Recordar é viver

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Entre 2008 e 2010 vivi em Zagreb, capital da Croácia. Foram dois anos como Leitor de Português na Universidade de Zagreb. Para além das atividades acadêmicas, como fui o primeiro Leitor Brasileiro (havia um leitorado português, mantido pelo Instituto Camões), mantive estreita relação, não apenas profissional com o corpo consular sediado na Embaixada do Brasil naquela cidade. Uma relação muito proveitosa que me rendeu momentos mais que gratificantes. Um deles foi o da conferência que fiz em comemoração dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Tal conferência, feita a convite do senhor embaixador, foi uma delícia. Para começar a semana, publico aqui o roteiro que utilizei então…

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Boa tarde

Agradecimentos:

– ao Senhor Embaixador, Haroldo Teixeira Valadão Filho, pela acolhida, pelo apoio e pelo incentivo que me tem dado;

– à senhora Helga Dworshck Arantes, vice-cônsul responsável pelo setor cultural da embaixada do Brasil em Zagreb e à Ivana Kasunić, assistente do mesmo setor, pelo convite que me foi feito e pela oportunidade de falar aqui.

Uma alegria enorme de estar aqui, grande satisfação em estar vivendo essa experiência muito desejada, muito prazer pela oportunidade de fazer esta conferência.

Três pontos importantes a considerar, a partir do pressuposto da comemoração dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil:

  1. a ideia de tomar o “evento” como “mote” para uma reflexão acerca das relações entre Literatura História, para dar continuidade a uma linha de investigação que venho perseguindo na Universidade, no Brasil;
  2. a ideia de celebrar um evento de fundamental importância para o início de um processo de “desenvolvimento” com todos os seus impasses, dificuldades e problemas, nas mais diversas perspectivas de abordagem;
  3. a reflexão acerca das relações entre Literatura e História, na abordagem de um evento de tamanha envergadura, como exercício de releitura do texto cultural que a Histórias das relações entre Brasil e Portugal – desde o descobrimento até os dias atuais – enseja e mantém

Para começar, a leitura do segundo capítulo de O guarani, romance de José de Alencar, publicado em 1872, 64 anos depois da chegada da família real ao Brasil.

O trecho do romance denuncia e preconiza, em certa medida, o desenho da “paisagem” que vai emoldurar o evento que se comemora este ano. De certa maneira, José de Alencar, ainda que não o tenha desejado conscientemente, para a finalidade a que me proponho aqui, acaba por fixar o pano de fundo do evento chamado “chegada”. Sua descrição e comentários, a partir do discurso do narrador do romance, já denotam alguns traços de caráter “cultural” que vão estar presentes em território brasileiro, a partir da chegada da família real. É bom notar que o romance, publicado já na segunda metade do século 19, narra o que José de Alencar imaginou se passar na segunda metade do século 16. Esse dado abre uma oportunidade de discussão das relações entre Literatura e História, com base em argumentação teórico-crítica da Literatura Comparada que vou, por questão de coerência, deixar de lado, por agora. No entanto, quero reafirmar minha convicção de que esse trecho do romance é factível de ser tomado como objeto de desejo da leitura que faço do evento aqui celebrado, na perspectiva da História da Literatura Brasileira. José de Alencar produz um recuo no tempo da História para, na leitura que proponho, redesenhar a “paisagem” que o quadro histórico da “chegada” seja pintado.

Maneiras

Princípios

Ideologia

Ética

Costumes

de Portugal, metrópole, trasladados para a Colônia (Reino,

depois da “chegada”)

Faz 201 anos que a 29 de novembro a família real partia de maneira um tanto atabalhoada, de acordo com os registros da História “oficial”, de Lisboa.

Em 22 de janeiro de 2008, comemorou-se a chegada da família real em Salvador, sua primeira escala, eu diria acidental (quase como o próprio “descobrimento”!).

