido. Passa um tempo e ela retorna, perguntando se você desejar agendar a visita do técnico para recolher o equipamento. Você concorda e confirma, uma vez mais, os seus dados. Daí, em tom de ameaça, ela avisa que há de haver um maior de idade presente quando da visita, que deve portar carteira de identidade, caso contrário, você vai pagar uma multa e pode até responder legalmente por conta da obrigatoriedade de reposição do equipamento. Você concorda e agenda a visita. Confirma o agendamento. Confirma o endereço eletrônico para o envio do protocolo. Confirma o número do celular para eventuais contatos. Pronto. Você dá um suspiro fundo e, até prova em contrário, aliviado, começa a aguardar a visita do técnico. Você recene a prometida mensagem. No dia seguinte, ligam pra você, da empresa operadora de tv por assinatura, perguntando se você já agendou a visita para recolhimento do equipamento. Você confirma o agendamento. A voz “humana” agradece e desliga. Mais dois dias e por quatro ou cinco vexes, neste período, você tonar a receber o mesmo telefonema, com o mesmo questionamento. Você vai confirmando, um a um. Falta ainda uma semana para a tal visita. Então, você começa a receber mensagens eletrônicas cobrando o agendamento e ameaçando você, caso não o faça. Você liga para a empresa e a voz “humana” diz que é pra desconsiderar, caso o agendamento já tenha sido feito. Na véspera da visita, mais uma mensagem e mais um telefonema. No dia agendado, a visita a acontece e o equipamento é devolvido. Dois dias depois, você recebe um telefonema cobrando o agendamento para recolhim… você desliga.

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Enquanto escrevia isto, pensei em três ou quatro mulheres: Kathy Bates (sobretudo esta!), Mary Stuart Masterson, Mary-Louise Parker e Jessica Tandy. Para bom entendedor, um pingo é letra…

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De coincidências e olhares

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Certa feita, num restaurante do Village, em Nova Iorque, o Lip’s, Ginger, uma das drag queens que desempenhavam a função de garçonetes, chegou-se a mim, antes de subir ao palco, e disse que eu era o Billy Joel dela. Ginger era responsável pelas quatro mesas que ocupavam o canto do salão em que eu estava. Durante o show, fez várias referências ao cantor e a mim. Foi uma noite agradável que ficou perdia em minha memória e em algumas fotos que já não sei onde andam… Este episódio não tem nada de ficcional. Nada nele me levou a escrever um romance – ainda duvido que tenha competência para tanto – e, mesmo assim, foi interessante. Leva a pensar se, de fato, existem coincidências. Não me vejo parecido com o cantor norte-americano, mas Ginger sim. E outro momento, durante um congresso no Rio de Janeiro, fiquei conversando com uma professora que eu conhecia. Eu já tinha estado com ela, já tinha sido a ela apresentado, mas ela, membro da “república dos phdeuses” naquela altura, não me reconhecia. Conversávamos animadamente, ainda que me sentisse incomodado com o tipo de perguntas que ela fazia. Não conseguia supor o porquê daquela curiosidade, dado que eu a conhecia e sabia que era uma pessoa sem a mínima importância para ela. O desconforto durou até o momento em que, por um movimento brusco, fiz virar o crachá que usava e que, até então, ocultava meu nome. Estupefata ela perguntou: “Você não é o João Gilberto Noll?”. E foi-se, como tinha aparecido. Num átimo. Ri a bandeiras despregadas, mas não consegui escutar a conferência do escritor gaúcho pois, ao chegar ao auditório, ao olhar para ele, lá embaixo, à mesa, vi a mim mesmo falando. Fiquei mais que encodado. Coincidência?

