De finais e de começos IIA

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Dando andamento ao meu exercício, passo a considerar o último capítulo de um romance caudaloso: Os Maias, do Eça de Queiroz. Lembro-me, ainda no tempo do mestrado, de uma discussão acerca da grafia do nome do escritor português: Queiroz, Queirós, Queiros ou Queiróz? Muita saliva, muita gritaria, argumentos os mais inusitados e NENHUMA conclusão. Afinal de contas, em que isso pesa quando se trata de ler a obra e não justificar o nome do home? Pois. Sempre optei pela grafia com “z”, sem acento. Parece-me mais elegante, mais sóbria e circunspecta; o que, ao fim e ao cabo, de mistura à verve sarcástica e melancólica do autor, conferem a seu nome um peso semântico que a mim me agrada. Punto i basta! O fragmento aqui apresentado ilustra um dos momentos finais do romance, quando seu protagonista volta a Lisboa, depois de dez anos de ausência. Não vou contar a história do romance para não tirar o gosto e o prazer do leitor que vai, espero, lê-lo. Pois bem. Carlos volta e sua impressão é um tanto inesperada. Quem leu o romance sabe do que estou a falar. O discurso sarcástico que o narrador desvela na voz das duas personagens envolvidas, Carlos e João da Ega, demonstra, talvez, a perspectiva niilista e melancólica com que o autor enxerga a sua cidade e, por extensão de sentido, o seu país. A galhofa se faz sutil e elegante, tanto na boca das personagens, quanto na descrição do narrador. Num e noutro aspectos, a cidade se revela como índice de atraso, de falta de progresso, como se o tempo tivesse parado e nada, absolutamente nada, tivesse mudado. Algo parecido pode ser lido nas páginas também finais e A cidade e as serras ou de “Civilização”, conto que de origem. Destaco este aspecto por conta da comparação que proponho com outro texto do mesmo autor, mas isso já é assunto para oura postagem! Bom proveito: pra quem ler o romance!

“Pois tudo somado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa, simples, pacata, corredia, é infinitamente preferível. Estavam no Loreto; e Carlos parara, olhando, reentrando na intimidade daquele velho coração da capital. Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brazões eclesiásticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel Aliance conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas; três varinas, de canastra à cabeça, meneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havaneza, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando.

– Isto é horrível quando se vem de fora! exclamou Carlos. Não é a cidade, é a gente. Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada!…

– Todavia Lisboa faz diferença, afirmou Ega, muito sério. Oh, faz muita diferença! Hás-de ver a Avenida…

Antes do Ramalhete vamos dar uma volta à Avenida.”

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De finais e de começos IB

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Como previsto, o segundo passo do meu exercício de leitura traz o segundo capítulo (ah… as coincidências!) de Dom Casmurro. O propósito é colocá-lo ao lado do primeiro capítulo de São Bernardo. O intuito não é apenas encontrar semelhanças e diferenças. Isso seria primário demais. Num primeiro momento, destaco a distância cronológica entre os dois. Já, já, isso vai ficar claro. Em seguida, destaco o fato de que, aqui também, o texto do romance revela um propósito, um projeto. Bentinho, como Paulo Honório, quer escrever um livro. A diferença persiste num detalhe: o primeiro é mais presunçoso e mais egoísta. Escreve ao sabor da modorra, depois de chegar em casa vindo de compromisso social que não lhe agrada muito – é o que se infere. No caso de Bentinho, a pretensão é substituída pelo impulso de rever a própria trajetória, a partir da “inspiração” que lhe sobrevém da observação dos bustos pintados nas paredes da sala em que se encontra. A reprodução – por memória – da casa de sua infância faz do projeto de Bentinho uma espécie de devaneio – no sentido freudiano do termo. Muito diferente da proposta de Paulo Honório, em que pese o fato de que, ao fim e ao cabo, o romance de Graciliano se explicite como relato do desempenho do protagonista em sua própria história. Creio que esta é uma diferença notável, inescapável. Para além de outra: a perspectiva do relato de Paulo Honório, como dito ontem, é coletiva; enquanto a proposta de Betinho é individual, para não dizer egoísta. Fica a critério do olhar de quem ler, o veredito. Bom proveito!

“Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão. Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo… Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa. O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas creem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal frequência é cansativa. Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal. Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios, menos seca que as memórias do padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?… Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.”

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De finais e de começos IA

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Como anunciado, tem início o meu exercício de leitura. Começo com o trecho inicial do primeiro capítulo de São Bernardo. Como não se trata de trabalho “acadêmico” – no que este tem de mais protocolar e artificial – abstenho-me das referências, já por demais conhecidas. O trecho é um tanto longo e o único comentário inicial cabível, diz do intento do narrador, Paulo Honório, em seu projeto de escrever um livro. Proposta interessante, pois dá a chave de leitura do romance, na perspectiva mais tradicional e corriqueira de sua recepção. A ideia de Paulo Honório é juntar seus amigos para dar fim à empreitada, mas, de cara, se arrepende. Cada um tem suas peculiaridades: o que serve para o derramamento da malícia sarcástica da fala do narrador. O projeto é coletivo, no que se refere à composição, mas não à natureza, pois a ideia do grupo, pensada por Paulo Honório, não se sustenta por decisão dele mesmo. As coisas não saíram a seu modo. Com estas observações, fica o convite à litura deste trecho como introito ao que vem em seguida! Bom proveito!

“Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.

Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa.

Estive uma semana bastante animado, em conferências com os principais colaboradores, e já via os volumes expostos, um milheiro vendido graças aos elogios que, agora com a morte do Costa Brito, eu meteria na esfomeada Gazeta, mediante lambujem. Mas o otimismo levou água na fervura, compreendi que não nos entendíamos.

João Nogueira queria o romance em língua de Camões, com períodos formados de trás para diante. Calculem.

Padre Silvestre recebeu-me friamente. Depois da Revolução de Outubro, tornou-se uma fera, exige devassas rigorosas e castigos para os que não usaram lenços vermelhos. Torceu-me a cara. E éramos amigos. Patriota.

Está direito: cada qual tem as suas manias.

Afastei-o da combinação e concentrei as minhas esperanças em Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, periodista de boa índole e que escreve o que lhe mandam.

Trabalhamos alguns dias. A tardinha Azevedo Gondim entregava a redação ao Arquimedes, trancava a gaveta onde guarda os níqueis e as pratas, tomava a bicicleta e, pedalando meia hora pela estrada de rodagem que ultimamente Casimiro Lopes andava a consertar com dois ou três homens, alcançava São Bernardo. Comentava os telegramas dos jornais, atacava o governo, bebia um copo de conhaque que Maria das Dores lhe trazia e, sentindo-se necessário, comandava com submissão:

– Vamos a isso.

Íamos para o alpendre, mergulhávamos em cadeiras de vime e ajeitávamos o enredo; fumando, olhando as novilhas caracus que pastavam no prado, embaixo, e mais longe, à entrada da mata, o telhado vermelho da serraria.

A princípio tudo correu bem, não houve entre nós nenhuma divergência. A conversa era longa, mas cada um prestava atenção às próprias palavras, sem ligar importância ao que o outro dizia. Eu por mim, entusiasmado com o assunto, esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a considerá-lo uma espécie de folha de papel destinada a receber as ideias confusas que me fervilhavam na cabeça.

O resultado foi um desastre. Quinze dias depois do nosso primeiro encontro, o redator do Cruzeiro apresentou-me dois capítulos datilografados, tão cheios de besteiras que me zanguei:

– Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!

Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala.

– Não pode? perguntei com assombro. E por quê?

Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.

– Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, Seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.

