Palavras soltas

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De repente, um sujeito de aparência sinistra começa a falar. Não se sabe, de início, com quem é que está a falar. Usa óculos escuros, mesmo estando em ambiente fechado. Figura sinistra, mas fala com calma, sensatez e o que diz faz todo o sentido, tem lógica e encontra respaldo em informações de contexto. No entanto, permanece a dúvida. Será? Ele menciona a “nova ordem mundial”, nomes que são correntes em comentários de economistas, historiadores, cientistas políticos, sociólogos e, claro, teóricos da conspiração que jamais deixam o plantão. Por isso a dúvida. Será? Chegamos a um estágio da “civilização” que já não se pode levar a sério, por princípio, NADA do que se ouve ou se lê. Por que será? Para onde foram as condições que faziam com que um sujeito, apenas com sua palavra, uma afirmação verbal sua, conseguia manter a crença/lealdade/confiança de outrem. Se fulano disse isso, é porque é possível levar a sério. Nada do que ele diz pode ser deixado de lado. Sua palavra é uma ordem. Tudo isso, um dia, já foi assim, desse jeitinho. Estou a acompanhar uma série no Netflix que me faz pensar nisso: Gran hotel. Para além do prazer quase incomensurável de ouvir a língua de Cervantes falada com o sotaque da Andaluzia (con las zetas, como se diz por ahí!) – a história se passa nos anos iniciais do século XX – este dado: o valor da palavra, nela mesma, é uma das características do texto da série e, por extensão, daquela situação de que sinto saudades, ainda que tenha nascido em 1956. Lá para as tantas, no vídeo que menciono, aparecem duas figuras públicas de peso: um professor e um roqueiro. Ambos emitem opiniões rápidas e, aparentemente, “funcionam” ali como respaldo do discurso que a figura sinistra desenvolve e que, como disse, faz todo o sentido. Na era da “comunicação”, momento em que nada parece ter mais valor que a informação, por mais supérflua que seja, a fugacidade do tempo se faz mais que pertinente e penso em Camões, quando diz, na Canção X, o que segue:

Que se possível fosse que tornasse

O tempo para trás, como a memória,

Pelos vestígios da primeira idade

E, de novo tecendo a antiga história

De meus doces errores, me levasse,

Pelas flores que vi da mocidade.

As palavras do poeta, em nada adormecidas, ecoam, implícitas nas ideias que quis exarar aqui, a partir de episódio banal, colorido com tintas do sinistro parecer do orador do vídeo. Por que será que não podemos mais voltar a acreditar na palavra, como ela se nos apresenta?

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3 comentários sobre “Palavras soltas

  1. Porque a palavra foi banalizada. Com a disponibilidade de recursos tecnológicos, a palavra perdeu o seu valor porque todo mundo pode dizer o que bem entende sem qualquer compromisso. Haja vista o crescimento de fake news e fake news que negam outras fake news, i tacko dalje, como diria você. Tempos outros. Beijinho.

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