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Estas considerações servem para criar certo tipo de “pano de fundo” para alguns pitacos sobre um romance de Helder Macedo, intitulado Sem nome Lisboa, Presença, 2006). Encontrei-o em edição brasileira… “por acaso”, da última vez que entre na livraria Leitura, do BHShopping – coisa que não faço com frequência. O romance, “assenta-se” num detalhe fortuito: certa aparência facial, dois números trocados e uma ou duas letras trocadas. Parece pouco n[e? Mas para o escritor/professor português não é. Ele constrói uma trama (até) interessante sobre um sujeito que perdeu a namorada durante o ditadura salazarista e acaba por se encontrar com uma mulher, em outro país, no aeroporto que, na opinião dele, se parece muito com a namorada perdida. O detalhe dos números se refere à quase coincidência do ano de nascimento de ambas, ainda que sua namorada teria mais de 60 anos quando do encontro e a rapariga não tinha sequer 40 mal contados. Mas a troca dos números instigou a curiosidade do protagonista. Outra coisa era o nome da namorada e da moça no aeroporto: Bernardo ou Barnarda? (Se não cometo equívoco – estou com preguiça de consultar o livro…) A relação entre os dois envolve um amigo dela, homossexual, diplomata que faz uma parte um tanto confusa na trama. E a história se envolve nas tramas da memória, da fabulação e do fluxo de consciência. Tinha curiosidade de ler algum livro deste autor – sua obra é bastante ampla. Confesso que gostei, mas não ao ponto de colocá-lo em lugar de destaque em qualquer estante, não este romance. Já ouvi coisas boas a respeito de dois ou três outros, durante um outro confesso. Fato é que este romance prende a atenção do leitor por conta de suas reviravoltas que, ao fim e ao cabo, relatam situações contextualizadas no período mais escuro da cultura lusitana com suas perseguições, suas imposições e seus impedimentos. A trama de Helder Macedo é leve, chega a ser engraçado com pitadas de surpresa, aqui e ali. O romance agrada. A relação com a História de Portugal, faz deste romance um texto que instiga e questiona, sem deixar de enlevar o espírito em questões que, ainda que de raspão, tocam a Psicanálise, respaldando leitura de afetos e intimidades que, por vezes, foram sufocadas pela nuvem salazarista. O próprio desfecho remete, em certa medida, ao horizonte mais aberto e esperançoso que se espraia sobre a península prenunciando tempos melhores… Ou piores, se a chave de leitura levar à porta da ironia e da derrisão, no que diz respeito à História em/de Portugal. Vale a pena a leitura.

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Aniversários

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Foi no dia 3 de Julho de 2007. A primeira postagem que fiz neste blogue. Não sei o que foi que eu escrevi. Tentei recuperar a mensagem do dashboard do WordPress e apareceu um parágrafo imenso, repleto de links que não dão em nada. O título remete ao Multiply, talvez uma das dinossáuricas versões do que hoje se conhece como rede social. Isso anda tão rápido que um passo equivale a milhares de quilômetros luz. Some-se a isso o fato de que a patuleia A-DO-RA um modismo e desdenha qualquer movimento que se diferencie deste que eu até choro… de pena… de dó… de tristeza… e de preguiça. Pois eu bem que gostava de recuperar a primeira postagem para comemorar este aniversário de onze anos de meu blogue. Isso. Assim mesmo. Com “e” no final. Mesmo sem estar no dicionário. É assim que eu escrevo, em defesa – humilde – da Língua Portuguesa. Outrora conhecida como “Última flor do Lácio, inculta e bela”!

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Será que alguém se incomoda tanto quanto eu ao ouvir os “jornalistas” da Globo e do SportTV quando ficam “conversando” antes dos jogos da copa do mundo? (Não vejo motivo algum para usar maiúsculas!). Eu fico pensando: em que manual se encontra a norma de que esse profissional tem que falar histericamente gritando, como se o teor de sua fala fosse a mais subida e importante ideia que um ser humano pudesse almejar conhecer. E a banalidade do fato é tão patética. Por falar em patético, o que foram as apresentações de cenas urbanas de Seul, Buenos Aires e Reiquiavique (em bom Português!). Os repórteres, coitados, com cara de paisagem, anunciavam a esfuziante alegria da população de cada uma dessas cidades por conta da abertura da tal de copa do mundo. Patético: não havia ninguém atrás dos coitados dos repórteres. Taí uma profissão que me faria pensar duas vezes ao receber convite para trabalhar nesse tipo de “empresa”. Uma pena.