Levantei-me e encostei-me à balaustrada para ver de perto o touro limosino que Marciano conduzia ao estábulo. Uma cigarra começou a chiar. A velha Margarida veio vindo pelo paredão do açude, curvada em duas. Na torre da igreja uma coruja piou. Estremeci, pensei em Madalena. Em seguida enchi o cachimbo:

– É o diabo, Gondim. O mingau virou água. Três tentativas falhadas num mês! Beba conhaque, Gondim.

Abandonei a empresa, mas um dia destes ouvi novo pio de coruja e iniciei a composição de repente, valendo-me dos meus próprios recursos e sem indagar se isto me traz qualquer vantagem, direta ou indireta.

Afinal foi bom privar-me da cooperação de Padre Silvestre, de João Nogueira e do Gondim. Há fatos que eu não revelaria, cara a cara, a ninguém. Vou narrá-los porque a obra será publicada com pseudônimo. E se souberem que o autor sou eu, naturalmente me chamarão potoqueiro.”

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A proposta

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Logo de início, pensei que seria possível mudar. Fiz o projeto. Tentei cercá-lo de toda a argumentação necessária à consolidação da proposta. O projeto foi aprovado. Começa a investigação. No meio do caminho, na iminência e uma reprovação, vem o veredito positivo: qualificado. Há que esclarecer que durante o prélio, desenhou-se outro caminho – de acordo com a aurora da observação: uma tentativa de salvar o trabalho até ali desenvolvido. Mas isso era conversa pra boi dormir. Bobo que não fui, segui a dica, implícita. Fiz exatamente o que foi esboçado naquele momento. Ainda assim, mantive a convicção de que era possível, plausível, sustentável, coerente, viável, relevante e importante pra mim, fazer literatura comparada numa mesma série “nacional”. Em outras palavras, como na tese, o corpus era formado por doze romances, todos de autores brasileiros em quatro momentos diferentes de sua História. Isso passou batido pois, no prélio final, as mesmas “vozes do além” se levantaram no vão desejo de desautorizar o que eu tinha feito. Deram com os burros n’água, as vozes do além… Segui em frente. Os anos de docência vieram a apresentar duas situações até então inusitadas. Na “realização” destas duas possibilidades, apoio-me na perspectiva metodológica que alimenta a argumentação de Rodrigo Gurgel:

“Minha leitura segue, de maneira proposital, parâmetros em grande parte desprezados na atualidade, quando a crítica literária não só difunde, mas também sofre dos três males apontados por Tzvetan Todorov: formalismo, niilismo e solipsismo. Trata-se, logo, de uma leitura a contracorrente. Exercício, como os leitores perceberão, nem sempre agradável; e que só pode ser enfrentado obedecendo-se ao que propõe Friederich Schlegel em um de seus brilhantes fragmentos: ser, enquanto crítico, um leitor que rumina – e que, portanto, deve ter mais de um estômago.” (Muita retórica, pouca literatura, Campinas, Vide Editorial, 2012, p. 23)

Sem saber – o livro de Rodrigo Gurgel é publicado 18 anos depois da minha tomada de convicção! – eu andei na contramão, mas, repetindo-me, os anos de docência me propiciaram as condições para pensar e falar e escrever sobre o que aqui vou apresentar: a comparação entre escritores brasileiros – Graciliano Ramos e Machado de Assis – por um lado, e duas obras de um mesmo autor português – Os maias e O crime do padre Amaro. Isso começa amanhã. Fazendo uma blague com célebre dito imperial: quem se interessar… me leia!

