Poesia

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Poemas relâmpago

I

Silêncio e abandono, precisos.

Momentâneo exílio, audição do abismo, antes da pulverização

da rua, longa.

A travessia do telescópio à cata de estrelas.

A palavra ausente no fio dos dias.

 

II

Nem multidão, nem vazio:

no meio.

A pertinaz constância, presente eterno,

a voracidade absoluta do agora.

 

III

Verso,

Porto seguro da letra perdida.

Trabalho.

O princípio da incerteza até o horizonte.

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Bobeiras

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Em algum lugar do passado, encontrei o texto que segue. Já não me lembro de quem é a autoria. Vai entre aspas porque, por óbvio, não fui eu a escrever… A bobagem é tamanha (Ou não! Como diria o chato do Caetano Veloso!) que, matando tempo aqui, resolvi fazer dele minha postagem de hoje.

“ATÉ QUE ENFIM AS RESPOSTAS

Um sociólogo, formado pela UEAC, fez uma coisa que poucas pessoas imaginam ser capazes: responder perguntas! Sabe aquelas perguntas bestas que algum desocupado fez circular na Net? Pois é, outro desocupado, ou melhor, um sociólogo, resolveu responder (ACREDITE!!!)
1) Por que laranja chama laranja e limão não chama verde?
PORQUE LARANJA VEM DO ÁRABE “NARANDJA” E LIMÃO VEM DO PERSA “LAIMUM”: SÃO DE ORIGENS DIFERENTES. ALÉM DO MAIS, A COR RECEBEU O NOME DA FRUTA E  NÃO O CONTRÁRIO.

2) Por que lojas abertas 24 horas possuem fechadura?
PORQUE ELAS FECHAM EM FERIADOS E DIAS SANTIFICADOS.

3) Por que “separado” se escreve tudo junto e “tudo junto” se escreve separado?
PORQUE “SEPARADO” É UM ADJETIVO E “TUDO JUNTO” É UM PRONOME INDEFINIDO ASSOCIADO A UM ADJETIVO.

4) Por que os kamikazes usavam capacete? (BOA!!!)
PORQUE NO CÓDIGO DE HONRA DA AERONÁUTICA, O CAPACETE FAZ PARTE DO  FARDAMENTO, QUE É A IDENTIDADE DA CORPORAÇÃO (E DANE-SE O QUE ACONTECE  DEPOIS DA DECOLAGEM…)

5) Por que se deve usar agulha esterilizada para injeção letal em um condenado a morte?
PORQUE OS CONDENADOS À MORTE ESTÃO SOB A SUPERVISÃO DA ANISTIA INTERNACIONAL, QUE CONFERE AO PRESOS CONDIÇÕES HUMANITÁRIAS MÍNIMAS (E QUEM SABE A PENA NÃO PODE SER SUSPENSA NO ÚLTIMO MINUTO, E O ÚLTIMO PRESO FOR UM AIDÉTICO?)

6) Quando inventaram o relógio, como sabiam que horas eram, para poder acertá-lo?
ELE FOI ACERTADO ÀS 12:00 HORAS, QUANDO O SOL ESTAVA EM PERFEITA PERPENDICULARIDADE COM A TERRA.

7) Para que serve o bolso em um pijama? (Muito Boa)
PRA GUARDAR A DENTADURA, ESQUENTAR A MÃO ENQUANTO SE VÊ TELEVISÃO…

8) Por que os aviões não são fabricados com o mesmo material usado nas suas caixas pretas?
PORQUE A CAIXA PRETA É FEITA COM UM METAL DE ALTA DENSIDADE (MISTURA DE  FERRO, MOLIBDÊNIO, SÍLICA E TUNGSTÊNIO), E SE O AVIÃO FOSSE FEITO DESSE MATERIAL ELE NEM SAIRIA DO CHÃO, DE TÃO PESADO.

9) Por que o Pato Donald depois do banho sai com uma toalha em volta da cintura, se ele não usa short no desenho?
PARA QUE A ÁGUA DO BANHO NÃO ESCORRA PELO CHÃO, E A MARGARIDA NÃO FIQUE  ENCHENDO O SACO DELE!

10) Se o Super-Homem é tão inteligente, por que usa a cueca por fora da calça?
BEM… COISA DE VIADO, NÃO SE DISCUTE!!!

