Chatices “traduteiras”

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De acordo com o que li na última edição do Jornal Rascunho, existiu por aí um poeta chamado Philip Lamantia (de quem amais ouvi falar), nascido em 1927 e falecido em 2005). Diz a nota no Jornal que ele foi um dos mais influentes poetas norte-americanos na década de 1950: “Nascido em San Francisco, acabou por se tornar, ao lado de Kenneth Rexroth e Lawrence Ferlinghetti, um dos principais mentores dos movimentos Beat e San Francisco Renaissance. Lamantia foi muito influenciado pelos surrealistas franceses, especialmente André Breton, de quem foi amigo.” Pois bem. Dele, o mesmo jornal publica o poema abaixo:

 To begin then not now

The skylight drowns
as you walk into my voice
carrying a box of flames
entirely secretive
you tap open by the charmed hairpin
of the mysteries of sleep

Em seguida, na página dedicada à publicação de poesia mundo afora, a referida edição publica comme d’habitude, a tradução. Neste caso, esta ficou por conta de André Caramuru Aubert (que não sei de quem se trata). É a seguinte:

Para começar então, não agora

A claraboia submerge
enquanto você caminha para dentro da minha voz
trazendo uma caixa de labaredas
totalmente secreta,
você a abre com o grampo mágico
dos mistérios do sono

Skylight foi traduzido por claraboia. Mas bem podia ter sido por luz zenital. Da mesma forma drowns aparece traduzido por submerge, mas poderia ser afunda ou aprofunda (melhor!). O terceiro verso começa com “as”, uma espécie de conector que faz juntar o terceiro e o quarto verso. Pensando nisso, proponho a tradução seguinte: “como você caminha na minha voz adentro”. O verso seguinte dá continuidade ao movimento expresso a partir do terceiro verso e, por isso, talvez, uma outra tradução seria “carregando uma caixa de chamas”. Confesso que não gosto da palavra labaredas, aqui. A expressão “totalmente secreta” poderia ser substituída por “inteiramente calado”: daria continuidade ao movimento intrínseco de “entrada”, expresso versos acima. Melhor ainda, neste sentido, eu penso, seria “inteiramente/completamente silente”. Mas, neste caso, o eco ficaria enfadonho, pesado, feio. Os dois últimos versos são mais complexos por conta do “by” que imprime certa dose de “voz passiva” sobre o sujeito que é responsável pelas ações descritas antes. Não sei… Pensei em “Você tocado/aberto” – apesar da alteração imposta do tempo verbal – “charmoso/encantado grampo”. No último verso não mexeria. Como se trata de poema composto por versos livres e brancos, creio que sua tradução pode se deixar guiar mais por critérios sintáticos, não excludentes, que por critérios formais de métrica e rima, obviamente. Neste sentido a mesma tradução, como exercício, pode parecer mais fácil. Mas quem faz é que sabe…

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2 comentários sobre “Chatices “traduteiras”

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