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Duas vezes inocência

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Inocência. No dicionário encontramos o seguinte: “substantivo feminino – estado, caráter daquilo que é inocente; qualidade de quem é incapaz de praticar o mal; estado daquele que não é culpado de uma determinada falta ou crime; ingenuidade excessiva; ignorância; ignorância das coisas de amor; virgindade, donzelice”. Pois há uma gama espessa de sentidos a recobrir o vocábulo. Logo, a tal “inocência” pode assumir seu papel de processo, de atividade, de percepção, de ação. Talvez seja a circunstância o principal operador dos sentidos possíveis da “inocência”. Talvez seja o olhar de fora desta mesma circunstância. Numa ou noutra possibilidade, acredito que um filme pode dizer muito sobre as inumeráveis nuances semânticas que a inocência pode utilizar para ser explicitada e, por via de consequência, percebida. Dois exemplos plausíveis, dois filmes, são A época da inocência (Martin Scorcese, 1993) e Effie Gray (Richard Laxton, 2014). O primeiro é resultado de adaptação de romance homônimo de autoria de Edith Warton. Na verdade, o título poderia ser “a idade…, a era… o tempo…”. O sentido final seria o mesmo: a narrativa fílmica (não li o livro) relata o percurso afetivo/existencial de seu protagonista, interpretado pelo irretocavelmente impecável Daniel Day-Lewis. Já o segundo é a versão cinematográfica de um escândalo que teve lugar na Inglaterra vitoriana (finais do século 19). Ambos tocam em possíveis explicitações de sentido do que se conhece terminologicamente por inocência. No caso do filme de Scorcese – mais uma vez, como Alfred Hitchcock, ele faz uma ponta, se não me engano, como fotógrafo, no seu próprio filme. Ele aparece fazendo a foto e já está! –, Archer, a personagem de Daniel Day-Lewis, está noivo, quer casar logo, quando conhece a prima da noiva. Uma mulher divorciada que volta a uma Nova Iorque cheia de fricotes e códigos e protocolos e frescuras e… e… e… Como diria Nelson Rodrigues: é batata. Ele se apaixona, mas se vê enrascado nas artimanhas de convenções e chatices. Ele se casa, mas a chama da paixão não se apaga. Ao contrário, alimentada pela “inocência” do protagonista, segue incólume até um desfecho que não contradiz, mas não satisfaz a demanda de desejo. Archer se casa, tem cinco filhos, fica viúvo e quase cinquenta anos depois se Vê-se à frente do balcão do apartamento parisiense da Condessa Olenska, objeto de seu desejo vencido pelas formalidades e pela resignação. Mais não digo, para não tirar o prazer da constatação do que ocorre como grand finale. Note-se, entretanto, na apresentação dos créditos iniciais, a belíssima fotografia do desabrochar de flores diversas, que se apresenta numa alternância de cores, entre o vermelho e o amarelo, numa sobreposição de imagens que destaca um rendado bastante sugestivo. Alegoria mais eficaz e evidente não poderia haver. O segundo filme conta a história de Eufêmia (nome da personagem principal que recebe a alcunha de Effie, como é hábito entre os anglo-saxão. A moça, adolescente de beleza virginal – o que faz despertar desejos inconfessos comme d’habitude – que é desposada por um crítico de arte pra lá de esquisito. Filho único, rico, respeitado e solteirão convicto, o gajo é mantido por seu trabalho e pela fortuna dos pais que o bajulam, muito mais a mãe que o pai. O clima é estranhíssimo até que o casal viaja para o interior da Escócia e depois para Veneza. O “escândalo”, na verdade fruto de uma reviravolta social e jurídica – a época em que se passa a narrativa é praticamente a mesma que aparece no filme de Scorcese – fruto de um detalhe crucial no processo convencional ao qual se dá o nome de casamento. Uma vez mais, não digo palavra. Vou, de novo, conservar a possibilidade da agradavelmente sutil surpresa para quem quiser ver o filme.

