De finais e de começos – conclusão

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Pois muito bem. Pode ser que a leitura dos trechos que aqui divulguei não tenha sido suficiente para entender a minha proposta de leitura. Dizendo melhor, talvez os trechos não tenham colaborado para esse fim, em lugar da leitura que pode ter sido proveitosa. Num ou outro caso, só me resta dizer que, para não fugir de um “chavão”, a intenção foi a melhor possível.

Neste primeiro mês de aposentadoria, confesso minha alegria de ter conseguido estabelecer um ritmo de leitura que há muito não desfrutava com tanto prazer. O fato de não ter que ler a não ser pelo prazer de ler, ele mesmo, sem mais “que tais”, é algo que não pode ser colocado em palavras, sob pena de perder a espessura e a profundidade do sentido da experiência. Nesta linha de raciocínio, devo fazer outra confissão: a gratificação de experimentar na leitura das páginas que se sucedem sob meu olhar nesses dias – acima de tudo, aquelas que constituem os três volumes de Rodrigo Gurgel (estou no começo do terceiro livro dele, mas tenho a certeza de que o prazer e a gratificação vão se repetir positivamente). Esta gratificação se deve à constatação de que penso quase do mesmo modo que o autor destes livros, no que concerne ao conceito e à prática da crítica literária. Aqui vou deixar uma lacuna, em forma de lacuna: leiam os livros do Rodrigo Gurgel para saber o que se entende de fato – ele e eu neste time – por “crítica literária”. Este prazer, para blaguear a peça publicitária: “não tem preço”!

Isto posto, cabe-me apenas concluir. A diferença entre a intenção e o gesto, mesmo aqui, neste meu exercício, vai se manter incomensurável. Não posso controlar a reação e o entendimento dos olhos que me acompanham. Os dois começos apontam para um tópico recorrente na Literatura Ocidental: intertextualidade. O ponto de fuga assenta-se na distância cronológica entre os dois romances. Determinado este pressuposto, faz-se plausível perguntar: é fato que Graciliano Ramos leu Machado de Assis, a ponto de deixar indelével em sua fabulação o impacto da leitura da obra do mulato do Cosme Velho? As similaridades entre os dois capítulos, se não atestam, também não impedem tal ilação. Ainda que a perspectiva seja diferente, como eu aponto – Graciliano, para o enfoque coletivo, social e Machado para o enfoque individual, subjetivo – acabam por fazer o mesmo percurso discursivo: o relato de desenvolvimento de uma proposta natimorta. Ela é assim porque tanto num caso como noutro, os narradores que anunciam suas propostas não são capazes de realizá-la, de cumpri-la. Cada um, a seu modo, em certa medida, acabam por atestar seu próprio fracasso. Este tema, quer me parecer, é mais recorrente em Machado. Por isso mesmo, penso, com veemência – porque, a fim e ao cabo, a gente não é capaz de ter certeza de nada –, que a pergunta que fiz como provocação de meu exercício de leitura é plausível, faz sentido.

Por outro lado, os finais, ambos considerados no âmbito da obra de um mesmo autor, apontam não mais para uma tematização do fracasso, como aventado antes. Neste caso, os finais reafirmam o caráter sarcástico do humor melancólico e um tanto sombrio de Eça de Queiroz. Ao lado desta característica, desponta outra, talvez um tanto mais implícita, coisa que não me convence: a consideração da hipocrisia como constituinte da identidade cultural lusitana sobretudo quando considerada em sua conformação finissecular. Carlos da Maia e Amaro personificam, cada um a seu modo, obedecendo os ditames protocolares da classe social a que pertencem o efeito do exercício da hipocrisia como conditio sine qua non para certo “sucesso”, ainda que passível de questionamento e, até, condenação. Num e noutro caso, a “ata finda” de minha proposta se assenta na possibilidade de se fazer Literatura Comparada no âmbito de uma mesma língua – impossibilidade que marca os primeiros passos dessa nova prática hermenêutica dos/nos estudos literários na/da virada do século 19 para o 20. A outra possibilidade é a de fazer Literatura Comparada entre obras de um mesmo autor. Penso que, nos dois casos, o exercício da leitura e a construção do sentido com participação definidora do leitor são as práticas comparatistas que se especificam, se desdobram, se desenvolvem em propostas cada vez mais abrangentes e flexíveis, numa tentativa – acredito que mais uma – de acompanhar a mesma volatilidade deste fenômeno que não se contém nem pode ser contido: a Literatura!

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2 comentários sobre “De finais e de começos – conclusão

  1. Tirando prazer daquilo que sempre foi o seu objeto de desejo: ler por diletantismo puro e simples, embora continuando a “trabalhar” a despeito da aposentadoria. Só que agora como leitor e opinante apenas, sem ter que enfrentar o desinteresse e e a estultice de uma plateia. Bom, muito bom. Aproveite muito. Beijinho.

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