De finais e de começos IIA

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Dando andamento ao meu exercício, passo a considerar o último capítulo de um romance caudaloso: Os Maias, do Eça de Queiroz. Lembro-me, ainda no tempo do mestrado, de uma discussão acerca da grafia do nome do escritor português: Queiroz, Queirós, Queiros ou Queiróz? Muita saliva, muita gritaria, argumentos os mais inusitados e NENHUMA conclusão. Afinal de contas, em que isso pesa quando se trata de ler a obra e não justificar o nome do home? Pois. Sempre optei pela grafia com “z”, sem acento. Parece-me mais elegante, mais sóbria e circunspecta; o que, ao fim e ao cabo, de mistura à verve sarcástica e melancólica do autor, conferem a seu nome um peso semântico que a mim me agrada. Punto i basta! O fragmento aqui apresentado ilustra um dos momentos finais do romance, quando seu protagonista volta a Lisboa, depois de dez anos de ausência. Não vou contar a história do romance para não tirar o gosto e o prazer do leitor que vai, espero, lê-lo. Pois bem. Carlos volta e sua impressão é um tanto inesperada. Quem leu o romance sabe do que estou a falar. O discurso sarcástico que o narrador desvela na voz das duas personagens envolvidas, Carlos e João da Ega, demonstra, talvez, a perspectiva niilista e melancólica com que o autor enxerga a sua cidade e, por extensão de sentido, o seu país. A galhofa se faz sutil e elegante, tanto na boca das personagens, quanto na descrição do narrador. Num e noutro aspectos, a cidade se revela como índice de atraso, de falta de progresso, como se o tempo tivesse parado e nada, absolutamente nada, tivesse mudado. Algo parecido pode ser lido nas páginas também finais e A cidade e as serras ou de “Civilização”, conto que de origem. Destaco este aspecto por conta da comparação que proponho com outro texto do mesmo autor, mas isso já é assunto para oura postagem! Bom proveito: pra quem ler o romance!

“Pois tudo somado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa, simples, pacata, corredia, é infinitamente preferível. Estavam no Loreto; e Carlos parara, olhando, reentrando na intimidade daquele velho coração da capital. Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brazões eclesiásticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel Aliance conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas; três varinas, de canastra à cabeça, meneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havaneza, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando.

– Isto é horrível quando se vem de fora! exclamou Carlos. Não é a cidade, é a gente. Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada!…

– Todavia Lisboa faz diferença, afirmou Ega, muito sério. Oh, faz muita diferença! Hás-de ver a Avenida…

Antes do Ramalhete vamos dar uma volta à Avenida.”

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