11) Por que os Flintstones comemoravam o Natal se eles viviam numa época antes de Cristo?
POR UMA QUESTÃO DE ARQUÉTIPO: QUEM CRIOU OS FLINTSTONES NASCEU DEPOIS DE CRISTO.

12) Por que aquele filme com Kevin Costner se chama “Dança com Lobos” se só aparece um único lobo durante toda estória?
OS LOBOS ANDAM EM MATILHA E DEPOIS DO FILME AQUELE LOBO ENSINOU TODOS OS OUTROS A DANÇAR…

13) Se o vinho é líquido, como pode ser seco?
SECO É A PERCEPÇÃO DO TANINO DO VINHO SOBRE A PORÇÃO MEDIANA DA LÍNGUA, QUE TANTO PODE SER SUAVE OU ADSTRINGENTE (É COMO FALAR QUE O CONHAQUE  ”ESQUENTA” NO FRIO).

14) Como se escreve zero em algarismos romanos?
EM ROMA NÃO SE CONHECIA O ZERO (POR ISSO AQUELE MONTE DE “PAUZINHOS”).
O ZERO FOI UMA INVENÇÃO DOS ÁRABES (ALGEBAR, ÁLGEBRA) QUE FOI TRAZIDA AO OCIDENTE PELOS MESMOS ROMANOS.

15) Por que as pessoas apertam o controle remoto com mais força, quando a pilha está fraca?
PORQUE O MAU DESEMPENHO DO CONTROLE PODE SER CAUSADO POR UM MAU CONTATO NAS TECLAS, E É UM REFLEXO CONDICIONADO, COMO ACELERAR MAIS QUE O NECESSÁRIO QUANDO SE ULTRAPASSA UMA CARRETA.

16) O instituto que emite os certificados de qualidade ISO 9000 tem qualidade certificada por quem?
PELO “BUREAU VERITAS QUALITY INTERNACIONAL”, QUE TEM NO SEU CONSELHO REPRESENTANTES DE VÁRIAS ENTIDADES QUE ATUAM NA ÁREA DE CERTIFICAÇÃO, É UM MECANISMO REVERSO.

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Poesia

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Estou pensando em restringir minhas postagens para uma única por semana. Juntas andam a preguiça e a absoluta aridez de assuntos, e isso me leva a decidir por este caminho. Mas não resisto. Hoje segue um poema que, penso, pode ecoar o dia de hoje e os tempos que advirão dos efeitos do dia de ontem.

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Cântico Negro

José Régio

Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

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Surpresa promissora

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Um romance dramático. Sim. Estaria eu, com isso, criando um novo subgênero narrativo? Um primo jovem do conto, do romance e da novela? Nem de longe. Não está em mim tal desfaçatez. Claro está que toda a quantidade enorme de tinta que foi gasta para preencher o fruto do desmatamento de áreas imensas para fabricação do papel é reconhecida. A tal Teoria da Literatura tem a sua serventia. Eu seria estúpido se negasse esta evidência. Por isso, não inovo em nada. A expressão “romance dramático” é apenas e somente a explicitação do que constato desse rapaz português, um gajo que já se mostra mais que promissor no âmbito das letras portuguesas. O nome dele é Jacinto Lucas Pires. O livro a que me refiro, quando uso a expressão que inicia este texto é: Perfeitos milagres (Lisboa, Cotovia, 2007). Na página da editora, encontramos a seguinte sinopse: “Uma mulher suicida-se na casa-de-banho de sua casa. O marido, uma estrela internacional de música pop, costumava descrevê-la como “uma bailarina sem escola, sem auto-consciência”. Impossibilitado de a voltar a ver, o marido isola-se num exercício de autocomplacência inevitável a qualquer indivíduo que experimente a morte. Disfarça-se para que ninguém o reconheça e parte à procura de memórias infantis. Carlos, jornalista português que vive no estado de Nova Jérsia, ambiciona escrever um livro sobre histórias verídicas que não podem ficar esquecidas. Um dia, seguindo uma pista de um grupo de actores que usa métodos secretistas para recrutar pessoas, deixa-se fascinar por Violet. Um músico e um jornalista. Duas pessoas que acabam por se cruzar graças a uma terceira personagem: um homem que passa os dias a representar como forma de defesa. E é neste universo masculino, se pensarmos que aqui as mulheres são seres extintos ou inacessíveis, que Jacinto Lucas Pires volta a surpreender com a sua escrita, semelhante a um argumento cinematográfico ou a um texto dramático, onde delineia inúmeros movimentos de câmara e didascálias, demonstrando sensibilidade e capacidade para narrar momentos de desespero.” De minha parte, leio o livro para além da sinopse, e fico com a perspectiva de um relato bastante intrincado beirando o relatório da preparação, execução e consequência da montagem de uma peça. O grupo de personagens aparecem como cast de um drama. Em nada e por nada, penso que a sinopse contradiz a direção da leitura que fiz vice-versa. Não é este mesmo o brilho e o prazer da leitura? Não tenho conhecimento do impacto da publicação desse livro, mas penso que, como em outros livros se constata, a sua verve “dramática” o coloca num patamar de interesse e importância que vale a pena conferir. D fundo de minha insignificância, sinto-me muito próximo do que diz um dos críticos do escritor português: “O contrário do mundo construído pelo romance clássico e os seus avatares anacrónicos que por aí proliferam. Eis a primeira característica do livro de Jacinto Lucas Pires digna de ser salientada: o não fazer cedência a uma nova inocência romanesca, o que lhe permite colocar-se à altura da matéria de que se apropria” (António Guerreiro, Expresso). Tomara que quem o ler, dele goste!