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Outra mulher: Ana Teresa

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Em 1998, defendi minha dissertação de Mestrado na Unb. Era Setembro. Minha mãe e duas tias foram comigo, assistiram, me aplaudiram. Fiquei orgulhoso. O trabalho versava sobre a proposta de um conceito teórico da/para a Literatura: romance intimista. A partir da leitura de cinco romances de Clarice Lispector e cinco de Lya Luft, tentei esboçar o tal conceito que. A meu ver, serviria para diferenciar a ficção intimista dos romances escritos em primeira pessoa – conditio sine qua non indevida – e aqueles que tinham conotação autobiográfica. Havia, na proposta que esbocei, a necessidade de que uma categoria em específico, a de narrador, desse o tom da narrativa. Numa síntese bastante superficial, o romance intimista era o que fazia com a intimidade (Da voz narrativa? Do autor?) se contasse a si mesma, se narrasse a si mesma. Alguma coisa que beirava a superação de uma experiência estética marcante, a do nouveau roman francês. A dissertação recebeu elogios por seu conteúdo e por sua forma, sobretudo por cota da introdução, considerada, unanimemente pela banca como exemplar. Outro elogio foi o fato de a mesma dissertação ter sido desenvolvida e concluída em tempo hábil, regimental de 24 meses. Fiquei orgulhoso. Esse orgulho voltou ontem, quando terminei a leitura de um romance português, de autoria de Ana Teresa Pereira. Trata-se de Karen (São Paulo, Todavia, 2018). Um romance enxuto. Enxuto e transparente. Um exemplo acabado do que tentei apresentar como conceito operacional dos/para os estudos literários: o de romance intimista. Diferentemente do livro de Isabel Figueiredo (A gorda) que já foi comentado aqui, não há, no romance de Ana Teresa, nenhum indício de que matéria autobiográfica tenha qualquer tipo de impacto sobre a construção narrativa de sua ficção. Isso não, obviamente um problema. Faço o destaque, para aproximar esta narrativa com a outra. Pois bem, Karen, o nome do romance, é o nome da protagonista que sofre um acidente e relata o processo de recuperação de memória perdida no acidente. O convívio com o marido e com outras pessoas é matéria que vai desenhando o perímetro das veredas mnemônicas da protagonista. Aos poucos, Karen vai reconhecendo o mundo, a vida, a realidade, os elementos que compõem sua existência anterior ao acidente. Este, por sua vez, não é descrito no romance. Ele aparece como parâmetro para as considerações que a protagonista faz sobre as suas descobertas ao longo do processo de recuperação de sua própria memória. O que me chamou a atenção, levando-me a considera-lo exemplo acabado de um romance intimista, é o fato de que a protagonista fala de si como se falasse de uma outra pessoa. É fato que, coloquialmente, os portugueses conversam entre si usando o nome próprio do interlocutor, em lugar de usar pronomes. Isso ocorre no romance. No entanto, tal ocorrência se reitera e se reitera, inumeravelmente, o que me fez desconfiar de que se tratava de outra coisa, muito além de um coloquialismo. Minha leitura leva à constatação de que esta forma de narrar, talvez oriunda dessa idiossincrasia linguística, tenha sido operacionalizada pela autora como instrumento e construção do discurso que reputo como intimista. Alegoricamente, na leitura que fiz, o espelho que, vez por outra, “aparece” no texto do relato ficcional, funciona como índice de concretização desse procedimento narrativo que consolida o caráter intimista do romance. Não conheço a autora. Este é o primeiro dela que leio. Numa da s orelhas do volume, leio: “nascida no Funchal, Portugal, Ana Teresa Pereira tem mais de duas dezenas de livros lançados. Sua obra – contos e romances – ostenta um profundo clima psicológico, referências a Henry James e ao cinema dos anos 1940-50. É a primeira mulher a receber o prêmio principal do Oceanos, o mais importante da literatura de língua portuguesa, Karen, é seu primeiro livro no Brasil.” Desta nota, interessa-me a informação que afirma a extensa produção literária da autora. O Dr. Google mostra, de fato, que ela já tem publicada “mais de duas dezenas de livros”. Pode parecer detalhe, informação superficial, sem importância ou efeito. Ao contrário, ela respalda, em certa medida, a minha constatação depois da leitura do romance. Pode ser que haja opinião diferente. Com toda certeza que há. Mas o que importa aqui é o implícito convite no apanhado de impressões de leitura que acabei de escrever. Aproveite, se quiser!

