A leitura além da leitura: ensinando literatura (parte I)

O texto que segue não é meu, ao final de sua publicação aqui (ele virá em partes) eu indico a autoria, o local onde se pode encontrá-lo e meus comentários sobre o autor a quem muito admiro.

O texto “O que você sabe sobre a formação de leitores pode estar errado”, escrito por Pedro Almeida para a Publishnews, andou circulando bastante no Facebook. Nele, o autor discute o desafio da formação de leitores no contexto da atual crise do mercado editorial brasileiro, partindo da observação do sucesso da Bienal do Livro deste ano, que teria acertado em investir numa programação mais voltada às preferências de seus frequentadores. Com base nisso e em sua experiência na área, Almeida apresenta algumas sugestões que visariam estimular o prazer e o hábito relacionados à leitura, além, é claro, de fomentar a venda de livros. Como era de se esperar, as considerações acabam se dirigindo ao papel da escola.

Sintetizando, Almeida sugere que a leitura nas salas de aula precisa ser mais atrativa, priorizando obras contemporâneas (mais próximas da vivência dos jovens), de maior apelo comercial e de gêneros textuais diversificados, não apenas literários; que se deve enfatizar, sobretudo, a diversão — a ideia da leitura como entretenimento —, do contrário, continuaremos correndo atrás do próprio rabo, insistindo em estratégias que têm mostrado parcos ou nenhum resultado.

Quero me posicionar como professor de Literatura que atua do 8º ano do Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, tendo assumido uma estratégia oposta: desde o ano passado, nas turmas de 9º ano, apresento meus aprendizes, adolescentes de 14 anos de idade, a grandes clássicos da literatura mundial, começando com a Epopeia de Gilgámesh e concluindo com A divina Comédia. Leciono no Instituto Alpha Lumen, de São José dos Campos/SP — colégio que é também uma ONG de impacto social e um centro de pesquisa educacional —, onde exerço o cargo de coordenador de projetos da área de Linguagens e Humanidades. Porém, antes de relatar sucintamente minha experiência, gostaria de explicitar os pressupostos que orientam minha prática pedagógica.

O que é “formar um leitor”?

Se tomamos como meta “formar leitores”, devemos definir o que isso significa e, por consequência, quais são nossas expectativas em relação à leitura. Podemos começar distinguindo a formação de leitores da formação de consumidores de livros. Esta parece uma consequência lógica daquela, mas não existe uma correlação tão automática, e mais: tal distinção faz toda diferença no processo de ensino-aprendizagem. Não me tomem, porém, como inimigo do mercado editorial, alguém a vocifer por aí contra a mercantilização da literatura. Acredito que um mercado editorial bem consolidado é um indicativo de um meio cultural dinâmico e de um sistema educacional bem-sucedido.

Parece-me claro que, quando fazemos da formação de leitores uma de nossas principais preocupações (se não a principal), temos em mente mais do que a constituição de um mercado consumidor. Vivemos inseridos no universo da escrita, no qual aquele que não completou seu processo de letramento de maneira satisfatória enfrenta uma série de dificuldades, como na conquista de uma melhor colocação no mercado de trabalho e no exercício pleno da cidadania. E, neste âmbito, vamos de mal a pior. No ranking do Pisa de 2016, o Brasil, no quesito leitura, ocupa a 59ª posição entre 70 países, sendo que o prognóstico é de que, mantendo-se o ritmo atual, levaremos 260 anos para atingir o nível dos países desenvolvidos. Em pesquisa de 2017, o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa divulgaram que apenas 45% dos universitários brasileiros seriam plenamente proficientes na leitura, enquanto, na população em geral, esse índice cairia para ínfimos 8%.

Esses dados indicam o fracasso de nosso sistema educacional. Desse modo, o grande desafio é ajudar os aprendizes a desenvolverem as habilidades e competências necessárias à compreensão de textos de diferentes níveis de complexidade e de gêneros diversos, assim como possibilitar-lhes que se expressem convenientemente na forma escrita de acordo com as especificidades de cada circunstância. Neste nível mais elementar, “formar leitores” corresponde, redundantemente, a “formar indivíduos aptos a ler qualquer tipo de texto”; trata-se de uma formação mais genérica, portanto. A fomentação do hábito e do prazer da leitura entre os jovens contribuiria para alcançar esse objetivo. Como professor de Literatura, porém, devo me questionar sobre qual é, particularmente, o papel da leitura de textos literários nesse panorama.