Em 7 de março de 2008, comemorou-se a chegada de D. João VI e sua família ao Rio de Janeiro

200 anos depois, um detalhe pode chamar a atenção e ensejar toda uma série de elucubrações, sustentando hipóteses e orientando leituras nas mais diversas perspectivas do fato histórico que foi a chegada. Afinal de contas. A família real mudou-se ou fugiu? Uma questão semântica, apontada de maneira inteligente, perspicaz e, eu diria, definitiva, por Laurentino Gomes, em seu livro 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. (LER TRECHO SELECIONADO DA PÁGINA 21, MARCADOR COR-DE-ROSA)

Contexto conjuntural da chegada

– invasão napoleônica em Portugal

– necessidade de manter a coroa

– necessidade de constatar, in loco, a situação da maior colônia portuguesa além-mar

– à parte as caricaturas de costume:      – os piolhos e as cabeças raspadas

– o temperamento impulsivo e sanguíneo da

rainha

– a separação do casal real

– os frangos e o temperamento melancólico do rei

– a loucura de D. Maria I

– a importância da chegada: – abertura dos portos

para a Inglaterra e demais

nações importantes na rota comercial pelo mar

(a carta régia de 28 de janeiro

– a criação – do Banco do Brasil

– Jardim Botânico

– da Biblioteca Real

– a fundação da Escola Médica Cirúrgica de Salvador

– a Imprensa Régia

Dois aspectos ressaltam o que está envolvido na chegada: a intriga e a conjuntura: D. João VI foi, naquele momento, o único rei que escapou ao controle de Napoleão, fato pouco destacado que faz mudar toda a perspectiva de leitura do evento que foi a chegada.

Importante dizer que entre a chegada,. Durante a estada da família real em solo brasileiro até a sua partida, gestou-se o que hoje conhecemos como República, o que não pouco!!!

Um pouco desse contexto pderia ter sido melhor aproveitado num romance (até) interessante intitulado O cozinheiro do Rei D. João VI, de autoria de Hélio Loureiro, badalado chef português. Valem a pena, no livro, duas coisas: as receitas e a oportunidade vislumbrada de apresentar o mesmo evento, sem a marca da caricatura, mas pela perspectiva “interna” dele. Perdida porque o autor não soube aproveitar os dados do evento histórico, por conta da falibilidade de sua competência narrativo-ficcional. O livro pinta, no entanto, um outro quadro de referências que aproxima, mais uma vez, Literatura e História. Vale como referência curiosa.

Indubitavelmente, as conseqüências, tanto positivas, quanto negativas da vinda da família real para o Brasil são inumeráveis. No entanto, pela própria Literatura Brasileira, pode-se constatar alguns detalhes destas conseqüências.

Exemplo disso é o romance de Machado de Assis, Dom casmurro. Dentre tantas perspectivas possíveis de leitura, quero destacar aqui a composição da família de Bento Santiago, protagonista e narrador do romance. O intuito é o de constatar que o modelo familiar apresentado à, então colônia, quando da chegada de D. João VI e seu séquito ao Rio de Janeiro, manteve algumas de suas características, ao longo da História do Brasil, passando de Império a República.

Maneiras

Princípios

Ideologia

Ética

Costumes

de Portugal, metrópole, desenvolvidos e aclimatados ao Império

Para ilustrar o que estou dizendo, leio três capítulos do referido romance, os capítulos: V – O agregado, VI – Tio Cosme e VII – D. Glória.

A viuvez de Dona Glória e a manutenção de sua personalidade, a figura do agregado e o Tio solteirão, são três personagens sociologicamente tipificadas pela Teoria da Literatura, em associação com o modus vivendi da sociedade imperial. Muito do que vai mostrado aí, no romance, a partir desse esboço de figura que Bentinho faz pode ser considerado como uma herança sócio-cultural do comportamento que foi modificado, na colônia, com a chegada da família imperial.

É fato que Machado de Assis, talvez, não tenha tido esta intuição e não a tenha perseguido, na composição de seu romance. No entanto, a finalidade da referência a este texto, aqui, é apenas a de ilustrar como a família real deixou suas marcas, em todos os quadrantes da vida social e cultural da então colônia portuguesa

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