Incentivos poéticos

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riscos

coloridos

cortam

o

céu:

fevereiro

 

Isto é uma aldravia.

Aldravia é esta forma poética constituída de seis versos univocabulares (adoro esta expressão) que constroem um poema metonímico que faz com que o leitor “monte” o sentido do poema a partir do estímulo de cada verso/palavra, um exercício criativo que quase absolutamente desdenha a ditatorial autoria como instrumento de determinação deste mesmo sentido.

Há que se notar que o poema não apresente (aqui) um título. Outro detalhe a destacar é a presença dos dois pontos. A pontuação e o uso de maiúsculas (exceção feita a nomes próprios, ainda assim, não de maneira determinativa!) são dois elementos dispensáveis na concepção da aldravia. No entanto, aqui, estes mesmos dois pontos exercem função indicativa para o vocábulo (índice) que fecha o poema. Com este exercício plástico da linguagem, o termo remete o leitor a um contexto de referência que pode auxiliar na já referida construção do sentido do poema. Assim, caso existisse (aqui) o título, este exercício perderia um tanto de seu frescor dinâmico e instigante levando consigo o desejo do leitor que, porventura, está à cata da construção do sentido que conclua sua saga pelo poema – ainda que curto. “cortam // o // céu” imprime no poema um senso de movimento que, da mesma forma, coopera na construção aqui referida. Por outro lado, o verso “riscos” guarda um pouco deste mesmo impulso e simiescamene ligado ao termo seguinte “coloridos”, constitui outro elemento metonímico que remete à ideia primitiva a ser expressa pelo conjunto dos seis versos. Todo este material, quando ligado, pelo uso dos dois pontos, ao nome do segundo mês do ano, aponta para o olho do furacão. A “ata finda” aqui fantasiada faz pensar no porquê Fevereiro e não Novembro ou Junho. Como se trata de poesia brasileira, uma ideia pode ocorrer: em Fevereiro, mesmo com algumas variações no calendário, ocorre o carnaval. Esta ideia, a meu ver, conclui o processo e construção de sentido do poema. Caso aparecesse no título, o prazer de cada passo ao longo da curta leitura do “hexavocabular” poema. Assim, é possível intuir que os tais “riscos” que são “coloridos” e que “riscam // o  céu” são a “prova irrefutável de que se fala do carnaval, que poderia ser o título do poema. Que é o título do poema, quando publicado por primeira vez. Retirei-o de cena, aqui, para dar sentido ao que desejava dizer sobre este projeto estético que é o aldravismo, terra mater que deu à luz este poema e outros, igualmente de seis versos univocabulares. (Desculpem a repetição, por necessária!). Parece-me óbvio que potras camadas semânticas podem ser vislumbradas no conjunto dos seis versos: a diversidade, que também marca os festejos de Momo; a melancolia pela constatação de que muito do “carnaval de antigamente” vem se perdendo, se já não se perdeu completamente – refiro-me, aqui, ao prazer que se experimentava ao se jogar a serpentina – na rua ou nos salões de clubes carnavalescos – durante o carnaval. E la nave va

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Cumpre informar que esta forma poética é genuinamente mineira. De fato, genuinamente, marianense. Quatro poetas de Mariana, a primaz de Minas Gerais, conceberam, em conjunto, esta forma poética. Os estudos realizados por estes quatro cavaleiros de um apocalipse poético – sem a dimensão bélica da expressão de referência, é preciso que se diga! – levaram ao desejo de inaugurar nova fase na produção poética no rincão brasileiro. Herdeiros dos inconfidentes e atentos ao constante desejo de inovação, ainda que, por vezes, explicitado em repetições, retomadas, apropriações, estes poetas pensaram e pensaram e cultivaram a ideia de uma “novidade” – no sentido mais espesso e profundo do termo. Eis, então, a aldravia. Estou em dívida com os criadores da nova forma poética. Já havia mencionado para eles a ideia de escrever um verbete para a Wikipedia, como forma de divulgação. Não o fiz. Da mesma forma, pensei em fazer o mesmo para compor um dicionário eletrônico de termos literários alimentado por um catedrático português. Também ficou na vontade… De qualquer jeito, penso que postagem pode ser lida como um primeiro passo nesta direção. Quem pode dizer que sim ou que não?

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2 comentários sobre “Incentivos poéticos

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