Menino e espelho

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O menino no espelho. Este é o título de um livro de Fernando Sabino. Um livro que li ainda na graduação e que me encheu de entusiasmo. Depois de sua leitura, li Os três ensaios sobre a sexualidade e “O estranho”, do velho Freud. Li também, Para entender Lacan, de um autor cujo último sobrenome é Fages. Lembro-me de ter lido uns tantos títulos de Teoria da Literatura, sobretudo os que concerniam à figura do narrador. Tudo isso para escrever uma monografia de final de semestre para a disciplina Teoria da Literatura I, lecionada pela saudosa (para mim, pelo menos…!) Vera Lúcio Felício Pereira. O texto eu escrevi mereceu nota total da professora que veio a ser paraninfa da turma de que fiz parte, quando de minha formatura na PC-MG, em 1985. No ano seguinte, iniciei meu Mestrado e a Psicanálise se fez presente desde então em minha carreira. Este primeiro trabalho marcou um ponto de virada. Uma espécie de obsessão. Do mesmo tipo que marca a filmografia de Woody Allen, por exemplo. Ou a de Pedro Almodóvar. No primeiro caso, alguma coisa ligada à origem identitária do diretor, seu judaísmo sarcástico, seus dramas de fundo afetivo, intimamente ligado a uma sexualidade confusa, complexa, multifacetada que coloca o sujeito sempre num embate consigo próprio e suas vicissitudes nas lides inconscientes de autocomiseração e de autoconhecimento. Já o espanhol, prima pela colorida expressão do desejo, num discurso que varia entre o amarelo e o vermelho, sempre em tons quentes, o que acaba por derreter a figura paterna (Já perceberam que a figura do pai é quase absolutamente ausente em sua filmografia?). Num e noutro caso, o que me chama a atenção é exatamente isso: esta tal de obsessão. É o mesmo tópico que me fez ficar surpreso, positivamente surpreso com um livro que acabei de ler: Brochadas, de Jacques Fux. Numa das seções do portal de Companhia das Letras

(http://www.ciadoleitor.com/2015/11/resenha-brochadas-de-jacques-fux.html), lê-se: “Nesse livro o autor, Jacques, escreve sobre si mesmo, ou pelo menos diz escrever sobre si mesmo. A ideia é deixar o leitor em dúvida sobre se as histórias narradas são de fato verídicas ou pura ficção, eu aposto a segunda opção.” O autor da resenha (não tive paciência de lê-la até o fim para tentar descobrir seu nome) aposta na segunda opção. Eu não. Não aposto. Não é para tanto. O livro não chega a se constituir objeto de disputas e apostas, ainda que baratas. Não aposto. Gostei dele. É fato, mas daí a apostar… Bem… Este trecho da resenha me leva a um dos pontos de sustentação da narrativa e Fux que prende e diverte: a sexualidade. Esta, por sua vez, metonimiza-se, no texto do “romance” (?), no pênis, o Jacozinho (Já não me lembro se é assim mesmo que se escreve u se é Jacobzinho… Li a versão ebook do livro, está no tablete… ah, esta minha proverbial síndrome de Macunaíma…). Pois é isso. Vira e mexe o narrador faz menção a esta figura impoluta, personificação objetal do desejo de vencer a imbatível brochada. A estrutura do livro instiga, dado que a cada passo, uma figura da cultura ocidental ganha destaque, emoldurada, obviamente, pelo tópico da brochada e, em seguida, o narrador reproduz para os leitores do livro a troca de mensagens entre um tal Jacques (seria o autor ele mesmo, sujeito cartorial? Ou seria um espelho, uma projeção, um escape, da ordem do discurso? A troca de mensagens se dá entre este Jacques e as diversas mulheres com as quais ele diz ter passado pela inconveniência da brochada. Um tanto sexista, devo dizer, a visão do narrador. Se eu dissesse autor, poderia incorrer em erro, e, talvez, considerando as “condições naturais de temperatura e pressão” dos dias que correm, poderia até sofrer um processo de natureza vária e inesperada. Por isso, atenho-me à minha insignificância e fico com o narrador. O exismo se dá por conta da subliminar superioridade atribuída ao masculino em detrimento da miríade de defeitos “femininos” que a voz narrativa arrola como sendo as causas primárias e definitivas das brochadas. Apesar do viés jocoso, o livro é bastante “agressivo”, com as mulheres e com a sexualidade que se vê, aqui, recortada e apresentada numa perspectiva masculina – não ouso dizer machista. O livro é bem escrito. O que ele apresenta sobre as figuras icônicas da cultura ocidental arroladas sob a égide do tema central, a brochada, é bem variada e, até prova em contrário, digna de nota e de confiança pela fidedignidade. Já o que diz respeito às mulheres… Outro traço interessante da obra é a falta de certeza que ela inaugura e da qual se alimenta. O fato de a voz narrativa ter o mesmo nome do autor do livro chama a atenção. E isso não é apresentado assim, por acaso, levianamente. Não. “Tudo aqui é verdade, exceto o que não invento”, adverte Jacques Fux, em forma de epígrafe, em Brochadas. Esta afirmação está também transcrita na mesma página referenciada acima. Ao fim e ao cabo, vale a pena ler o livro. Aventuro-me numa segunda obra do mesmo autor. Pensei, antes de começar, em fazer esta leitura seguindo a ordem cronológica da publicação dos livros. Penso que já quebrei este paradigma, mas não faz mal. Gostei do livro. Quem o ler não há de se arrepender. No mínimo, vai se divertir, não tanto assim, mas vai…

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2 comentários sobre “Menino e espelho

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