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Recordar é viver

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Entre 2008 e 2010 vivi em Zagreb, capital da Croácia. Foram dois anos como Leitor de Português na Universidade de Zagreb. Para além das atividades acadêmicas, como fui o primeiro Leitor Brasileiro (havia um leitorado português, mantido pelo Instituto Camões), mantive estreita relação, não apenas profissional com o corpo consular sediado na Embaixada do Brasil naquela cidade. Uma relação muito proveitosa que me rendeu momentos mais que gratificantes. Um deles foi o da conferência que fiz em comemoração dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Tal conferência, feita a convite do senhor embaixador, foi uma delícia. Para começar a semana, publico aqui o roteiro que utilizei então…

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Boa tarde

Agradecimentos:

– ao Senhor Embaixador, Haroldo Teixeira Valadão Filho, pela acolhida, pelo apoio e pelo incentivo que me tem dado;

– à senhora Helga Dworshck Arantes, vice-cônsul responsável pelo setor cultural da embaixada do Brasil em Zagreb e à Ivana Kasunić, assistente do mesmo setor, pelo convite que me foi feito e pela oportunidade de falar aqui.

Uma alegria enorme de estar aqui, grande satisfação em estar vivendo essa experiência muito desejada, muito prazer pela oportunidade de fazer esta conferência.

Três pontos importantes a considerar, a partir do pressuposto da comemoração dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil:

  1. a ideia de tomar o “evento” como “mote” para uma reflexão acerca das relações entre Literatura História, para dar continuidade a uma linha de investigação que venho perseguindo na Universidade, no Brasil;
  2. a ideia de celebrar um evento de fundamental importância para o início de um processo de “desenvolvimento” com todos os seus impasses, dificuldades e problemas, nas mais diversas perspectivas de abordagem;
  3. a reflexão acerca das relações entre Literatura e História, na abordagem de um evento de tamanha envergadura, como exercício de releitura do texto cultural que a Histórias das relações entre Brasil e Portugal – desde o descobrimento até os dias atuais – enseja e mantém

Para começar, a leitura do segundo capítulo de O guarani, romance de José de Alencar, publicado em 1872, 64 anos depois da chegada da família real ao Brasil.

O trecho do romance denuncia e preconiza, em certa medida, o desenho da “paisagem” que vai emoldurar o evento que se comemora este ano. De certa maneira, José de Alencar, ainda que não o tenha desejado conscientemente, para a finalidade a que me proponho aqui, acaba por fixar o pano de fundo do evento chamado “chegada”. Sua descrição e comentários, a partir do discurso do narrador do romance, já denotam alguns traços de caráter “cultural” que vão estar presentes em território brasileiro, a partir da chegada da família real. É bom notar que o romance, publicado já na segunda metade do século 19, narra o que José de Alencar imaginou se passar na segunda metade do século 16. Esse dado abre uma oportunidade de discussão das relações entre Literatura e História, com base em argumentação teórico-crítica da Literatura Comparada que vou, por questão de coerência, deixar de lado, por agora. No entanto, quero reafirmar minha convicção de que esse trecho do romance é factível de ser tomado como objeto de desejo da leitura que faço do evento aqui celebrado, na perspectiva da História da Literatura Brasileira. José de Alencar produz um recuo no tempo da História para, na leitura que proponho, redesenhar a “paisagem” que o quadro histórico da “chegada” seja pintado.

Maneiras

Princípios

Ideologia

Ética

Costumes

de Portugal, metrópole, trasladados para a Colônia (Reino,

depois da “chegada”)

Faz 201 anos que a 29 de novembro a família real partia de maneira um tanto atabalhoada, de acordo com os registros da História “oficial”, de Lisboa.

Em 22 de janeiro de 2008, comemorou-se a chegada da família real em Salvador, sua primeira escala, eu diria acidental (quase como o próprio “descobrimento”!).