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Passatempo

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Um Dois Três de Oliveira Quatro

Maria Estrela do Brasil

Escorrega Um Cai Três da Silva

Último de Carvalho

Maria Estrela do Brasil

Maria Bucetildes do Amparo Preto

Jacinto Dores Aquino Pinto

Jacinto Dores Aquino Rego

Esta é uma amostra do que minha memória me concedeu reter de uma lista de nomes que uma funcionária da polícia federal (setor de passaportes), aluna de Teoria da Literatura nos idos de 80 na FAFI-BH, hoje UNI-BH, mostrou a mim. A cereja do bolo foi uma colega sua, menina lindíssima, negra como as asas da graúna, os dentes mais brancos que pode haver e um nome pra lá de exótico: Leididaiane de Abreu. Disse a ela que deveria ser modelo fotográfico, mas tinha que arrumar outro nome. Este não ia dar certo…

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Isso foi apenas um aquecimento para  que quero escrever hoje. Li, numa página de Facebook, de propriedade de uma ex-aluna da ufop que hoje mora em Portugal. O texto era uma resposta a certa postagem que dizia para um sujeito (o autor da resposta) que a festa dos gays ia acabar. Com certa dose de humor e ironia – ainda que um tanto tendenciosa, mas isso é parte de minha chatice – o sujeito responde argumentando que os gays sobreviveram ao Egito e aos gregos, à civilização latina, nas palavras dele, arrasaram no Renascimento, conseguiram sobreviver a duas guerras mundiais e à queda das torres em Nova Iorque. E terminava o texto dizendo que a festa gay não tem como acabar por conta da resistência. Não sei se o objetivo foi ser mesmo irônico, anedótico, ou se a intenção apontava para uma sintonia mais agressiva. Num e noutro caso, entretanto, o equívoco se revela. O de que o sujeito talvez não tenha se dado conta é que a “festa” não tem como acabar porque a sexualidade (e sua expressão) é fruto do desejo que se inscreve na ordem do instinto, o que, portanto, não pode ser delimitado por fronteiras culturais de definição e gramática. Mas sou um chato e mais não digo!

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Palavra delicada

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Um dos poemas de Cecília Meireles que muito me impressiona é o que segue:

Nós e as sombras

E em redor da mesa, nós, viventes,
comíamos e falávamos, naquela noite estrangeira,
e em nossas sombras pelas paredes
moviam-se, aconchegadas como nós,
e gesticulavam, sem voz.

Éramos duplos, éramos tríplices, éramos trêmulos,
à luz dos bicos de acetilene,
pelas paredes seculares, densas, frias,
e vagamente monumentais.
Mais do que as sombras éramos irreais.

Sabíamos que a noite era um jardim de neve e lobos.
E gostávamos de estar vivos, entre vinhos e brasas,
muito longe do mundo,
de todas as presenças vãs
envoltos em ternura e lãs.

