Leitura… deleite…

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Um homem, devagar recorda e degusta as memórias que tem de sua amiga. Fala em primeira pessoa sobre ela e sobre si mesmo. Muda para o registro plural, um “nós” indefinível, para fazer corroborar muitas das passagens que vai cosendo ao longo de seu relato. Para quem? Não se sabe. Mas aqui, do outro lado da página, sabe-se que esse outro é, obviamente, o leitor. E então, a primeira intuição: terá sido o autor próximo de sua protagonista. Terá com ela partilhado, de alguma forma, contato? A dúvida persiste ao longo de 117. O texto não é longo. O tipo gráfico, muito agradável ao olhar atento do leitor, espraia-se pelo volume esbelto que a Imprensa Nacional-Casa da moeda fez publicar. A capa do livro é sobrecoberta com uma outra, mostrando ilustração da protagonista em pleno ato. Há algumas fotografias e uma que outra ilustração, a descansar (?) os olhos leitores, quase que exatamente ao meio do volume. Desavisadamente, pode-se pensar que se trata de uma biografia. Não deixa de sê-lo, mas não o é, de fato, ipsis litteris. E aqui não faço mero jogo de palavras. O autor é mais que conhecido por sua incrível capacidade de penetrar nos labirintos mais escondidos de uma biografia para aí encontrar falhas, dúvidas, lacunas, surpresas e omissões (voluntárias, às vezes, mas nem sempre!). O texto, exemplo de poesia em prosa, caudalosa e milimetricamente costurada com o fio de ouro da Língua Portuguesa, traduz, com melancolia calculada e brilho elegante, a visão que um poeta tem de outro artista. Mário Cláudio, de fato, neste livro é poeta., na acepção mãos plena e ampla da palavra. Ele é autor do livro que leva o nome de sua protagonista Guilhermina. Diz uma das orelhas do livro que se trata do segundo volume de uma trilogia a que o autor dá o nome de Trilogia da mão composta por Amadeo, Guilhermina e Rosa. Um exemplo é o trecho que segue, final do texto de Mário Cláudio:

Aterrou já, vinda da London Clinic, onde a operaram, através de cujos pavilhões seu reconhecimento exprimiu a toda a equipa. Com alguma ambiguidade, confiará a um amigo “levo umas injeções, se não fizerem efeito, não haverá terapêutica.”  Ao desembarcar, todavia, com um molho de jasmins, irá afirmar que chega para morrer. Ocupará a quinzena seguinte, frenética de despacho, enviando mensagens sarrabiscando conselhos e disposições. Na cama estará, depois, com o violoncelo que pediu lhe deitassem ao lado, tendo exigido que lhe arranjassem o cabelo, lhe cuidassem das unhas, as sobrancelhas lhe colorissem e os lábios. Escolheu uma veste branca, sem arrebiques, ordenando que quando morta lha pusessem, implorando que lhe ocultassem bem a tumefacção das pernas. À cave mandou, então, Clarinda, a buscar uma garrafa de champagne, que diante de si quis ver ser servido. Era o Domingo de trinta de Julho de cinquenta desse portuense calor sem remédio, que aos boeiros faz expirar um fedor narcotizante. Fora a rua tomada pela desbocada chinfrineira dos adeptos de futebol, do jogo saídos com suas bandeiras, uma lata velha chutando, que até o silêncio, pelo empedrado, irá retumbar. Sustentou a bebida, com um sorriso de mofa, logo soltou três gritos sincopados. Na barra do lençol, esforçados, seis vezes os dedos se lhe moveram, […]. Eram os compassos de uma bourrée de Bach, infinita alegria, da terra levantada para ser relâmpago, à treva recolhida, saciada.

Sobre mim, porém, é que a fronte reclina, a velha cabelei­ra docilmente se aparta. Por ela fiz repicar os sinos do Porto, os de São Francisco e os de São Nicolau, passarei nas avenidas de Neuilly, a um portão iluminado me quedando, ao Tâmisa fui descendo, com Outubro vergastando os castanheiros. Ao fim, como dantes, a entrevejo, no desvairado fato de anêmonas escarlates, quando me trava do braço e me leva através dos convidados, ao ouvido, num murmúrio, me segreda “acha que vai o embaixador gostar do meu vestido?”

