Mais alguns passos

Dando continuidade ao “tubo de ensaio” proposto e iniciado ontem. Aí vão mais algumas linhas.

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Um Dois Três de Oliveira Quatro conheceu Gertrudes em 1946, numa ilha em que passava férias. Ele preparava um livro de poemas e apresentou a ela. Anos se passaram desde este dia até que o livro de poemas foi publicado. Gertrudes fez questão de escrever a apresentação. Mas isso é assunto para outro momento dessa história. O interessante agora é dizer que Um Dois Três de Oliveira Quatro foi contratado por um político aposentado. O homem queria escrever suas memórias e precisava de alguém que dessa “forma” às inúmeras páginas que ele havia escrito. Foi assim que ele começou a escrever poesia. O que Um Dois Três de Oliveira Quatro não sabia é que havia um segredo, no meio das memórias do tal senador (Sim, ele foi senador, por vários anos. Não interessa saber de onde.). Ele abriria uma espécie de caixa de Pandora no país. Para tanto, todo cuidado era pouco. O tal senador aposentado não quis nem saber das censuras que já havia sofrido. Ligou o ventilador na farofa e deixou rodar. O trabalho deveria ser realizado na residência do senador, num balneário retirado da cidade. Quem fosse contratado deveria se comprometer a dedicar-se exclusivamente à escrita das memórias, instalando-se num apartamento anexo à casa que ficava numa praia isolada. Um lugar paradisíaco. O contrato foi assinado. O trabalho começou. Um Dois Três de Oliveira Quatro, não chegou a comentar o que se passou durante este período com seu amigo Escorrega Um Cai Três da Silva. Este descobriu tudo mais tarde, muito mais tarde. Enquanto trabalho na casa do senador Um Dois Três de Oliveira Quatro foi muito feliz. A secretária do dono da casa era muito simpática, os cozinheiros e o sommelier, educadíssimos. O motorista tinha uma cultura livresca invejável. Só não foi possível, ao contratado, dizer muito sobre o senador. Ele quase não aparecia. Depois da entrevista de admissão e dois ou três encontros preliminares, quando expos seu projeto, desapareceu. Mais adiante frente a gente conta o que se passou. Agora, basta acrescentar que o sommelier e a secretária vão ter papel preponderante no relato que desse período fez o contratado. É possível inferir que foi por conta deles que Gertrudes ficou tão tocada com a história de seu recente. Foi só depois, muito depois que ela veio a conhecer Escorrega Um Cai Três da Silva. Esse encontro foi em Coimbra. Os meses de trabalho correram tranquilos. Ere sessões de quatro a seis horas de leitura e escrita, os cafés com a secretária, os passeios a beira mar e os filmes, duas vezes por semana na sala de projeção da residência do senador, tudo transcorreu sem nenhum problema. Aos poucos Um Dois Três de Oliveira Quatro foi se acostumando a esta nova fase. O que era muito bom. Ele iria passar dez meses – o prazo determinado pelo senador e que ficou, até hoje, inexplicado – ali, até concluir a redação das memórias. Depois era trabalho editorial. O lançamento e, quem sabe, o sucesso do livro. Tudo estaria muito bem se saísse exatamente como o planejado. No entanto, ninguém, absolutamente ninguém, é capaz de controlar as vicissitudes do tempo, as manias do destino e as manhas das circunstâncias. Este trio infernal, como Orfeu, seduziam os incautos e os fazia sucumbir nas profundezas do imponderável. Um Dois Três de Oliveira Quatro trabalhou com afinco. A secretária, que revisava diariamente as páginas produzidas, comentou que o senador estava muito satisfeito. Nada poderia estar melhor que aquela vida tranquila. O ritmo, as condições, os agrados, superavam o cansaço e a preguiça que, às vezes, abatiam-se como nuvens cinzentas no horizonte. O contratado chegava ao ponto em que o senado destrinchava todo o processo de constituição do segredo. Era mesmo assustador. Numa trama sutil e delicada, algumas figuras imponentes estavam envolvidas e as consequências poderiam ser desastrosas para um número incontável de pessoas, como o foram. E como foram! Um Dois Três de Oliveira Quatro estava fascinado e curioso. Quanto mais dava forma ao texto do senador, mais curioso ficava. Quanto mais a curiosidade o levava a raciocinar, maior o fascínio. Ainda que ele tenha confessado para a secretária, num dos passeios a beira mar, num final de tarde chuvoso e frio, que não entendia um ou dois pormenores. É preciso dizer que esta curiosidade não se satisfez. A secretária fechou-se em copas. (…)

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2 comentários sobre “Mais alguns passos

    1. Ainda não sei. Se for, não há de ser toda a história… Se não, não haveria sentido em publicá-la toda, num só bloco. Mas, vou tendo os insights e dando os pitacos. Quem sabe um palpite alheio aqui ou alhures ajuda(m) na história. Bom final de semana! beijinho

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