Releituras

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“O inesperado convite, dirigido ao mestre por Giuliano Lorenzo de’Medici, para que executasse em Roma um programa de obras extraordinárias, libertaria Salai, e ao menos tempo­rariamente, da dolorosa emulação que sustentava com Melzi. Irmão de Leão X, o papa reinante, Giuliano requeria do Homem um conjunto de maravilhosas benfeitorias, a empreender nos jardins do Belvedere. Sempre o rapaz pintara a corte pontifícia como um teatro de delícias opulentas, e de irresistíveis relaxações, entremeadas pelo balanceio dos turíbulos exaladores do incenso, e pelo roçagar da cauda vermelha dos cardeais. Aí se celebravam, ou assim o entendia ele, ininterruptos festins, atra­vessados por bandejas de prata, carregadas de frutos exóticos, e entre gritos e suspiros dos convivas que bebiam vermentino por cálices multicores, e que distraidamente escutavam os com passos de um alaúde que ao longe se tangia. Nas câmaras de tectos recamados de oiro, e a todo o instante, desfaleciam ana­fadas cortesãs, resvalando de um leito de penas para o soalho coberto por alfombras de alto preço. Seguia depois, e ao clarão dos archotes, uma leva de pecadores indultados na Quaresma, a cumprir um roteiro das ruínas do império fundado pelos filhos da loba, e detendo-se num qualquer lugar de mármores, um templo, um cemitério, ou umas termas. Entoavam em coro sinistras ladainhas, guiados por uma feiticeira de pele alvissima, e conhecedora da gramática dos velhos augúrios, a qual, uma vez concluído o rito, completamente se desnudava para se flagelar. As bancas de jogo armavam-se pelas esquinas, e as mulheres dos embaixadores do mundo inteiro, aborrecidas na canícula, e exasperadas com os mosquitos, desciam negligentemente à rua, a tentar a sorte aos dados, ou a recrutar os favores de algum mariola, adolescente ainda, que as salvasse do pasmo em que embruteciam. O moço via tudo isto, e enumerava pelos dedos quanto alegremente haveria de fazer na Cidade Eterna. Oferecessem-lhe a oportunidade, congeminava ele, e converteria o amo em personagem muito mais famosa do que era, e cujos serviços poderiam vir a ser disputados pelo Grão-Mogol, ou pelo Prestes João das índias. E desta forma ia-se esquecendo dos agravos que Francesco Melzi lhe infligia, e daquele desprimor com que o artista dera em castigá-lo, seduzido pelas arti­manhas do Bellissimo Fanciullo que o trazia nas palminhas. Correu por conseguinte a entrouxar os aprestos da oficina, e os trastes de sala e quarto, e botou-se a despedir-se das lavadeiras do Adda, reconciliadas enfim com ele, e que não paravam de lamentar a perda do malandrete que tanto as escandalizara, mas que não menos as pusera num sobressalto fora do comum.