Num plano elementar, a leitura é um fim em si mesmo, pois trata-se de uma aptidão fundamental no mundo contemporâneo. É o que chamo de função instrumental da leitura. Na prática, o que se tem, nesse nível, é uma subordinação da literatura à interpretação de texto, sendo esta a tendência que o ENEM e as recentes propostas de reforma curricular do Ensino Básico vêm adotando. Aqui, a literatura é uma modalidade textual entre outras a ser dominada, com a diferença de que se costuma esperar dela um aspecto mais lúdico. O texto literário deve gerar prazer, o que facilitaria o letramento, resultando, então, numa função hedonista da leitura. Não há dúvidas quanto à importância de ambas as funções para a tão desejada formação de leitores (a primeira, básica; a segunda, complementar, pois é possível, por força do hábito e de necessidades práticas, tornar-se um leitor proficiente sem desfrutar de prazer nenhum em ler). A função hedonista está diretamente ligada à leitura como hábito de consumo e, uma vez que Pedro Almeida orienta suas reflexões para a situação precária do mercado editorial, é natural que se concentre nela.

A literatura na formação do ser humano

Há, ainda, uma terceira função; esta, a mais difícil de ser atingida. Refiro-me à função formativa da leitura de textos literários, que está ligada não apenas à formação intelectual do aprendiz e à sua inserção no universo de referências que constituem a tradição literária, mas também à sua formação ética e afetiva. Em suma, adentramos no âmbito da literatura como cultura, tanto no sentido amplo de um conjunto de valores e saberes compartilhados por uma comunidade, quanto no sentido mais estrito de aprimoramento, de cultivo da personalidade. Dito assim, parece um pouco esnobe, mas permitam-me apresentar alguns testemunhos abalizados.

Antonio Candido, em “A literatura na formação do homem” (2002) e “O direito à literatura” (2011), defende a expressão literária como uma força humanizadora, entendendo por humanização “(…) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo” (2011, p. 182). Resumindo o pensamento de Candido, a literatura obtém tal resultado oferecendo uma configuração organizada e coerente para nossas impressões difusas acerca do mundo e de nossa própria subjetividade, trazendo à percepção aspectos da realidade que apenas intuíamos e possibilitando vivenciá-los por meio da imaginação, de modo a mobilizar nossas faculdades cognitivas e afetos. O texto literário suscita um tipo peculiar de aprendizagem, que opera muitas vezes num nível inconsciente e de maneira assistemática, mas que vai informando (esclarecendo e formalizando) nossa experiência subjetiva.

Seguindo em direção semelhante, Northrop Frye, em A imaginação educada (2017), define a literatura como linguagem trabalhada pela imaginação, criadora de “modelos possíveis da experiência humana” (p. 18). Tais modelos, quando ascendem à condição de paradigmas, servindo como referência ao maior número de pessoas (com abrangência espacial e temporal), cristalizam-se na tradição como clássicos. Além disso, a literatura, por meio da imaginação, engendra um mundo à imagem e semelhança do homem, atribuindo significado humano à nossa vivência da realidade. Nesse mundo, impressões “vagas e desorganizadas” assumem uma forma inteligível.

O texto literário é ferramenta de descoberta de si e do mundo. Por meio dele, percebemos mais claramente o que parece confuso e indeterminado. Uma experiência bastante comum dessa sua propriedade temos quando, ao ouvir a letra de uma música ou ao ler um poema, pensamos “isso parece ter sido escrito para mim”, o que decorre do fato de o texto formalizar e tornar perceptíveis sensações, intuições e afetos que, até então, acumulavam-se informes e caóticos em nossa vida interior. Isso também explica como algumas citações literárias acabam se sedimentando no imaginário popular, tornando-se lugar-comum e ajudando a expressar certos estados de espírito, como, por exemplo, “ser ou não ser, eis a questão”, “tudo vale a pena se a alma não é pequena” e o tão nosso “e agora, José?”.

Como a literatura não se limita à nossa experiência sensível ou subjetiva, mas à imaginação, ela se torna também uma ferramenta de autoinvenção: por meio dela, vivenciamos e concebemos o que não somos e o que ainda não sabemos nem sentimos, transformando-nos durante o processo. Ler um texto literário é experimentar-se outro, abrindo-nos a senda da alteridade. Carregamos um pouco de cada autor, de cada obra que nos marcou, o que significa dizer que fragmentos de leitura passam a nos constituir subjetivamente. Porém, essa marca, esse poder de o texto literário imprimir-se em nossa alma, não tem necessariamente a ver com diversão, que muitas vezes se confunde com mera distração, ou com qualquer tipo de catarse. Há leituras que são verdadeiramente penosas e perturbadoras, das quais emergimos mais angustiados.

O exercício da alteridade na leitura literária possui outra consequência desejável: vivenciando, na imaginação, emoções e pensamentos que não os nossos, estimula-se a empatia e o respeito às diferenças, tanto do ponto de vista individual quanto do cultural. Além de nos colocar “na pele” de outras pessoas, chamando a atenção para as múltiplas posturas existenciais possíveis, a leitura, facultando a imersão no imaginário de outras culturas e épocas, ajuda a perceber as continuidades e descontinuidades do processo histórico e a relativizar determinados pressupostos que, parecendo universais a nossos olhos, são, na verdade, produtos de uma conjuntura particular. Mirar-se no espelho da diferença é também um modo de nos percebemos de maneira mais consciente.

