Surpresas virtuais

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Judy Garland foi encontrada morta em seu apartamento londrino, vítima de overdose. Ela já era uma estrela do cinema e da música. Sua morte causou comoção. Ayrton Senna, depois de um acidente durante uma corrida veio a falecer. Histeria coletiva no Brasil. Um jogador de futebol cumpre pena por ter participado do assassinado de uma namorada e da ocultação de seu cadáver. Quem se lembra dela? Elton John torna pública sua personalidade homoerótica e pouco tempo depois é condecorado com o título de “Sir”, uma honraria superior nas terras de Elizabeth II. Jorge Amado perseguiu com afinco e devoção o prêmio Nobel. Morreu sem recebê-lo. Mário de Sá-Carneiro se veste a rigor, ordena o jantar no quarto do Hôtel des Artistes, em Paris, onde era seu costume se hospedar e matou-se, deixando para nós uma obra estupenda. A menina desaparece e, dias depois, seu corpo é encontrado numa beira de estrada. A televisão faz um drama e arrasta a “novela”, supostamente, em busca de uma explicação. Um bando de boçais que, por infelicidade, nasceram em Pindorama, colocando-se no papel de heróis da imbecilidade, transformam mulheres russas em títeres de sua imbecilidade machista, atrasada, rasteira, vulgar, triste, patética… Tudo isso acontece. Tudo isso pode acontecer. Tudo isso é coisa que se dá no dia a dia de qualquer um na face do planeta. O que diferencia estas coisas entre si e em relação às inumeráveis outras coisas que podem vir a aparecer, a acontecer, a virar notícia de jornal e/ou de televisão é a ênfase que se dá, a versão dos fatos, a “entonação” do discurso que relata os fatos. Ou seja, em uma palavra, depende de quem fala/conta/mostra/comenta/reporta. Assim é com a Literatura.

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Sinais gráficos como a decorar o parágrafo e às vezes, desempenhando o papel de suspensão do discurso. Palavras do corriqueiro da língua, criando clima de ironia, humor no texto e no desempenho de certas personagens. A numeração dos capítulos que, a partir de certa altura, começa a voltar para trás, não chegando ao início da contagem dos capítulos. Personagens cujo nome é constituído de siglas sem significação explícita ou, até mesmo, necessária. Narração que escapa do lugar comum da sequência episódica que se alterna entre os padrões cronológico e psicológico de categoria narrativa constitutiva: o tempo. Diálogos curtíssimos e estrategicamente colocados em momentos, digamos, fundamentais de cada passo da narrativa ficcional que se estende debaixo dos olhos de quem lê. Apropriação intertextual e interdiscursiva com um poeta, digamos, essencial da Literatura Brasileira: Drummond. E, para não dizer que não falei de flores, o tratamento delicado, contundente e revelador do homoerotismo em diapasão poético de intensidade inquestionável. Pois bem, tudo isso a gente pode encontrar no livro de Victor Heringer, O amor dos homens avulsos (Companhia das Letras, 2016). Na página da editora, encontra-se o seguinte parágrafo (os números entre parênteses foram colocados por mim, para organizar os comentários seguintes): “No calor de um subúrbio carioca, um garoto cresce em meio a partidas de futebol, conversas sobre terreiros e o passado de seu pai, um médico na década de 1970.(1) Na adolescência, ele recebe em casa um menino apadrinhado de seu pai, que morre tempos depois num episódio de agressão. O garoto cresce e esse passado o assombra diariamente, ditando os rumos de sua vida.(2) Essa história, aparentemente banal, e desenvolvida com maestria ficcional e grandeza quase machadiana (3) por Victor Heringer. Dono de uma prosa fluente e maleável, além de uma visão derrisória da vida, o autor demonstra pleno domínio na construção de cenas e personagens. E emociona o leitor com sua delicada percepção da realidade. (4)

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Vamos às notas. (1): O clima que cerca a narração, no que concerne a figura do pai, remete aos famigerados “anos de chumbo” criando espaço para ilações que envolvem o pai, a mãe, o menino e o narrador, como títeres da História, no Brasil daquele período. A relação que se estabelece entre esta referência e o “intimismo” desvelado, fica por conta da natureza da relação que se estabelece entre o narrador e o menino que aparece em sua casa. (2) O passado a que a nota se refere, na leitura que eu fiz do romance – é possível chamar este livro por este nome, dadas as idiossincrasias de minha formação acadêmica –, assenta-se na troca de afetos que ocorre entre o narrador e o menino e toda a sequência de momentos que marcam, tanto a vida do narrador, quanto a sua relação com este mesmo menino. Neste aspecto, é possível aproximar esta ficção – não posso sequer ousar a pensar em ilações de natureza autobiográfica pois conheço pouquíssimo, quase nada da vida do autor – a um romance de formação, outra categoria considerada importante e necessária para a tal formação acadêmica aqui referida… (3) Isso é um exagero editorial. Eu diria que se trata de chamariz para a venda do livro, dado que o autor, muito jovem falece inesperadamente quando justamente desponta no cenário mercadológico da Literatura no Brasil. Fato é que o gajo escreve bem, mas não chega perto, ao fim e ao cabo, do romancista carioca do final do dezenove, quem sabe, apenas o vislumbra como “influência” – considerado aqui os parâmetros da Literatura Comparada. (4) O realismo da escrita de Victor é mesmo comovente. O toque pessoal na reconstrução de cenários, que poderiam parecer desgastados pelo uso repetido, é mesmo notável. Intriga-me a maneira como ele constrói seu discurso homoafetivo. Intriga-me pela delicadeza e pelo quase cinismo, fruto do ceticismo que, a meu ver, marca de forma definitiva o seu discurso. A leitura do livro me agradou e, para mim, marcou a primeira experiência com ebook. Comprei, confesso, desconfiado, mas li todo, de cabo a rabo. E gostei! Pasmem… gostei de verdade…

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5 comentários sobre “Surpresas virtuais

  1. Fiquei curiosa… este livro parece bem interessante…. Eu ainda não tive a experiência do e-book… confesso que resisto um pouco. Gosto mesmo é de tocar e virar as páginas… bjs

  2. Bia, vale a pena a experiência. Também eu, ainda resisto a este modismo. Sou como você: o prazer do tato não é substituível. Junte-se o olfato e a visão… hum… um paraíso. No entanto, recomendo a leitura, nem que seja apenas por curiosidade… o que já é muio neste caso! Abraço

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