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Pronto. Destilei o meu sarcasmo. O final de semana há de ser tranquilo!

De finais e de começos – conclusão

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Pois muito bem. Pode ser que a leitura dos trechos que aqui divulguei não tenha sido suficiente para entender a minha proposta de leitura. Dizendo melhor, talvez os trechos não tenham colaborado para esse fim, em lugar da leitura que pode ter sido proveitosa. Num ou outro caso, só me resta dizer que, para não fugir de um “chavão”, a intenção foi a melhor possível.

Neste primeiro mês de aposentadoria, confesso minha alegria de ter conseguido estabelecer um ritmo de leitura que há muito não desfrutava com tanto prazer. O fato de não ter que ler a não ser pelo prazer de ler, ele mesmo, sem mais “que tais”, é algo que não pode ser colocado em palavras, sob pena de perder a espessura e a profundidade do sentido da experiência. Nesta linha de raciocínio, devo fazer outra confissão: a gratificação de experimentar na leitura das páginas que se sucedem sob meu olhar nesses dias – acima de tudo, aquelas que constituem os três volumes de Rodrigo Gurgel (estou no começo do terceiro livro dele, mas tenho a certeza de que o prazer e a gratificação vão se repetir positivamente). Esta gratificação se deve à constatação de que penso quase do mesmo modo que o autor destes livros, no que concerne ao conceito e à prática da crítica literária. Aqui vou deixar uma lacuna, em forma de lacuna: leiam os livros do Rodrigo Gurgel para saber o que se entende de fato – ele e eu neste time – por “crítica literária”. Este prazer, para blaguear a peça publicitária: “não tem preço”!

Isto posto, cabe-me apenas concluir. A diferença entre a intenção e o gesto, mesmo aqui, neste meu exercício, vai se manter incomensurável. Não posso controlar a reação e o entendimento dos olhos que me acompanham. Os dois começos apontam para um tópico recorrente na Literatura Ocidental: intertextualidade. O ponto de fuga assenta-se na distância cronológica entre os dois romances. Determinado este pressuposto, faz-se plausível perguntar: é fato que Graciliano Ramos leu Machado de Assis, a ponto de deixar indelével em sua fabulação o impacto da leitura da obra do mulato do Cosme Velho? As similaridades entre os dois capítulos, se não atestam, também não impedem tal ilação. Ainda que a perspectiva seja diferente, como eu aponto – Graciliano, para o enfoque coletivo, social e Machado para o enfoque individual, subjetivo – acabam por fazer o mesmo percurso discursivo: o relato de desenvolvimento de uma proposta natimorta. Ela é assim porque tanto num caso como noutro, os narradores que anunciam suas propostas não são capazes de realizá-la, de cumpri-la. Cada um, a seu modo, em certa medida, acabam por atestar seu próprio fracasso. Este tema, quer me parecer, é mais recorrente em Machado. Por isso mesmo, penso, com veemência – porque, a fim e ao cabo, a gente não é capaz de ter certeza de nada –, que a pergunta que fiz como provocação de meu exercício de leitura é plausível, faz sentido.

