Duas vezes inocência

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Inocência. No dicionário encontramos o seguinte: “substantivo feminino – estado, caráter daquilo que é inocente; qualidade de quem é incapaz de praticar o mal; estado daquele que não é culpado de uma determinada falta ou crime; ingenuidade excessiva; ignorância; ignorância das coisas de amor; virgindade, donzelice”. Pois há uma gama espessa de sentidos a recobrir o vocábulo. Logo, a tal “inocência” pode assumir seu papel de processo, de atividade, de percepção, de ação. Talvez seja a circunstância o principal operador dos sentidos possíveis da “inocência”. Talvez seja o olhar de fora desta mesma circunstância. Numa ou noutra possibilidade, acredito que um filme pode dizer muito sobre as inumeráveis nuances semânticas que a inocência pode utilizar para ser explicitada e, por via de consequência, percebida. Dois exemplos plausíveis, dois filmes, são A época da inocência (Martin Scorcese, 1993) e Effie Gray (Richard Laxton, 2014). O primeiro é resultado de adaptação de romance homônimo de autoria de Edith Warton. Na verdade, o título poderia ser “a idade…, a era… o tempo…”. O sentido final seria o mesmo: a narrativa fílmica (não li o livro) relata o percurso afetivo/existencial de seu protagonista, interpretado pelo irretocavelmente impecável Daniel Day-Lewis. Já o segundo é a versão cinematográfica de um escândalo que teve lugar na Inglaterra vitoriana (finais do século 19). Ambos tocam em possíveis explicitações de sentido do que se conhece terminologicamente por inocência. No caso do filme de Scorcese – mais uma vez, como Alfred Hitchcock, ele faz uma ponta, se não me engano, como fotógrafo, no seu próprio filme. Ele aparece fazendo a foto e já está! –, Archer, a personagem de Daniel Day-Lewis, está noivo, quer casar logo, quando conhece a prima da noiva. Uma mulher divorciada que volta a uma Nova Iorque cheia de fricotes e códigos e protocolos e frescuras e… e… e… Como diria Nelson Rodrigues: é batata. Ele se apaixona, mas se vê enrascado nas artimanhas de convenções e chatices. Ele se casa, mas a chama da paixão não se apaga. Ao contrário, alimentada pela “inocência” do protagonista, segue incólume até um desfecho que não contradiz, mas não satisfaz a demanda de desejo. Archer se casa, tem cinco filhos, fica viúvo e quase cinquenta anos depois se Vê-se à frente do balcão do apartamento parisiense da Condessa Olenska, objeto de seu desejo vencido pelas formalidades e pela resignação. Mais não digo, para não tirar o prazer da constatação do que ocorre como grand finale. Note-se, entretanto, na apresentação dos créditos iniciais, a belíssima fotografia do desabrochar de flores diversas, que se apresenta numa alternância de cores, entre o vermelho e o amarelo, numa sobreposição de imagens que destaca um rendado bastante sugestivo. Alegoria mais eficaz e evidente não poderia haver. O segundo filme conta a história de Eufêmia (nome da personagem principal que recebe a alcunha de Effie, como é hábito entre os anglo-saxão. A moça, adolescente de beleza virginal – o que faz despertar desejos inconfessos comme d’habitude – que é desposada por um crítico de arte pra lá de esquisito. Filho único, rico, respeitado e solteirão convicto, o gajo é mantido por seu trabalho e pela fortuna dos pais que o bajulam, muito mais a mãe que o pai. O clima é estranhíssimo até que o casal viaja para o interior da Escócia e depois para Veneza. O “escândalo”, na verdade fruto de uma reviravolta social e jurídica – a época em que se passa a narrativa é praticamente a mesma que aparece no filme de Scorcese – fruto de um detalhe crucial no processo convencional ao qual se dá o nome de casamento. Uma vez mais, não digo palavra. Vou, de novo, conservar a possibilidade da agradavelmente sutil surpresa para quem quiser ver o filme.

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