Dois dedos de prosa

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Os dois são homens bem sucedidos. Ambos são casados e têm amantes. Um deles é pai, outro não. Um é diretor de uma companhia poderosa do ramo de tecnologia. Outro é corretor de ações de alto nível. Tudo isso vai-se sabendo à medida que o filme avança, sobre tudo no caso do “outro”. Para ficar claro, “Um” é a personagem central de Contratiempo (Espanha, Oriol Paulo, 2017) e “outro”, de 200 degrees (Estados Unidos, Giorgio Serafini, 2017). A impressão que ficou, depois de ver os dois filmes é que, de duas uma, ou são, originalmente, peças de teatro ou podem se transformar em uma. Num e noutro caso, o que pretendem, conseguem: a manutenção de um clima de estranheza – bem ao gosto de Freud – com pitadas de malícia, “num” caso e de atenção “noutro”. Ambos são thrillers de suspense inteligente. Filmes de texto, em que as palavras, simultaneamente à expressão ocular, facial, corporal, são responsáveis pelo sentido da história que se conta e, até o desfecho, mantêm-se um emaranhado de contradições, idas e vindas, falsas pistas, aparências, reflexos. Uma delícia. Nenhum dos dois filmes é, ao fim e ao cabo, uma obra prima. Mas isso é para entendidos – sem duplo sentido… – que se preocupam com firulas. O que me atrai num filme é tudo, menos as malditas firulas. E há quem se mate para manter um lugar sob o sol das firulas e seu domínio… Ai que preguiça. No filme espanhol, o protagonista envolve-se num acidente de carro, do qual decorre a morte do motorista do outro carro. Tudo provocado pela travessia de um cervo pela estrada vicinal no interior da Andaluzia. O filme se passa em Barcelona e arredores. O cervo vai aparecer de novo, numa cena fundamental para a montagem do quebra-cabeças (rompecabezas, no delicioso sotaque andaluz!) que o filme propõe. Como eu disse, o protagonista é malicioso e esta característica vai sendo percebida nas idas e vindas do roteiro que, ao final, me surpreendeu, de fato, sem mais. Uma surpresa que, depois de visto o filme, pode até parecer ingênua. Não é. A trama, muito bem construída, sabe guardar suas cartas na manga e, melhor, sabe exatamente o que e quando fazer com elas num exercício magistral de ansiedade crescente. Gostei imenso. No filme norte-americano não temos um protagonista malicioso. Não. A sequência inicial – um homem sentado e amarrado à cadeira numa saleta metálica escura, com uma única janelinha de vido, uma porta (como a dos cofres) e duas venezianas (na narrativa do filme elas funcionam como instrumento de sadismo) – em silêncio não diz absolutamente nada do que há por vir. Como no primeiro caso, é também filme de texto, mais próximo ao palco pela economia cenográfica e pelo reduzido cast. De fato, não é necessário muito para produzir uma história convincente e bem ao gosto da catarse aristotélica. Um homem se vê preso a uma cadeira num cubículo encimado por quatro aquecedores gigantes. Uma voz se dirige a ele e começa um diálogo longo, torturante, sádico, que vai intermediando o relato que se faz por deduções, ilações e índices até certa altura, quando tudo se revela. Diferentemente do outro filme, neste, o desconcerto se dá de uma só vez, na sequência final do filme. Durante todo o tempo do relato fílmico, paira a dúvida, a ignorância de quem vê sobre o que está vendo. Um primor. Uma outra coincidência: também não se trata de uma obra prima. Outra coincidência: também vale muito a pena ver.

Este foi apenas um aperitivo, como um convite, tentativa de sedução para levar a quem me lê a procurar os filmes e vê-los…

Uma resposta para “Dois dedos de prosa”.

  1. Ótimo post !
    Convite aceito , mesmo porque são tipos de filmes que gosto de assistir !

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