Daqui o enxergo, também, ao manuscrito que me foi entregue, no embrulho imenso de papel manteigueiro, com o barbante que em toscos nós o estreita. Só Deus sabe se algum dia haverei de o publicar, sob meu nome ou de um outro, em vez desse, funesto, que o travo dos meses me acidulou. Voga Priscila contra um renque de salgueiros, nau pejada de futuro da carga liberta das vidas que se saldaram. Por entre regas, poeiras, alguma estrela já, fica Álvaro debruçado sobre a terra, sem remissão a cavando. A cada golpe seu, calhaus e radículas desentranha, cacos cocheiros, ossadas. Guilhermina partiu, muito longe demora, nunca mais saberemos que história contaria.

O trecho foi retirado da edição da Imprensa Nacional-Casa da moeda, publicada em 1986, como parte da “Biblioteca de autores portugueses”. Trata-se de ficção biográfica ou biografia funcionalizada de Guilhermina Suggia. Filha de Augusto Jorge de Medin Suggia, de ascendência italiana e espanhola, e de Elisa Augusta Xavier. O pai foi violoncelista no Real Teatro de São Carlos e aluno no Conservatório de Música de Lisboa. Já casado recebeu o convite para dar aulas nas escolas da Santa Casa de Misericórdia de Matosinhos. O casal foi viver no Porto onde nasceram as duas filhas do casal: Virgínia e, 3 anos mais tarde, Guilhermina. Passados 2 anos, tiveram que deixar a casa da Ferreira Borges, que foi demolida e foram morar na Casa de Manhufe (ainda de pé), em Matosinhos. O pai estuda muito e Guilhermina com 2 anos já pede para ouvi-lo e para ele tocar determinadas músicas. Neste ambiente familiar, Guilhermina, aos 5 anos, pede ao pai para ensinar-lhe a tocar violoncelo. O pai andava felicíssimo com as raras qualidades que ia descobrindo na filha. A sua primeira aparição pública verificou-se quando tinha sete anos de idade, em Matosinhos. Guilhermina ao violoncelo e a sua irmã Virgínia ao piano, eram convidadas para atuar no seio cultural portuense. Com apenas 13 anos, Guilhermina era violoncelista principal da Orquestra do Orpheon do Porto, tocando também com o quarteto de cordas Bernardo Moreira de Sá. No verão de 1898, o já famoso violoncelista catalão, Pablo Casals, abrilhantava as noites no Casino de Espinho. Moreira de Sá recomenda a Augusto Suggia que vá com a filha escutar Casals. Assim foi e, no final da récita, vão conversar com o violoncelista. Augusto fala-lhe da filha e Casals sugere que ela toque para a ouvir. Passa-lhe o seu violoncelo. Ficou de tal modo agradavelmente surpreendido que se propõe dar-lhe aulas durante esse verão, ali em Espinho. E uma vez por semana, Augusto e Guilhermina vão até Espinho. Em 27 de Março de 1901, as duas irmãs tocaram no Palácio das Necessidades em Lisboa, para a Família Real. Com 15 anos apenas, Guilhermina respondeu a uma interpelação da rainha Dona Amélia sobre qual seria o sonho da sua vida, dizendo que gostaria de aperfeiçoar os seus conhecimentos musicais no estrangeiro. No trecho acima, há que se notar duas coisas: a oscilação da voz narrativa, num breve momento, do singular para o plural. A atenção a este “detalhe” funciona como segredo de cofre para acompanhar as sinuosas curvas poéticas que Mário Cláudio imprime a seu texto, comme d’habitude. O outro tópico a ressaltar é a descrição do momento da morte de Guilhermina que, depois de pedir que colocassem seu violoncelo a seu lado, na cama em que jazia, movimenta os dedos. São seis movimentos. O narrador menciona de onde teriam saído os movimentos, símile de frase musical das mais agradáveis para a moribunda. Uma cena lírica na mais cristalina expressão de lirismo de que a Língua Portuguesa é capaz, através, obviamente, de um artista superior e delicadamente soberbo: Mário Cláudio. A releitura do livro foi provocada por comentário de Jorge Valentim, professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal de São Carlos. Em postagem no Facebook, por participar de certa brincadeira que pedia a referência a dez cenas literárias mais tocantes, uma das que ele citou, com muita ênfase foi exatamente a que menciono aqui. Ele tem razão. É linda! Tocante. Obrigado, Jorge!

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