Duplos, triplos, múltiplos

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Tenho dito, aqui e alhures, que tenho uma impressão ruim dos tempos em que vivemos. Não há, a meu ver, quase nenhuma possibilidade de se confiar em quase nada do que é dito, mostrado, repetido, alardeado. A gente não tem mais acesso a índices mínimos de confiabilidade. Tudo pode ser usado a serviço disso ou daquilo, deste ou daquele… Uma chatice. Uma tristeza. Ai que preguiça… Isso me fez relembrar de um texto pra lá de interessante de um escritor igualmente instigante> Jorge Luiz Borges. Dele, li, por primeira vez, um poema (Arte poética):

Mirar el río hecho de tiempo y agua 
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.

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Fez parte de uma questão da prova escrita de seleção ao Mestrado em Teoria da Literatura, em 1986, na Universidade de Brasília. Citei o poema por conta da beleza que explicita – não é mesmo uma beleza?! –, mas não é sobre ele que vou falar. O texto que aqui me interessa é outro: “Pierre Menard, autor de Dom Quixote”. Dizem por aí, de acordo com as “normas”, que se trata de um “conto”. Essas taxonomias não mais me interessam, por óbvio. O texto, no entanto, a cada leitura, coça-me mais o cérebro e mais prazer provoca! Eis o pedaço do texto que me interessa:

Não menos assombroso é considerar capítulos isolados. Por exem­plo, consideremos o XXXVIII da primeira parte, “que trata do curioso discurso que fez Dom Quixote das armas e das letras”. É sabido que Dom Quixote (tal como Quevedo na passagem análoga, e posterior, de La hora de todos) falha o pleito contra as letras e a favor das armas. Cer­vantes era um velho militar: a sua falha explica-se. Mas que o Dom Qui­xote de Pierre Menard — homem contemporâneo de La trahison des clercs e de Bertrand Russell — reincida nesses nebulosos sofismas! Ma­dame Bachelier viu nelas uma admirável e típica subordinação do autor à psicologia do herói; outros (nada perspicazmente) uma transcrição do Quixote; a baronesa de Bacourt, a influência de Nietzsche. A esta tercei­ra interpretação (que julgo irrefutável) não sei se me atreverei a acrescen­tar uma quarta, que condiz muito bem com a quase divina modéstia de Pierre Menard: o seu hábito resignado ou heróico de propagar ideias que eram o rigoroso reverso das preferidas por ele. (Relembremos outra vez a sua diatribe contra Paul Valéry na efémera folhinha super-realista de Jacques Reboul.) O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico. (Mais ambí­guo, dirão os seus detratores; mas a ambiguidade é uma riqueza.)

É uma revelação cotejar o Dom Quixote de Menard com o de Cer­vantes. Este, por exemplo, escreveu (Dom Quixote, primeira parte, nono capítulo): “… la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir.”

Redigida no século XVII, redigida pelo “engenho leigo” Cervantes, es­ta enumeração é um simples elogio retórico da História. Menard, em contrapartida, escreve: “… la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir.

A história, mãe da verdade: a ideia é espantosa. Menard, contem­porâneo de William James, não define a história como uma investigação da realidade, mas sim como a sua origem. A verdade histórica, para ele, não é o que aconteceu; é o que julgamos que aconteceu. As cláusulas fi­nais — “exemplo e aviso do presente, advertência do porvir” — são desafrontadamente pragmáticas.

Também é vivo o contraste dos estilos. O estilo arcaizante de Menard — estrangeiro mesmo — sofre de uma certa afetação. Não sucede o mesmo com o do precursor, que maneja com desenvoltura o espanhol corrente da sua época.

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A tradução do trecho em itálico (não o poema, mas o que está no trecho do “conto”) pode ser: “… a verdade, cuja mãe é a história, émula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do porvir”. Pode parecer loucura do autor ou uma brincadeira sem graça. Pode ainda tratar-se de um lapso, tanto do autor, quanto do editor. Creio não se tratar de nada disso. Na leitura que costumei fazer nos 31 anos de magistério e que ainda faço me diz que se trata de uma questão de leitura. Melhor dizendo, de “leitores”. Ainda que o texto seja literalmente o mesmo, há uma diferença de séculos entre Cervantes e Pierre Menard. Assim sendo, seus leitores, no exercício de fruição deste texto – de um ou de outro – guardam entre si a mesma relação de distância temporal. Isso insere o traço de uma diferença de leitura, o que faz do texto não permanecer o mesmo, mas ser modificado a partir da leitura, a cada passo, que dele se faz. Estra é uma lição da Estética da Recepção (O Dr. Google pode dar um pontapé inicial no assunto, sobre tudo se se utilizar outra expressão que vai apontar para o mesmo tópico: Escola de Constança). Vou ater-me a este pitaco pois não quero delongas. Esta diferença a que me refiro pode ser a possibilidade instrumental de abordar a situação a que me referi de início. Sobretudo no seguinte exemplo: a senadora vocifera que houve cambalacho na atitude dos detratores do desembargador e a patuleia faz coro. A ministra afirma e respalda que houve cambalacho por parte dos detratores do juiz e outra patuleia apoia. Onde a verdade, se poucos de nós estiveram presentes à ocasião e, agora, têm olhos postos nos registros documentais do fato? A conclusão é por conta de cada um daqueles que conseguiram chegar até aqui…

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