Uma conferência

Por conta da mais que agradável visita de minhas primas queridas – Márcia, Rosana e Esther Dolores – não fiz postagem ontem. O prazer das horas de convívio valeu mais que tudo. Nada a reclamar! Hoje, pra fechar a semana, e não deixar de fazer jus à minha proverbial “síndrome”, apresento hoje uma conferência que fiz – o tema é poesia –, já não me lembro quando, numa das reuniões da ALACIB, em Mariana. Bom final de semana!

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Passeio. Pode ser uma caminhada, só ou em companhia de alguém querido. Pode ser, por aqui, o nome que se dá ao espaço do pedestre nas ruas de uma cidade. De um jeito ou de outro, o que vou fazer aqui com você é um passeio pela poesia, sem a preocupação com detalhes “acadêmicos”. Um passeio por essa coisa a que se deu o nome de poesia. E, de cara, a gente fica estaqueado diante de certos “passos” que se pode dar. Vem, então, Carlos Drummond de Andrade e diz:

Stop

A vida parou

ou foi o automóvel?”

Essa parada que pode fazer com que agente perca o fôlego, leva cada um de nós a mundos outros, às vezes inusitados, às vezes bem conhecidos. A dúvida é perene, os sentidos se multiplicam e desintegram, simultaneamente. Num caso e noutro, o espanto platônico causa arrepios e uma certeza se apresenta: quem escreve está sempre a procurar. E o mesmo Carlos segue ao nosso lado, no âmago da questão e sussurra à nossa alma um tanto atormentada:

O que a gente procura muito e sempre não é isto nem aquilo. É outra coisa. Se me perguntam que coisa é essa, não respondo, porque não é da conta de ninguém o que estou procurando. Mesmo que quisesse responder, eu não podia. Não sei o que procuro. Deve ser por isso mesmo que procuro.

Me chamam de bobo porque vivo olhando aqui e ali, nos ninhos, nos caramujos, nas panelas, nas folhas de bananeira, nas gretas do muro, nos espaços vazios. Até agora não encontrei nada. Ou, encontrei coisas que não eram a coisa procurada sem saber, e desejada.

Meu irmão diz que não tenho mesmo jeito, porque não sinto o prazer dos outros na água do açude, na comida, na manja, e procuro inventar um prazer que ninguém sentiu ainda.
Ele tem experiência de mato e de cidade, sabe explorar os mundos, as horas. Eu tropeço no possível, e não desisto de fazer a descoberta do que tem dentro da casca do impossível.
Um dia descubro. Vai ser fácil, existente, de pegar na mão e sentir. Não sei o que é. Não imagino forma, cor, tamanho. Nesse dia vou rir de todos.

Ou não. A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível para todo mundo, menos para mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder.

Nesta circunstância, para dar prosseguimento ao passeio sempre é bom saber com que se vai passear. Às vezes, o acaso apresenta a companhia; pode ser que a gente tenha a possibilidade de escolhê-la, de convidar alguém. Num e noutro caso, penso eu, é saber com quem se vai passear. Assim, Jorge Luis Borges aponta uma direção interessante:

Sou o que sabe não ser menos vão

Que o vão observador que frente ao mudo

Vidro do espelho segue o mais agudo

Reflexo ou o corpo do irmão.

Sou, tácitos amigos, o que sabe

Que a única vingança ou o perdão

É o esquecimento. Um deus quis dar então

Ao ódio humano essa curiosa chave.

Sou o que, apesar de tão ilustres modos

De errar, não decifrou o labirinto

Singular e plural, árduo e distinto,

Do tempo, que é de um só e é de todos.

Sou o que é ninguém, o que não foi a espada

Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.

Sem esconder nada, ao longo do caminho a gente se depara com imagens que suscitam ideias que levam a pensamentos e que demandam decisões. Por onde andar, para onde ir, a quem acompanhar, que conselhos seguir. É então que certo negrume se anuncia, como bem diz José Régio:

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doce

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui!”

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos…


Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: “vem por aqui!”?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…


Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.


Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

 

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

– Sei que não vou por aí!

Pode ser que a natureza ofereça momentos inusitados de surpresa, de espanto, de deleite. O mundo animal está repleto desses momentos. E Jorge Luiz Borges comparece de novo:

Atrás das fortes grades a pantera

Repetirá o enfadonho itinerário,

Que é (mas não o sabe) seu fadário

De negra joia, aziaga e prisioneira.

Vão e vêm aos milhares, em desfiles

Infindáveis, mas é só uma e eterna

A pantera fatal que em sua caverna

Traça a reta que um eterno Aquiles

Traça no sonho que sonhou o grego.

Não sabe que há prados e montanhas

De cervos cujas trêmulas entranhas

Deletariam seu apetite cego.

Em vão é vário o orbe. A jornada

Que cumpre cada qual já foi fixada.