A crise da literatura

Em 2009, foi publicado no Brasil A literatura em perigo, de Tzvetan Todorov. O pequeno livro foi prontamente recebido e divulgado por autores e críticos que, àquela altura, defendiam o entretenimento como valor estético legítimo, procurando abrir caminho, na crítica especializada e nas salas de aula, para uma literatura de caráter mais comercial. No livro, Todorov se queixa da perda de espaço e prestígio da literatura na cultura francesa, acusando tanto os autores contemporâneos — que teriam se afastado da experiência do leitor comum ao aderir ao formalismo, ao niilismo e ao solipsismo — quanto a maneira como o texto literário é apresentado nas escolas: como ilustração de categorias teóricas e de características estilísticas historicamente circunscritas; o texto como mero pretexto. O teórico búlgaro, ironicamente um dos principais nomes do estruturalismo nos estudos literários (corrente de natureza imanentista), advoga um retorno ao significado das obras, à sua dimensão semântica, por meio do qual é possível se comunicar mais diretamente com a experiência do educando.

A partir daí, alguns equívocos se deram na divulgação das ideias do livro. O primeiro diz respeito ao papel dos best-sellers na formação literária dos indivíduos. De fato, Todorov realiza uma defesa desse tipo de leitura:

É por isso que devemos encorajar a leitura por todos os meios — inclusive a dos livros que o crítico profissional considera com condescendência, se não com desprezo, desde Os três mosqueteiros até Harry Potter: não apenas esses romances populares levaram ao hábito da leitura milhões de adolescentes, mas, sobretudo, lhes possibilitaram a construção de uma primeira imagem coerente do mundo, que, podemos assegurar, as leituras posteriores se encarregarão de deixar mais complexas e nuançadas [sic]. (2009, p. 82).

Para Todorov, a leitura literária não é um fim em si mesmo; ela tem como objetivo oferecer uma “imagem coerente do mundo”, atribuindo à realidade um significado humano. Assim, existe uma hierarquia das obras, sendo as de maior apelo popular ou comercial um primeiro passo em direção às que fornecem uma imagem “mais complexa e nuançada” do real. Ou seja: a função hedonista da leitura deveria ser apenas um chamariz, uma estratégia de sedução para colocar o jovem em contato com obras que cumprem melhor a principal função que Todorov atribui à literatura:

Em regra geral, o leitor não profissional, tanto hoje quanto ontem, lê essas obras não para melhor dominar um método de ensino, tampouco para retirar informações sobre as sociedades a partir das quais foram criadas, mas para nelas encontrar um sentido que lhes permita compreender melhor o homem e o mundo, para nelas descobrir uma beleza que enriqueça sua existência; ao fazê-lo, ele compreende melhor a si mesmo. O conhecimento da literatura não é um fim em si mesmo, mas uma das vias régias que conduzem à realização pessoal de cada um. (grifo meu — 2009, p. 32)

A função da literatura é a “realização pessoal de cada um”, o que passa por “compreender melhor o homem e o mundo” para “descobrir uma beleza que enriqueça sua existência”. Se a mera apreensão de categorias teóricas e históricas não é suficiente para atingir esse propósito, tampouco o é uma leitura que se restrinja às funções instrumental e hedonista. No entanto, importa frisar que o entretenimento não é fator de exclusão da leitura como formação pessoal. Há obras que divertem da maneira mais franca possível e, ainda assim, são capazes de suscitar um olhar enriquecedor sobre a existência humana; é o caso, para ficar num exemplo, do Dom Quixote de Cervantes.

O segundo equívoco na compreensão das ideias de Todorov em A literatura em perigo se refere à natureza da crise à qual o título alude. Pode-se deduzir que Todorov não está se queixando de uma retração da leitura de textos literários na França, o que os dados do mercado editorial francês poderiam desmentir, mas do recuo da participação da literatura na formação intelectual e afetiva dos franceses, isto é, ao não desenvolvimento de sua função formativa, o que certamente diz respeito também à qualidade das obras lidas. Se o ensino tecnicista e o hermetismo da produção contemporânea impedem a literatura de realizar seu propósito maior, a oferta exclusiva de títulos de qualidade duvidosa tampouco ajudaria.

Não se trata de lutar contra o funcionamento do mercado, pois autores escrevem o que bem entendem, editoras publicam conforme os critérios que acham mais apropriados e leitores escolhem o que lhes apraz. Mas aí entra o papel da escola: sem menosprezar o gosto do aprendiz, deve-se fundamentar seu poder de escolha, oferecendo-lhe referências e critérios de juízo estético, tendo em vista uma formação humanizadora e não apenas a conversão do indivíduo num decodificador de mensagens transmitidas na forma escrita.

Continua…

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