O primeiro dos ágapes para que foram convidados, recém admitidos numa Roma que a ameaça da Reforma apenas de leve tocava, realizar-se-ia no palácio do então embaixador por­tuguês, e futuro cardeal, Dom Miguel da Silva. Concorria ao festejo uma multidão de nobres e purpurados, ora imersos na atonia da ociosidade, ora arrastados pelo impulso da dissipação. Deambulavam pelas estâncias aquecidas a braseiros, isto porque andava Fevereiro inclemente de um frio que se entranhava, mais ou menos curiosos da redentora surpresa, ou expectantes da liberdade inopinada. O cardeal abria os braços aos que iam entrando, muito solícito na colheita de informes sobre a saúde de cada qual, ou na obtenção de notícias da última trica vaticana. E os cães da casa, habituados a vaguear sem qualquer disciplina, ladravam a todo o intruso que desse mostras de que­rer invadir-lhes o espaço vital. Pietro Aretino, o obeso poeta que pedia meças às enxúndias do próprio Santo Padre, deslocava-se vagarosamente de quadra em quadra, amparado por vali­dos que lhe bichanavam à orelha nome e função dos hóspedes com que ia topando. E como a baleia que engolira Jonas, o pro­feta, arrastava-se ele até se espapaçar na chaise-percée que um fâmulo lhe achegava, e onde ao longo do serão iria esvaziando as tripas atestadas. Vinham os criados de Dom Miguel, erguendo acima da cabeça candelabros de oito velas acesas, a anunciar que se achavam franqueadas as salas de pasto, e de tempos a tempos um tinido de campainhas avisava do ingresso de novo serviço de acepipes. Foi numa dessas alturas que, um pouco de improviso, e um pouco de maneira programada, se encenou um quadro vivo que contava Salai como protagonista, e que resultava da encomenda que o representante diplomático, e promo­tor da recepção, fizera ao mestre florentino, descido às margens do Tibre. Soou uma trompa rouca, descerrou-se uma cortina de damasco azul, e ali estava ele, o eterno aprendiz, acomodado sobre um rochedo, de perna traçada,  e exatamente na posição dos rapazolas que pelas adjacências do Castelo de Sant’Angelo, e  apoiando-se nos muros meio derruidos, ofereciam préstimos, entre submissos e displicentes, a quem ia passando. O anfitrião bateu palmas, e apresentou em voz impostada aquilo que designava por Baco nos Campos de Tebas, e que consistia na pessoa do moço, mal coberta de peles de animais, e de indicador em riste, a afrontar um mistério à sua esquerda, ou a exprimir sem palavras uma infâmia inominável. O pintor manifestara já o eu engenho, ao fazer deslizar  pela távola principal, e espavorindo tutti quanti, uma grossa cobra de patas a cujo dorso havia colado com azougue umas asas escamosas que se agitavam, tudo de molde a conformar uma horrenda criatura, à qual nem sequer faltavam os cornos retorcidos, 0s olhos pintados, e a barbicha diabólica. Do avesso do reposteiro em que se ocultara, magicando geometrias que o distraíssem de semelhante cafarnaum, Leonardo avistou o seu protegido, encarnando o mais debochado dos deuses do Olimpo. E com um soluço na garganta, e de mão tremula, rabiscou no caderninho que retirara dos dentros de sua véstia, «Bacco no, San Giovanni Battista».”

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É longo o trecho. Eu sei. Nos dias que correm, sobretudo pela síndrome de Peter Pan que acomete boa parte da população do planeta – ainda não consigo alcançar o sentido de tal falta de senso – eu temo pela falta de capacidade de leitura de muita gente… infelizmente. De um jeito ou de outro, não resisti. O trecho foi retirado de um livro que acabo de reler, repetindo o mesmo prazer de quando da primeira volta, ainda em Coimbra, no já aparentemente distante inverno de 2014. Trata-se de Retrato de rapaz, do Mário Cláudio. Quem já leu os livros dele, vai poder reconhecer sua marca personalíssima no exercício narrativo que se multiplica em seus numerosos volumes. A alegoria, a melancolia, a ironia – com os devidos pedidos de desculpas pela insistência numa rima paupérrima, mas involuntária – acompanham a acuidade e o mordaz olhar sobre a existência humana em sua mais substancial natureza. Eu gosto. E não estou sozinho neste gostar. O volume de onde retirei este trecho relata uma visão bastante peculiar de Leonardo da Vinco em sua biografia, aqui ficcionalizada. Carregada de tinturas homoeróticas, esta narrativa de Mário Cláudio compõe, com Boa noite, senhor Soares e O fotógrafo e a rapariga, o que se conhece como “Trilogia da velhice”. Esta expressão, ouvi ou li, alhures, e não vou forçar a memória para saber exatamente onde. Fica, entretanto o convite… implícito para ler o autor!

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