Júlio Ribeiro

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Faz um tempinho, cismei de me associar ao Instituto Histórico e Geográfico de Sabará. Não foi um erro, mas não surtiu o efeito – absolutamente circunscrito a foro íntimo – que eu esperava. Pois. O patrono da cadeira para qual me candidatei é Júlio Ribeiro, escritor local de renome nacional Ainda que o Rodrigo Gurgel – a quem admiro e com quem (até) concordo, coloque em dúvida esse “cartaz”. Segue aí a saudação que fiz ao patrono.

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O que terá acontecido no dia 16 de abril de 1845 mundo afora? Como estava o dia? Chovia ou fazia sol? Alguém ganhou na loteria? Quantos acidentes cardiovasculares ocorreram nesse dia? Quais foram as manchetes de jornal? As perguntas podem ser muitas, porque muitas são as possibilidades de acontecimentos (até) desimportantes ocorridos nesta data. Um cachorro pode ter mordido seu dono porque se assustou com alguma coisa. Algum político pode ter tomado uma atitude que depois veio a lhe causar problemas. Muitos casamentos. Alguns namorados romperam… Tanta coisa. Tudo isso e mais uma coisa aconteceu nesse dia. Em Sabará, nasceu Júlio César Ribeiro Vaughan. O nome aponta para ascendência estrangeira. Na terra do ferro e das matas verdejantes, isso não chega a ser novidade. No Brasil, isso não é novidade. Esse rapaz, alguns anos depois, viria a ser reconhecido como escritor. Este fato marca o início de uma “dinastia”: Elsie Lessa, é sua neta e o cronista Ivan Lessa, assim como Sérgio Pinheiro Lopes, seus bisnetos. No terceiro nível desta genealogia aparece a escritora Juliana Foster. Gente que escrevia, acredito, sem muita preocupação com o sucesso, a celebridade, a fama, a venda de seus livros…

Júlio Ribeiro propôs em 16 de julho de 1888, logo após a Abolição da Escravatura, que a então bandeira de São Paulo fosse alçada a símbolo nacional, transformando-se em bandeira do Brasil, sendo parte da sua campanha pela República. Seu viés polemista manifesta-se também, em assuntos de ordem vária. Polêmico, abolicionistaanticlerical e representante do Naturalismo, movimento fundado pelo francês Émile Zola, o escritor de Sabará destaca-se no cenário literário de sua época por conta de uma de suas obras, A Carne, publicado em 1888, seu romance mais conhecido, possivelmente a sua obra-prima. Conta a ardente paixão entre a jovem Lenita e o engenheiro de meia-idade Manuel, filho do coronel Barbosa. O livro provocou escândalo por abordar temas até então ignorados pela literatura da época, como amor livredivórcio e um novo papel da mulher na sociedade. Definitivamente, é um livro sobre a sexualidade humana. Para além, muito além disso, a reação causada pela publicação da obra, faz com que Júlio Ribeiro consolida-se o seu já referido destaque no quadro cultural do Brasil finissecular.

O autor de A carne continua a interessar à posteridade. No contexto do aparecimento da obra, um articulista pontua que esse romance, no qual reconhece imperdoáveis defeitos, tenha sido mais lido do que O Ateneu, de Raul Pompéia. Mas não há que estranhar. O êxito de A carne, diz o articulista, vem todo do seu pseudo-Naturalismo. É praticamente insustentável a hipótese de que Júlio Ribeiro teria escrito o livro para fazer escândalo. Acontece que, mesmo sem a previsão do referido articulista, o que causou estranheza à época da publicação do romance é o que, hoje, faz com que a obra seja relida. E daí que o romance apresente “imperdoáveis defeitos”? Permanece a indagação de leitores preparados sobre que defeitos seriam estes? De mais a mais, os critérios de valoração sempre volúveis, mudam como os ventos, os modismos e, até, as ideologias de mais variadas – mesmo que nem sempre cabíveis – orientações. Manuel Bandeira procurou reabilitar os méritos de Júlio Ribeiro como romancista, considerando principalmente A carne um romance cheio de grandes qualidades. É de praxe, nessas ocasiões, o novo acadêmico elogiar a obra de seu antecessor. Mas Manuel Bandeira poderia exaltar o gramático, o filólogo, endossando as restrições que a crítica mais tolerante faz a Júlio Ribeiro romancista. Não faço como supostamente tenha feito Manuel Bandeira. Quem pode garantir que o poeta de “Vou-me embora pra Pasárgada” e de “Irene no céu” tenha penas seguido a praxe, para ser, dir-se-ia “politicamente correto”? Não o sou também. O elogio, aqui implícito, assenta-se em boa dose bom senso, de percepção do que é devido ou não na proporção deste mesmo bom senso.