Decisão tomada, como a referida por José Régio, caminho escolhido, o passeio continua e, com ele o deslumbramento, a alegria ou a tristeza, o prazer ou a dor, o encontro ou o desencontro. Sempre de mão dupla, o caminho do passeio jamais é linear, plano, aberto. Suas reentrâncias são sempre reveladoras de incertezas e dúvidas. E aí está o prazer do passeio que, quando não planejado, como na poesia, leva a surpresas e dicas que confundem e assombram, ao mesmo tempo que instigam. Lá atrás, a lição de Dante, guiado por uma Beatriz impossível vitupera:

Vai-se por mim à cidade dolente,

vai-se por mim à sempiterna dor,

vai-se por mim entre a perdida gente.

 

Moveu justiça o meu alto feitor,

fez-me a divina potestade, mais

o supremo saber e o primo amor.

 

Antes de mim não foi criado mais

nada senão eterno, e eterna eu duro.

Deixai toda esperança, ó vós que entrais.

E assim, no meio do passeio, entramos em ambientes desconhecidos, atravessando portas entreabertas pelo espírito humano que não se cansa de anunciar coisas, passos, possibilidades. É possível, inclusive topar com o José que, bendito entre s letras expressa a:

fórmula da eterna juventude

:

o corpo

compreende

a alma

Essa compreensão é eterna e falha. Leva a mente a espaços imprecisos de sendas intransponíveis em que Eros insiste, persiste e atua, companheiro de outro passeio, este parado, mas que movimenta a alma, como quem percebe que não está só, ainda que não veja ais nada além de si mesmo. É quando Konstantinos Kaváfis anuncia:

Como belos corpos de mortos que não envelhecem

e foram encerrados, cm lágrimas, em magníficos mausoléu,

com rosas nas cabeças e jasmins nos pés –

assim se lhes assemelham os desejos que passaram

sem se realizar, sem que nenhum

alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.

Entre deslumbramento e tédio, a certeza de que todo passeio tem seus percalços e boa parte deles é fruto do próprio passear. Mas a poesia não deixa de encontrar nas entrelinhas e desvios alguma luz que pode respirar a prazer, alegria, realização.  Passeio é como uma viagem em dimensão menor, mais curta talvez, mas viagem. Toda viagem, mesmo em tempos ditos modernos demanda registro e este pode ser conseguido pelas cartas. Assim, de prazer e dor, de sonho e decepção, AL Berto deixa sua marca:

lembro-me que tínhamos fome havia três dias

encostada ao mármore da mesa-de-cabeceira dormia a fotografia

e o março de português suave filtro

a escuridão não era só exterior

conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfato

tornámo-nos murmurantes

e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos

cruzamos olhares cúmplices

falámos muito não me recordo de quê

e no calor dos corpos crescia o desejo

caminhámos pela cidade

eu metia as mãos nas algibeiras

onde tacteava tudo o que guardara e possuía

um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas

sentia-me feliz por quase nada possuir

a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim

gesticulava para me dizer que estávamos vivos

e apaixonados

As paixões cegam, mas impulsionam o espírito. Assim é com a paixão pela poesia. Senhora conspícua e sedutora ela impulsiona mente e corpo, arrasta o intelecto e, de roldão, marca o físico em suas reações volitivas. O passeio vai chegando a final e, de novo, a mesma dúvida do começo: começou e vai parar, onde? Como? Diz o adagiário que o futuro a Deus pertence. Pelo sim, pelo não, concluo o nosso périplo, rápido e superficial com palavras mágicas de um poeta, na heteronímia de Alberto Caeiro, acerca do qual o que quer que se diga é pouco á nada, pois aponta, uma vez mais para a dúvida obsedante do começo do passeio. O caminho leva ao desejo de saber sobre o que pensar porque:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

 

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!  

Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que idéia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

 

Não sei.  Para mim pensar nisso é fechar os olhos 

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

O mistério das cousas?  Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

 

Metafísica?  Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, 

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…

“Sentido íntimo do Universo”…

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. 

É incrível que se possa pensar em cousas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores 

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

 

Pensar no sentido íntimo das cousas

É acrescentado, como pensar na saúde 

Ou levar um copo à água das fontes.

 

O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.  

Não acredito em Deus porque nunca o vi.  

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

 

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

 

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

 

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; 

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.  

 

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).  

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.

Mas nem tudo são flores, em qualquer passeio que seja. Há sempre percalços, acidentes na ou da topografia dos sonhos, do desejo, as decepções. Por isso, há de estar preparada a alma para os arrependimentos, as decepções, os revezes que não se explicam antecipadamente, mas que sempre ensinam Destas fica sempre o aprendizado da solidão humana, inconteste, constitutiva, irrecorrível, como na lição de Augusto dos Anjos:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!

Depois disso, dizer o quê? Pensar o quê? Desejar o quê? Este é mais um dos desdobramentos da poesia: a demanda por mais de algo que não se consegue definir.  Por isso, o passeio termina com uma constatação que supera todas as variações do que se conhece como possibilidade:

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Muito obrigado.

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