De finais e de começos IIB

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Nesse passo final da apresentação dos elementos que operacionalizam o meu exercício de leitura, cabe apresentar o trecho final de O crime do padre Amaro, também do Eça de Queiroz. Este trecho mostra algumas personagens do romance, entre elas o próprio Amaro, ao pé da estátua de Camões. O mesmo local que aparece relatado ao final de Os Maias. De cara, não há dúvida, considerando-se p enredo de ambas as narrativas, que não se trata de coincidência, ou de “aproveitamento” de cena, por qualquer motivo. De fato, na economia ficcional de ambos os relatos, tal “detalhes” apenas e somente afirma e confirma o verniz irônico do narrador, o que, ao fim e ao cabo, confirma a ideia de que o autor, no seu afã de apresentar/criticar o comportamento social português – de fato, sua biografia e muitos estudos sobre sua obra confirmam esta hipótese – acaba por fazê-lo apresentando ao leitor cenas e comportamentos e detalhes que sustentem suas hipóteses sobre, entre tantas possibilidades, a hipocrisia que acomete boa parte da população lusitana. Neste caso, em específico, acredito eu, a hipocrisia como componente comportamental do clero: tema recorrente na ficção do autor. Fico por aqui, para não “entregar o ouro ao bandido”, acreditando que só ganha quem quiser o romance. Acredite se quiser!

“O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, até quase junto das grades que cercam a estátua de Luís de Camões:

— Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, não lhes dê isso cuidado! É possível que haja aí um ou dois esturrados que se queixem, digam tolices sobre a decadência de Portugal, e que estamos num marasmo, e que vamos caindo no embrutecimento, e que isto assim não pode durar dez anos, etc., etc. Baboseiras!…

Tinham-se encostado quase às grades da estátua, e tomando uma atitude de confiança:

— A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos… E o que vou a dizer não é para lisonje houver sacerdotes respeitáveis como vossas senhorias, Portugal há de manter com dignidade o seu lugar na Europa! Porque a fé, meus senhores, é a base da ordem!

— Sem dúvida, senhor conde, sem dúvida, disseram com força os dois sacerdotes.

— Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animação, que prosperidade!

E com um grande gesto mostrava-lhes o Largo do Loreto, que àquela hora, num fim de tarde serena, concentrava a vida da cidade. Tipoias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a palidez clorótica duma degeneração de raça; nalguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos de praça gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o símbolo de agriculturas atrasadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguês enfastiado lia nos cartazes o anúncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operários havia como a personificação das indústrias moribundas… E todo este mundo decrépito se movia lentamente, sob um céu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a lotaria e a batota pública, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das pequenas novidades: e iam, num vagar madraço. Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime.

— Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento… Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa! E o homem de Estado, os dois homens de religião, todos três em linha, junto às grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu país, — ali ao pé daquele pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, ereto e nobre, com os seus largos ombros de cavaleiro forte, a epopeia sobre o coração, a espada firme, cercado dos cronistas e dos poetas heroicos da antiga pátria — pátria para sempre passada, memória quase perdida!”

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