Por sua importância em sua época, foi eleito pela Academia Brasileira de Letras, com o Patronato da Cadeira 24, por escolha de seu primeiro ocupante, Garcia Redondo. Júlio César Ribeiro Vaughan nasceu em 10 de abril de 1845 na cidade de Sabará (Minas Gerais), estudou no Colégio Baependiano e posteriormente na Escola Militar, mas não concluiu os estudos aí já que os abandonou para dedicar-se ao magistério livre. Sua carreira foi bem promissora em São Paulo como professor, jornalista e escritor. Fez parte da Academia Paulista de Letras, funda e dirige o jornal O Sorocabano, como escritor foi muito polêmico. Uma de suas maiores polêmicas foi o livro A carne, como já se disse. O livro que inicialmente escandalizou a sociedade, mostra em seu contexto indícios claros de brutal escravidão, o divórcio, amores livres do catolicismo, o novo papel da mulher na sociedade: é uma obra bem característica do Naturalismo. Seus ideais eram de cunho abolicionista, anticlerical e defensor da liberdade.

Esta faceta da personalidade intelectual do autor corrobora seu retrato de polemista, como quem muitos dos estudos sobre ele existentes. As três grandes polêmicas da/na sua vida foram: a luta em torno da Gramática Portuguesa; o apoio na ofensiva contrária aos bacharéis paulistas, Prudente de Morais e Campos Sales; e a célebre polêmica – no sentido mais estrito deste termo – contra o padre Sena Freitas. Por conta de A carne, Júlio Ribeiro foi muito criticado por mostrar, com tintas naturalistas de explícita e declarada inspiração de Émile Zola, a sexualidade, o erotismo ao extremo. Tudo muito escandaloso para a época. O Padre Sena Freitas muito conservador, publicou um artigo denominado “A Carne de Bordel”, no qual descrevia o livro de Júlio Ribeiro como um naturalismo excrementício. “Pobre Júlio, tão ilustrado, mas tão derrancado no seu gosto literário! Ele não atirou pérolas a porcos, atirou pérolas sobre uma porcaria”, disse o reverendo, em sua clara excomunhão literária dirigida ao escritor mineiro. Júlio Ribeiro não ficou quieto respondeu a altura usando a “pena”, escreveu sobre o Padre criticando seus livros e sua pessoa. Com seu preparo de filólogo e seu conhecimento de Língua Portuguesa – duas de suas mais derramadas paixões – o autor das Cartas sertanejas não se fez de rogado. Pagou com a mesma moeda!

Como defensor árduo do Determinismo, do Positivismo, do Evolucionismo e do Romance naturalista, Júlio era totalmente contra o formalismo e o conservantismo. Aderiu às ideias modernas de sua época, tornando-se um intelectual progressista e eclético. Era filho do casal George Washington Vaughan e Maria Francisca Ribeiro Vaughan, professora pública, com quem fez os estudos de instrução primária, matriculando-se depois em um colégio mineiro. Deixou-o para vir estudar na Escola Militar do Rio de Janeiro, em 1862. Três anos depois, interrompia o curso militar para se dedicar ao jornalismo e ao magistério. Tinha adquirido, para essas atividades, os mais completos recursos: conhecia bem o Latim e o Grego e tinha conhecimentos de línguas modernas, além de conhecer música. Fez concurso para o curso anexo da Faculdade de Direito de São Paulo, na cadeira de Latim, ainda na Monarquia. Na República, de cuja propaganda participara, foi professor de Retórica no Instituto de Instrução Secundária, em substituição ao Barão de Loreto.

O jornalismo talvez tenha sido o seu campo de atividade intelectual mais constante. Foi proprietário e diretor de diversos jornais, como O sorocabano, de 1870 a 1872, em Sorocaba; A procelária, em 1887 e O rebate, em 1888, em São Paulo. Colaborou também no Estado de São Paulo, no Diário Mercantil, na Gazeta de Campinas, no Almanaque de São Paulo, nos quais publicava seus estudos sobre filologia, arqueologia e erudição em geral. Foi um jornalista combativo, panfletário, polemista, ao defender a própria literatura contra os que o atacavam tinha posições firmes e sérias. É dele a seguinte assertiva: “Das polêmicas que tenho ferido nem uma só foi provocada por mim: eu não sei atacar, eu só sei defender-me, eu só sei vingar-me.” Quanto ao filólogo, procurou ajustar o rigor lusitano da língua aos moldes do linguajar nativo. Apesar disso, a sua gramática envelheceu, superada pelos estudos de filólogos posteriores.

