Três leituras – final

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Hoje, o terceiro livro. Trata-se de obra portuguesa, de autoria de Mario Claudio, um sujeito super simpático – que tive o prazer de conhecer pessoalmente em 2014 – que já tem obra mais consolidada e, a passos largos, vai se fazendo independente deste ou de outras opiniões. O livro se intitula Astronomia. Uma única palavra e miríades de possibilidades semânticas e discursivas. O que dizer deste livro. Na falta de inspiração em que me encontro agora, reproduzo o que vai escrito na página eletrônica “Goodreads”:

“Dividido em três partes – Nebulosa, Galáxia, Cosmos –, este é o romance da vida do Mário Cláudio, um livro sobre três fases da vida de um homem, que não por acaso é o próprio escritor. Começamos com o «velho» que recorda a infância (a vida de um menino filho único e superprotegido, dos seus temores e fantasmas) e terminaremos com um «menino», que é muitas vezes aquilo que os velhos voltam a ser. Pelo meio, a zona mais densa, que conta a parte fulcral da vida de um homem, de jovem a maduro, desde a sua passagem pela guerra colonial, a universidade, a função pública, a escrita e o reconhecimento, até à descrição de factos polémicos e pessoais, que têm que ver sobretudo com o amor, a sexualidade e a forma como a cultura, com o passar do tempo, se tornou pouco mais do que um espectáculo (haverá muita gente – garanto – que se reconhecerá nestas páginas.)”

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É preciso dizer que não encontrei qualquer resquício de identificação da autoria deste parágrafo, o endereço eletrônico da mesma é: https://www.goodreads.com/book/show/26876827-astronomia. Deste mesmo parágrafo, já um pouco mais “inspirado” comento o que segue. Um: dizer que “não por acaso é o próprio escritor” pode ser a expressão escrita da mais pura, cristalina e inquestionável verdade e, por outro lado, ser a mera explicitação de uma conjectura, uma ideia possível – e plausível também” – que se pode tomar como verdadeira. Num e noutro caso, é preciso ter cuidado. No entanto, o que não escapa da faceta absoluta de certas verdades é que a felicidade dos títulos de cada parte do “romance” é insofismável. A associação de cada parte com uma fase da vida do protagonista que se pulveriza na escrita de Mario Claudio é mais que direta e inarredável. Invertendo o enigma da esfinge que levou Édipo a conhecer a “verdade”, o texto do escritor português põe a nu certas verdades inescapáveis do sujeito que sobrenada o universo das letras, da escrita, da leitura. Dois: em decorrência deste detalhe, outra característica da persona ficcional do autor é a associação e sua escrita a certo exercício historiográfico que coloca em cena o período que vai do final das guerras coloniais, a ditadura salazarista e o processo de “renascimento” da lusitanidade depois “dos cravos”. Três: não me furto à possibilidade de comentar a seguinte passagem: “descrição de factos polémicos e pessoais, que têm que ver sobretudo com o amor, a sexualidade e a forma como a cultura, com o passar do tempo, se tornou pouco mais do que um espectáculo”. Na verdade, a polêmica que poderia caracterizar o grau de pessoalidade da descrição referida leva a pensar na identificação do autor, ele mesmo, como o sujeito cartorial que assina a obra. No entanto, ainda que haja plausibilidade nesta abordagem, prefiro apostar na dúvida. Fico com o time que admira mais a engenharia ficcional do autor que completa lacunas biográficas – inclusive, possivelmente, a sus própria – com ilações, definições e encaminhamentos que, antes de explicações concludentes, buscam averiguar o grau de sensibilidade do leitor na perseguição de pistas e rastros que o texto vai deixando ao longo de seu relato. E, por fim, quatro: este livro só faz reforçar a admiração e o gosto que a leitura dos livros de Mario Claudio provocam neste humilde leitor. Claro está que, em lançando mais um volume, continuarei a ser seu leitor dedicado! Quem me acompanhará?

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2 comentários sobre “Três leituras – final

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