De coincidências e olhares

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Certa feita, num restaurante do Village, em Nova Iorque, o Lip’s, Ginger, uma das drag queens que desempenhavam a função de garçonetes, chegou-se a mim, antes de subir ao palco, e disse que eu era o Billy Joel dela. Ginger era responsável pelas quatro mesas que ocupavam o canto do salão em que eu estava. Durante o show, fez várias referências ao cantor e a mim. Foi uma noite agradável que ficou perdia em minha memória e em algumas fotos que já não sei onde andam… Este episódio não tem nada de ficcional. Nada nele me levou a escrever um romance – ainda duvido que tenha competência para tanto – e, mesmo assim, foi interessante. Leva a pensar se, de fato, existem coincidências. Não me vejo parecido com o cantor norte-americano, mas Ginger sim. E outro momento, durante um congresso no Rio de Janeiro, fiquei conversando com uma professora que eu conhecia. Eu já tinha estado com ela, já tinha sido a ela apresentado, mas ela, membro da “república dos phdeuses” naquela altura, não me reconhecia. Conversávamos animadamente, ainda que me sentisse incomodado com o tipo de perguntas que ela fazia. Não conseguia supor o porquê daquela curiosidade, dado que eu a conhecia e sabia que era uma pessoa sem a mínima importância para ela. O desconforto durou até o momento em que, por um movimento brusco, fiz virar o crachá que usava e que, até então, ocultava meu nome. Estupefata ela perguntou: “Você não é o João Gilberto Noll?”. E foi-se, como tinha aparecido. Num átimo. Ri a bandeiras despregadas, mas não consegui escutar a conferência do escritor gaúcho pois, ao chegar ao auditório, ao olhar para ele, lá embaixo, à mesa, vi a mim mesmo falando. Fiquei mais que encodado. Coincidência?

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Estas considerações servem para criar certo tipo de “pano de fundo” para alguns pitacos sobre um romance de Helder Macedo, intitulado Sem nome Lisboa, Presença, 2006). Encontrei-o em edição brasileira… “por acaso”, da última vez que entre na livraria Leitura, do BHShopping – coisa que não faço com frequência. O romance, “assenta-se” num detalhe fortuito: certa aparência facial, dois números trocados e uma ou duas letras trocadas. Parece pouco n[e? Mas para o escritor/professor português não é. Ele constrói uma trama (até) interessante sobre um sujeito que perdeu a namorada durante o ditadura salazarista e acaba por se encontrar com uma mulher, em outro país, no aeroporto que, na opinião dele, se parece muito com a namorada perdida. O detalhe dos números se refere à quase coincidência do ano de nascimento de ambas, ainda que sua namorada teria mais de 60 anos quando do encontro e a rapariga não tinha sequer 40 mal contados. Mas a troca dos números instigou a curiosidade do protagonista. Outra coisa era o nome da namorada e da moça no aeroporto: Bernardo ou Barnarda? (Se não cometo equívoco – estou com preguiça de consultar o livro…) A relação entre os dois envolve um amigo dela, homossexual, diplomata que faz uma parte um tanto confusa na trama. E a história se envolve nas tramas da memória, da fabulação e do fluxo de consciência. Tinha curiosidade de ler algum livro deste autor – sua obra é bastante ampla. Confesso que gostei, mas não ao ponto de colocá-lo em lugar de destaque em qualquer estante, não este romance. Já ouvi coisas boas a respeito de dois ou três outros, durante um outro confesso. Fato é que este romance prende a atenção do leitor por conta de suas reviravoltas que, ao fim e ao cabo, relatam situações contextualizadas no período mais escuro da cultura lusitana com suas perseguições, suas imposições e seus impedimentos. A trama de Helder Macedo é leve, chega a ser engraçado com pitadas de surpresa, aqui e ali. O romance agrada. A relação com a História de Portugal, faz deste romance um texto que instiga e questiona, sem deixar de enlevar o espírito em questões que, ainda que de raspão, tocam a Psicanálise, respaldando leitura de afetos e intimidades que, por vezes, foram sufocadas pela nuvem salazarista. O próprio desfecho remete, em certa medida, ao horizonte mais aberto e esperançoso que se espraia sobre a península prenunciando tempos melhores… Ou piores, se a chave de leitura levar à porta da ironia e da derrisão, no que diz respeito à História em/de Portugal. Vale a pena a leitura.

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3 comentários sobre “De coincidências e olhares

  1. O nome do autor é Herberto Helder Macedo? Parece interessante o romance, principalmente para quem não acredita em coincidências, como eu. Quando conseguir terminar os tantos que você deixou comigo, que sabe lerei? Grata pela sinopse instigante. Beijinho.

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