Como romancista, filia-se ao Naturalismo. Seu romance A carne (1888) constituiu grande êxito, ao menos pela polêmica então suscitada, e com ele Júlio Ribeiro ficou incorporado ao grupo dos principais romancistas do seu tempo. No momento em que foi publicado, pareceu aos leitores impregnado da preocupação de exibicionismo sensual, o que provocou a irritação de muita gente. Vários críticos, entre eles José Veríssimo e Alfredo Pujol, atacaram o romance. O ataque principal partiu do padre Sena Freitas, com o seu artigo “A carniça”, publicado no Diário Mercantil. O romancista, espírito orgulhoso e altivo, republicano, inimigo acérrimo de batinas, revidou com uma série de artigos intitulados “O Urubu Sena Freitas”, publicados em dezembro de 1888. Este episódio está recolhido no livro Uma polêmica célebre. Não se trata de “um romance simplesmente obsceno”, como dizia Pujol, nem é um romance cortado de episódios ridículos, como insinuava José Veríssimo. Manuel Bandeira, em estudo que dedicou a Júlio Ribeiro, fez justiça ao romancista e ao seu romance.

Júlio Ribeiro, entretanto, tem contra a sua duração o tamanho reduzido de sua obra. Por outro lado, segundo alguns de seus críticos mais ácidos (eu diria, mesmo, ressentidos), seu pedantismo é muito maior que o dos demais naturalistas e tanto mais condenável quanto o público brasileiro era bem menos culto que o público francês. Daí o ridículo não só das longas conversas filosóficas com que nos brindam suas personagens, mas ainda o grotesco das imagens “científicas”, como aquela do jaguar no Padre Belchior de Pontes: “tremia de ferocidade e prazer como se lhe percorrera os membros uma corrente voltaica”. Isso é mais ou menos como se disséssemos hoje que “a emoção estourou no peito do amante tal qual uma bomba atômica”…!

Do conjunto de artigos publicados sobre sua obra e seu impacto no quadro da Literatura Brasileira, pode-se dizer que, a partir de todos, respalda-se a extraordinária repercussão de sua obra. Ainda que, em grande parte, os pareceres dos doutos críticos insistissem em desmerecer a obra do mineiro de Sabará, pode-se dizer que consagraram, de um momento para outro, o autor, modesto estudante do terceiro ano de Direito, em São Paulo. A carne, embora tenha trechos apreciáveis, lidos separadamente, é, no conjunto, um fracasso, dizem muitos de seus críticos. Parece mais um pastiche do Naturalismo do que, propriamente, um romance naturalista. Pessoalmente, tenho minhas dúvidas quanto à validade de tal afirmativa, assim, em absoluto. Penso que seria necessário um caminho denso e trabalhoso para poder chegar à conclusão tão peremptoriamente categórica. Se a obra em si, pelo seu mérito intrínseco, vale muito pouco ou quase nada, o efeito que ela causou no ambiente cultural do Brasil dos oitocentos, carregado de preconceitos românticos; no ficcionismo apegado ainda aos padrões idealistas de então, foi, indiscutivelmente, benéfico.

Júlio Ribeiro, polemista, enseja muito comentário a fazer. No escopo desta saudação, reduzo meu esforço a apenas pontuar aqui e ali, como venho fazendo, esta faceta instigante do autor. De mais a mais, meu interesse pessoal recai sobre a correspondência pessoal do escritor, se ainda existe em sua materialidade. Agradar-me-ia imenso poder ler estas cartas, analisá-las e, com elas, proceder a novo escrutínio sobre a personalidade literária de Júlio Ribeiro. Em termos de projeto, este seria o argumento para a minha economia de opinião sobre a faceta de polemista do autor.

Para falar um pouco mais disso, recorro a certa passagem do romance A carne. Na carta famosa e ridiculamente convencional em que Lenita comunica a Barbosa a definitiva separação entre ambos, a heroína refere ter visto o autor d’As farpas na Casa Garraux, transmitindo a respeito do mesmo a impressão que seria a do próprio Júlio Ribeiro. Ora, ora… esta afirmação não é minha. Extraída que foi das páginas de crítica de Brito Broca, quando comenta a série de artigos críticos sobre a publicação do romance de Júlio Ribeiro, estas duas informações me interessam pelo efeito que causam, ainda que não esperados por seus autores. Refiro-me a dois elementos: o epíteto “heroína”, dado a Lenita, uma das personagens principais de A carne e a possível “confusão” entre a opinião do narrador do romance a do autor, ele mesmo, sujeito cartorial que foi.

