Vozes lusitanas

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Dos efeitos imediatos da aposentadoria, o mais intenso tem sido fruto de uma prática diuturna dos 31 anos de docência – ainda que tendo conhecido altos e baixos: a leitura. Sempre comentei com meus alunos que um professor de literatura não “ensina” literatura e que eles não “aprendem” literatura, pelo simples fato de que Literatura se lê. Ao fim e ao cabo, continuo convicto de que, na verdade, o professor de Literatura ensina meios de operacionalização de instrumental necessário para a abordagem mais aproveitável possível do fenômeno ao qual se convencionou chamar de… Literatura! Claro está que a única prática viável para o sucesso desta empreitada é a própria leitura, a leitura da Literatura ela mesma. A tal de teoria é simples e somente uma consequência, um a mais, um depois… Digo isso por que nesses últimos dias, desde que a tal aposentadoria “saiu”, tenho lido bastante, com frequência e regularidade constante. Tenho descoberto escritores novos e, para mim, desconhecidos. Isso é bom. Dentre esses escritores, está um poeta: Daniel Faria. Português, já falecido – morreu jovem – este poeta era monge beneditino. Sua poesia não tem muita “graça”. Digo isso, por conta de certa dificuldade no encontrar o ritmo poético que marca a produção do rapaz. Uma vez encontrada esta chave de leitura, sua poesia flui, de maneira incontestavelmente leve e suave, creio que, por conta de seu “pano de fundo”: certo senso de espiritualidade que se esvai de seus versos. Para além disso, a poesia de Daniel Faria fala do ato de fazer poesia, como no poema abaixo:

Examinemos também a escrita

O solo negro deixado pelo fogo

O mecanismo semelhante às queimadas

Deixando a terra arável na sua devastação.

Tudo isto interessa para retomarmos a pedra onde está escrita

A palavra nova

A pedra onde corre o sangue.

Enquanto perguntas pelas dez palavras.

Põe a boca na palavra líquida

Examina o coração de carne em vez da escrita antiga

O verbo onde jorra a palavra incessante

 

Há dentro dela uma pedra nupcial

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Não se pode negar a tonalidade erótica, direcionada para a experiência cabal do erotismo vinculado à espiritualidade: o êxtase. Longe está de se aproximar a poesia de Daniel Faria à de Santa Teresa D’Ávila. Sem demérito de nenhum dos dois, mas cada um a seu modo transitam por estas sendas que levaram a espanhola a protagonizar tal experiência de maneira definitiva e definidora. A sutil referência ao binômio testamental – novo e velho – acompanha a mesma delicadeza do poeta ao palmilhar o universo infindável das palavras, “em estado de dicionário” (creio que a citação está literalmente correta) como disse Drummond. Em conversa com um amigo, lógico, o Gerson, comentamos que Daniel Faria e Herberto Helder são dois poetas um tanto “difíceis”. A poesia dos dois me lembra a de João Cabral de Melo Neto, não por similaridade, evidentemente, muito mais pelo “efeito” que em mim causa! A experiência de vislumbrar as multifacetadas e inumeráveis manifestações da beleza, por mais abstrata que venha a ser! O segundo um anto mais hermético que o primeiro. Ambos feitores do que ao migo chamou de uma poesia seca. No caso de Daniel Faria, esta secura viria da articulação de tópicos, digamos, doutrinários, oque faz a penetração em seu universo simbólico, por tanto, poético, um tanto mais facilitada. Quando se lê Herberto Helder, talvez, o enfoque historiográfico de seu aparato discursivo, talvez também facilite esta mesma penetração. Num e noutro caso, vale a pena a leitura. Como não quis, nem de longe, desenvolver aqui uma análise de poesia, fica o convite, ainda que implícito!

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3 comentários sobre “Vozes lusitanas

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