Em 7 de março de 2008, comemorou-se a chegada de D. João VI e sua família ao Rio de Janeiro

200 anos depois, um detalhe pode chamar a atenção e ensejar toda uma série de elucubrações, sustentando hipóteses e orientando leituras nas mais diversas perspectivas do fato histórico que foi a chegada. Afinal de contas. A família real mudou-se ou fugiu? Uma questão semântica, apontada de maneira inteligente, perspicaz e, eu diria, definitiva, por Laurentino Gomes, em seu livro 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. (LER TRECHO SELECIONADO DA PÁGINA 21, MARCADOR COR-DE-ROSA)

Contexto conjuntural da chegada

– invasão napoleônica em Portugal

– necessidade de manter a coroa

– necessidade de constatar, in loco, a situação da maior colônia portuguesa além-mar

– à parte as caricaturas de costume:      – os piolhos e as cabeças raspadas

– o temperamento impulsivo e sanguíneo da

rainha

– a separação do casal real

– os frangos e o temperamento melancólico do rei

– a loucura de D. Maria I

– a importância da chegada: – abertura dos portos

para a Inglaterra e demais

nações importantes na rota comercial pelo mar

(a carta régia de 28 de janeiro

– a criação – do Banco do Brasil

– Jardim Botânico

– da Biblioteca Real

– a fundação da Escola Médica Cirúrgica de Salvador

– a Imprensa Régia

Dois aspectos ressaltam o que está envolvido na chegada: a intriga e a conjuntura: D. João VI foi, naquele momento, o único rei que escapou ao controle de Napoleão, fato pouco destacado que faz mudar toda a perspectiva de leitura do evento que foi a chegada.

Importante dizer que entre a chegada,. Durante a estada da família real em solo brasileiro até a sua partida, gestou-se o que hoje conhecemos como República, o que não pouco!!!

Um pouco desse contexto pderia ter sido melhor aproveitado num romance (até) interessante intitulado O cozinheiro do Rei D. João VI, de autoria de Hélio Loureiro, badalado chef português. Valem a pena, no livro, duas coisas: as receitas e a oportunidade vislumbrada de apresentar o mesmo evento, sem a marca da caricatura, mas pela perspectiva “interna” dele. Perdida porque o autor não soube aproveitar os dados do evento histórico, por conta da falibilidade de sua competência narrativo-ficcional. O livro pinta, no entanto, um outro quadro de referências que aproxima, mais uma vez, Literatura e História. Vale como referência curiosa.

Indubitavelmente, as conseqüências, tanto positivas, quanto negativas da vinda da família real para o Brasil são inumeráveis. No entanto, pela própria Literatura Brasileira, pode-se constatar alguns detalhes destas conseqüências.

Exemplo disso é o romance de Machado de Assis, Dom casmurro. Dentre tantas perspectivas possíveis de leitura, quero destacar aqui a composição da família de Bento Santiago, protagonista e narrador do romance. O intuito é o de constatar que o modelo familiar apresentado à, então colônia, quando da chegada de D. João VI e seu séquito ao Rio de Janeiro, manteve algumas de suas características, ao longo da História do Brasil, passando de Império a República.

Maneiras

Princípios

Ideologia

Ética

Costumes

de Portugal, metrópole, desenvolvidos e aclimatados ao Império

Para ilustrar o que estou dizendo, leio três capítulos do referido romance, os capítulos: V – O agregado, VI – Tio Cosme e VII – D. Glória.

A viuvez de Dona Glória e a manutenção de sua personalidade, a figura do agregado e o Tio solteirão, são três personagens sociologicamente tipificadas pela Teoria da Literatura, em associação com o modus vivendi da sociedade imperial. Muito do que vai mostrado aí, no romance, a partir desse esboço de figura que Bentinho faz pode ser considerado como uma herança sócio-cultural do comportamento que foi modificado, na colônia, com a chegada da família imperial.

É fato que Machado de Assis, talvez, não tenha tido esta intuição e não a tenha perseguido, na composição de seu romance. No entanto, a finalidade da referência a este texto, aqui, é apenas a de ilustrar como a família real deixou suas marcas, em todos os quadrantes da vida social e cultural da então colônia portuguesa

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