Até hoje pergunto pelo singular destino
das sombras que se moveram juntas, pelas mesmas paredes…
Oh!, as sem saudades, sem pedidos, sem respostas…
Tão fluidas! Enlaçando-se e perdendo-se pelo ar…
Sem olhos para chorar…

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Poema mórbido? Não acredito. Etéreo e quase místico? AH… tem mais jeito. Pois… A poeta, com sua peculiar delicadeza desenha ambiente quase fantasmático que, na leitura que faço, lembra um pouco do clima que Machado deixa crescer no diálogo esticado entre Conceição e Nogueira. Este, tempos depois do acontecido – matéria de sua narração – lembra do que se passou numa noite de Natal, enquanto aguardava o amigo que o acompanharia à missa, homônima do título do conto. O tempo passado, os miasmas da memória e o impacto da sedução de sua interlocutora – sutil e delicada como a frase do escritor carioca – é que, a meu ver, podem ser elemento de comparação com o clima que Cecília oferece a seus leitores. A noite “estrangeira” (= estranha, diferente) tira a voz dos presentes à cena. Os “bicos de acetilene” fazem “monumentais” as sombras naquele ambiente de paredes “seculares, densas, frias”. O tempo e sua pátina se juntam à frialdade de sua própria passagem fazendo com que o símile aponte para algo próximo da morte, do fim, do irrecorrível impedimento do contato com a realidade. A última estrofe reforça esta imagem, penso eu, mas inaugura outra: a da afetividade aconchegada na intimidade que o frio e a noite proporcionam: “Sabíamos que a noite era um jardim de neve e lobos./E gostávamos de estar vivos, entre vinhos e brasas,/
muito longe do mundo,/de todas as presenças vãs/envoltos em ternura e lãs.” O contraste entre “neves e lobos” e “ternura e lãs” é que sustentam a hipótese de nova perspectiva na/da leitura do poema. Os “vinhos e brasas” são o motor desta situação intimista que se choca com a ideia de morte, implícita, acredito. Uma leitura mais atenta e o ânimo para escrever mais, podem oferecer outros detalhes e perspectivas de leitura deste poema. Por enquanto, é só!

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Desconexo

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De que o preço do combustível está caro, ninguém dúvida. O eu não se explica é como a galinha bebe tanta água e não faz xixi. Alguém já viu galinha fazendo xixi. Esse é o tipo de dúvida que, dizem alguns, estava por detrás das ideias de Clarice Lispector: quem veio primeiro, a galinha ou o ovo? E pensar que ela escrevia com a máquina de escrever nos joelhos, datilografando – a meninada descolada e muito militante de hoje não faz ideia do “significado” deste verbo e seus desdobramentos discursivos e comportamentais… aliás, essa menina sabe alguma coisa que, de fato, se aproveite? – com a mão livre a outra segurava um dos filhos. Que coisa! A foto mostra um grupo de senhoras “da terceira idade” – alguém sabe me dizer quem inventou esta expressão e com que critério? – freneticamente digitando em seus “espertos”, em grupo: a legenda diz “a máfia do Whatsapp”. Que coisa! Falam daqui, falam dali, mas há evidências que escapam. Pensei numa oração: A noite é o útero do dia. Será que é muito feia? Li, numa entrevista dada por António Lobo Antunes – “uma chatice”, segundo ele, pois o interlocutor fez apenas uma pergunta e o entrevistado falou por quase uma hora e meia! – que um escritor é bom quando escreve determinadas frases. E cita algumas. Todas interessantes, é verdade. Daí pensei nesta. Será que no devido contexto esta frase ficaria bem. Ingenuidade a minha pensar que, um dia, o imponderável se digne virar o olhar sobre esta imperceptível criatura e sorria, com certo desdém e diga: está bom! Ainda bem que sonhar não paga imposto. Mas que a noite é o útero do dia, ah… isto é mesmo. Pois o dia “nasce” e a noite “cai”. Os verbos são sempre estes: na notícia de jornal e no verso do poeta. Que coisa! Por falar em poeta:

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A Poesia Vai Acabar

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»    E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina, “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo. Calma é apenas um pouco tarde” (Poesia Reunida, Ed. Assírio & Alvim)

Bom final d semana!

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