Por outro lado, os finais, ambos considerados no âmbito da obra de um mesmo autor, apontam não mais para uma tematização do fracasso, como aventado antes. Neste caso, os finais reafirmam o caráter sarcástico do humor melancólico e um tanto sombrio de Eça de Queiroz. Ao lado desta característica, desponta outra, talvez um tanto mais implícita, coisa que não me convence: a consideração da hipocrisia como constituinte da identidade cultural lusitana sobretudo quando considerada em sua conformação finissecular. Carlos da Maia e Amaro personificam, cada um a seu modo, obedecendo os ditames protocolares da classe social a que pertencem o efeito do exercício da hipocrisia como conditio sine qua non para certo “sucesso”, ainda que passível de questionamento e, até, condenação. Num e noutro caso, a “ata finda” de minha proposta se assenta na possibilidade de se fazer Literatura Comparada no âmbito de uma mesma língua – impossibilidade que marca os primeiros passos dessa nova prática hermenêutica dos/nos estudos literários na/da virada do século 19 para o 20. A outra possibilidade é a de fazer Literatura Comparada entre obras de um mesmo autor. Penso que, nos dois casos, o exercício da leitura e a construção do sentido com participação definidora do leitor são as práticas comparatistas que se especificam, se desdobram, se desenvolvem em propostas cada vez mais abrangentes e flexíveis, numa tentativa – acredito que mais uma – de acompanhar a mesma volatilidade deste fenômeno que não se contém nem pode ser contido: a Literatura!

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De finais e de começos IIB

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Nesse passo final da apresentação dos elementos que operacionalizam o meu exercício de leitura, cabe apresentar o trecho final de O crime do padre Amaro, também do Eça de Queiroz. Este trecho mostra algumas personagens do romance, entre elas o próprio Amaro, ao pé da estátua de Camões. O mesmo local que aparece relatado ao final de Os Maias. De cara, não há dúvida, considerando-se p enredo de ambas as narrativas, que não se trata de coincidência, ou de “aproveitamento” de cena, por qualquer motivo. De fato, na economia ficcional de ambos os relatos, tal “detalhes” apenas e somente afirma e confirma o verniz irônico do narrador, o que, ao fim e ao cabo, confirma a ideia de que o autor, no seu afã de apresentar/criticar o comportamento social português – de fato, sua biografia e muitos estudos sobre sua obra confirmam esta hipótese – acaba por fazê-lo apresentando ao leitor cenas e comportamentos e detalhes que sustentem suas hipóteses sobre, entre tantas possibilidades, a hipocrisia que acomete boa parte da população lusitana. Neste caso, em específico, acredito eu, a hipocrisia como componente comportamental do clero: tema recorrente na ficção do autor. Fico por aqui, para não “entregar o ouro ao bandido”, acreditando que só ganha quem quiser o romance. Acredite se quiser!

“O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, até quase junto das grades que cercam a estátua de Luís de Camões:

— Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, não lhes dê isso cuidado! É possível que haja aí um ou dois esturrados que se queixem, digam tolices sobre a decadência de Portugal, e que estamos num marasmo, e que vamos caindo no embrutecimento, e que isto assim não pode durar dez anos, etc., etc. Baboseiras!…

Tinham-se encostado quase às grades da estátua, e tomando uma atitude de confiança:

— A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos… E o que vou a dizer não é para lisonje houver sacerdotes respeitáveis como vossas senhorias, Portugal há de manter com dignidade o seu lugar na Europa! Porque a fé, meus senhores, é a base da ordem!

— Sem dúvida, senhor conde, sem dúvida, disseram com força os dois sacerdotes.

— Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animação, que prosperidade!

E com um grande gesto mostrava-lhes o Largo do Loreto, que àquela hora, num fim de tarde serena, concentrava a vida da cidade. Tipoias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a palidez clorótica duma degeneração de raça; nalguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos de praça gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o símbolo de agriculturas atrasadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguês enfastiado lia nos cartazes o anúncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operários havia como a personificação das indústrias moribundas… E todo este mundo decrépito se movia lentamente, sob um céu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a lotaria e a batota pública, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das pequenas novidades: e iam, num vagar madraço. Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime.

— Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento… Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa! E o homem de Estado, os dois homens de religião, todos três em linha, junto às grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu país, — ali ao pé daquele pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, ereto e nobre, com os seus largos ombros de cavaleiro forte, a epopeia sobre o coração, a espada firme, cercado dos cronistas e dos poetas heroicos da antiga pátria — pátria para sempre passada, memória quase perdida!”

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