No primeiro caso, o epíteto faz elevar a valorização da personagem. O termo “herói” sempre está ligado a grandes feitos de um sujeito que por causa destes mesmos feitos merece tal tratamento. Se assim é com Lenita, associá-la a uma narrativa de pouca “qualidade” parece-me, no mínimo, um descuido. Em que pese a possibilidade de haver concordância com a opinião de que o romance não presta, reservo-me o direito de discordar da argumentação do crítico na referência que faço. Por outro lado, se existe a possibilidade de um leitor “confundir-se” ao tentar identificar a voz narrativa do/no romance – especificamente na passagem da visita de Ramalho Ortigão ao Rio de Janeiro – cabe lembrar que tal procedimento é muito caro e valorizado em diversos momentos da História do romance no Ocidente. Atualmente, inclusive, tal procedimento é, por vezes diversas, louvado e incensado como marca de pós-modernidade e inventividade. Logo, pensar esta questão, no contexto finissecular da Literatura Brasileira, chega a poder ser considerado um elogio.

Deixando as querelas de lado, cumpre lembrar que depois de Rosaura, a enjeitada, até os romances de Antonio de Oliveira, publicados entre 1898 e 1890, não encontramos nenhum outro vestígio de paisagem paulistana no romance brasileiro, senão em A carne, de Júlio Ribeiro. De novo, o episódio da carta de Lenita volta à ribalta. Desta feita, acompanhada de outra. Aquela em que Barbosa escreve a Lenita de Santos; e outra, a que que Lenita escreve ao ex-amante, comunicando-lhe o próximo casamento. São rápidas descrições em estilo jornalístico, sem cunho epistolar e muito menos literário. Aliás, o ambiente de capital paulista não desempenha nenhuma função no romance, que se desenrola, como se sabe, numa fazenda. Este detalhe desvela uma preocupação do escritor de Sabará com elementos narrativos que, em nada e por nada, têm a ver com as querelas sobre sua subscrição ao Naturalismo de Zola, por um lado; e ao sucesso ou não de seus projetos literários, por outro. A carta de Lenita a Barbosa, em A carne, ressalta os grandes melhoramentos que ali se vinham realizando nessa época, criando uma nova paisagem urbana e social. De mais a mais, há que se ressaltar que a propaganda literária tomou impulso com o Naturalismo, principalmente por causa do escândalo que as obras dessa corrente provocaram. A carne, neste contexto, foi precedida, acompanhada e seguida de um bate-caixa tremendo. Num dos artigos de Júlio Ribeiro contra o Padre Sena Freitas, na polêmica travada entre ambos a propósito de A carne, assinalo este trecho: “Proclo inventou uma coisa metafisicamente boa; Bonald a estragou um poucochinho, um és não és.”

Há algumas curiosas “coincidências” com seu antropônimo do autor da Grammática Portugueza: identifica uma escola, profissionais de áreas diversas – um pastor, um publicitário e um cantor – e também uma empresa de transportes. Para não fugir do protocolo, cumpre assinalar a produção de Júlio Ribeiro, composta por O Padre Belchior de Pontes, romance em 2 volumes, publicados entre 1867 e 1868; Grammática Portuguesa, de 1881; Cartas sertanejas, de 1885; A Carne, de 1888 e Uma polêmica célebre de 1934. Com esta produção, o autor consolida sua presença no cânone da Literatura Brasileira, pelo menos, naquele que compõe o ponto comum das suas diversas Histórias. Júlio Ribeiro falece, tuberculoso, em Santos, no primeiro dia de Novembro de 1890. Coincidentemente, Dia de Todos os Santos. Nada como os chistes da História…

Bibliografia

BROCA, Brito. Teatro das letras. Campinas: Ed.Unicamp, 1993.

________. Papéis de Alceste. Campinas: Ed.Unicamp, 1991.

________. Memórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.

MILLIET, Sérgio. Diário crítico. 2 ed. São Paulo: Martins: Edusp, 1981, v. IV.

SILVA, Ivanilson Bezerra da. Júlio Ribeiro: leitura sobre a trajetória de um intelectual maçom e protestante na cidade de Sorocaba na segunda metade do século XIX. Confluências culturais. Joinville, v. 1, n. 1, Setembro de 2012, p. 29-45,

SILVA, Maurício. Júlio Ribeiro polemista: um capítulo da História das querelas linguísticas no Brasil. Polifonia. Cuiabá, v. 22, n. 1, jan./jun. 2010, p. 64-74.

SILVEIRA, Célia Regina da. Intervenções e polêmicas: Júlio Ribeiro no universo letrado paulista. Anais do XIX Enconbtro Regional de História: poder, violência e exclusão. São Paulo: ANPUH-USP, 8 a 12 de Dezembro de 2008 (cdrom).

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