Outra mulher: Ana Teresa

download (1)

Em 1998, defendi minha dissertação de Mestrado na Unb. Era Setembro. Minha mãe e duas tias foram comigo, assistiram, me aplaudiram. Fiquei orgulhoso. O trabalho versava sobre a proposta de um conceito teórico da/para a Literatura: romance intimista. A partir da leitura de cinco romances de Clarice Lispector e cinco de Lya Luft, tentei esboçar o tal conceito que. A meu ver, serviria para diferenciar a ficção intimista dos romances escritos em primeira pessoa – conditio sine qua non indevida – e aqueles que tinham conotação autobiográfica. Havia, na proposta que esbocei, a necessidade de que uma categoria em específico, a de narrador, desse o tom da narrativa. Numa síntese bastante superficial, o romance intimista era o que fazia com a intimidade (Da voz narrativa? Do autor?) se contasse a si mesma, se narrasse a si mesma. Alguma coisa que beirava a superação de uma experiência estética marcante, a do nouveau roman francês. A dissertação recebeu elogios por seu conteúdo e por sua forma, sobretudo por cota da introdução, considerada, unanimemente pela banca como exemplar. Outro elogio foi o fato de a mesma dissertação ter sido desenvolvida e concluída em tempo hábil, regimental de 24 meses. Fiquei orgulhoso. Esse orgulho voltou ontem, quando terminei a leitura de um romance português, de autoria de Ana Teresa Pereira. Trata-se de Karen (São Paulo, Todavia, 2018). Um romance enxuto. Enxuto e transparente. Um exemplo acabado do que tentei apresentar como conceito operacional dos/para os estudos literários: o de romance intimista. Diferentemente do livro de Isabel Figueiredo (A gorda) que já foi comentado aqui, não há, no romance de Ana Teresa, nenhum indício de que matéria autobiográfica tenha qualquer tipo de impacto sobre a construção narrativa de sua ficção. Isso não, obviamente um problema. Faço o destaque, para aproximar esta narrativa com a outra. Pois bem, Karen, o nome do romance, é o nome da protagonista que sofre um acidente e relata o processo de recuperação de memória perdida no acidente. O convívio com o marido e com outras pessoas é matéria que vai desenhando o perímetro das veredas mnemônicas da protagonista. Aos poucos, Karen vai reconhecendo o mundo, a vida, a realidade, os elementos que compõem sua existência anterior ao acidente. Este, por sua vez, não é descrito no romance. Ele aparece como parâmetro para as considerações que a protagonista faz sobre as suas descobertas ao longo do processo de recuperação de sua própria memória. O que me chamou a atenção, levando-me a considera-lo exemplo acabado de um romance intimista, é o fato de que a protagonista fala de si como se falasse de uma outra pessoa. É fato que, coloquialmente, os portugueses conversam entre si usando o nome próprio do interlocutor, em lugar de usar pronomes. Isso ocorre no romance. No entanto, tal ocorrência se reitera e se reitera, inumeravelmente, o que me fez desconfiar de que se tratava de outra coisa, muito além de um coloquialismo. Minha leitura leva à constatação de que esta forma de narrar, talvez oriunda dessa idiossincrasia linguística, tenha sido operacionalizada pela autora como instrumento e construção do discurso que reputo como intimista. Alegoricamente, na leitura que fiz, o espelho que, vez por outra, “aparece” no texto do relato ficcional, funciona como índice de concretização desse procedimento narrativo que consolida o caráter intimista do romance. Não conheço a autora. Este é o primeiro dela que leio. Numa da s orelhas do volume, leio: “nascida no Funchal, Portugal, Ana Teresa Pereira tem mais de duas dezenas de livros lançados. Sua obra – contos e romances – ostenta um profundo clima psicológico, referências a Henry James e ao cinema dos anos 1940-50. É a primeira mulher a receber o prêmio principal do Oceanos, o mais importante da literatura de língua portuguesa, Karen, é seu primeiro livro no Brasil.” Desta nota, interessa-me a informação que afirma a extensa produção literária da autora. O Dr. Google mostra, de fato, que ela já tem publicada “mais de duas dezenas de livros”. Pode parecer detalhe, informação superficial, sem importância ou efeito. Ao contrário, ela respalda, em certa medida, a minha constatação depois da leitura do romance. Pode ser que haja opinião diferente. Com toda certeza que há. Mas o que importa aqui é o implícito convite no apanhado de impressões de leitura que acabei de escrever. Aproveite, se quiser!

download

Anúncios

2 comentários sobre “Outra mulher: Ana Teresa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s